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Havia muito tempo que a política nacional não produzia um personagem tão hamletiano como Rodrigo Pacheco (PSB-MG), atravessado por angústias, hesitações, obsessões e, provavelmente, por algum desejo de vingança. Com seu jeito sereno, que às vezes beira a melancolia do Hamlet de William Shakespeare, o senador mineiro é atualmente protagonista em duas grandes tragédias do PT e do presidente Lula: a crise entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado e a eleição no segundo maior colégio do país.
Advogado de formação, Pacheco queria ter sido indicado por Lula para o STF neste ano. Seria uma justa recompensa ao papel desempenhado por ele enquanto presidente do Senado na virada da gestão Jair Bolsonaro (2019-2022) para o atual mandato do petista. Muita gente importante e atenta da política diz que a PEC da Transição, essencial para o cumprimento das promessas sociais de Lula em 2023, não teria sido possível sem o empenho crucial do senador.
Mas Lula escolheu o advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF e pediu a Pacheco para ser candidato ao governo de Minas. A partir deste ponto, surgem tantas suspeitas de traições, conchavos e planos ardilosos que o enredo se afasta da tragédia do príncipe Hamlet e se aproxima mais das peças históricas e políticas de Shakespeare, como Ricardo III, Ricardo II e Júlio César.
Em uma versão condensada da trama, porém, o que importa para o futuro da relação Lula-Pacheco é que Messias não ficou com a vaga, em ação direta de Davi Alcolumbre (União-AP). O presidente do Senado nunca escondeu sua predileção pelo colega senador por Minas e agora trabalha para emplacá-lo no Tribunal de Contas da União (TCU). Se aceitar o agrado, Pacheco estará fora da eleição, e Lula, em sérias dificuldades.
Diante de tantas incertezas, Pacheco pediu um tempo para pensar. Sabe da importância da eleição em Minas nos planos de Lula. Sem ele em cima de um palanque, o presidente terá de construir em pouco tempo um arranjo com outro candidato, provavelmente de fora do PT, pois o partido enfrenta uma grave crise de imagem no estado e seu principal ativo eleitoral, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, tem boas chances de ser eleita para o Senado.
Com Pacheco fora, as opções colocadas até agora para Lula em nada aplacam esse cenário confuso. O ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT) não confia no presidente e também não possui a confiança do PT. A outra alternativa é tirar do chão a primeira candidatura do empresário Josué Alencar (PSB), ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ninguém, porém, consegue garantir que um experimento dessa magnitude dará certo logo de cara.
Assim, enquanto a trama se desenrola lentamente, Pacheco segue se movimentando como o taciturno e atormentado Hamlet no Castelo de Helsinor. Aliados próximos dizem que o senador ainda não desistiu da vaga no STF e que essa sua obsessão é capaz de colocá-lo na disputa pelo governo.
Ainda segundo esses aliados, Pacheco estaria esperando Lula se mexer, ou seja, dar ao senador a sinalização de que, se concorrer ao governo de Minas e for derrotado, será indicado para o STF em um eventual novo mandato do presidente. Não é um arranjo simples de ser feito porque também demanda a reaproximação entre o petista e Alcolumbre, empreitada na qual Pacheco está empenhado.
Há ainda, claro, as duas eleições para serem disputadas, a da Presidência e a do governo, nas quais as atuais projeções indicam disputas apertadas e sem garantias de vitória. Se Pacheco ganhar para governador, tudo certo para ele. Se perder, seria o nome para o STF em uma das três vagas que serão abertas a partir de 2027.
Ou seja, Pacheco dependeria, sobretudo, da força de Lula para definir seu futuro como figura pública. Não é uma decisão simples, pelo contrário, extremamente difícil e angustiante por seu alto grau de complexidade. Mas, como diz o personagem Polônio na peça Hamlet, o plano do senador, “embora seja loucura, possui certo método”.
Em negociações com Flávio Bolsonaro, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), líder das pesquisas para o governo de Minas, entrou de cabeça na campanha em defesa do detergente Ypê, reprovado pela Anvisa e, por isso, aclamado pelos bolsonaristas. Nos bastidores, a aposta é de que ambos acertem esta semana a formação de uma chapa conjunta no estado.
A expectativa entre os correligionários de Romeu Zema (Novo) é de que ele cresça nas próximas pesquisas de intenção de voto para presidente. Se isso acontecer, será um alívio para o atual governador de Minas, Mateus Simões (PSD), que ainda não decolou e jurou lealdade a seu antecessor na montagem do palanque no estado.
O fraco desempenho de Simões até agora tem levado muita gente em Minas a questionar o mito de que Gilberto Kassab é mesmo um gênio da política. Afinal, o presidente do PSD trocou Pacheco pelo atual governador, em movimento que até hoje poucos conseguiram entender.