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O avanço da era digital chegou a um ponto em que o Código Civil brasileiro já não consegue acompanhar. Foi o que apontaram juristas durante o terceiro encontro da série “Reforma do Código Civil em Foco”, realizado na FGV do Rio de Janeiro na última sexta (11). O tema em destaque: a herança digital — ainda sem regulamentação clara no Brasil.
A ministra do STJ Nancy Andrighi chamou atenção para os dilemas jurídicos enfrentados quando o falecido deixa senhas, arquivos pessoais, contratos ou perfis digitais sem qualquer instrução. Segundo ela, o Código precisa urgentemente reconhecer os bens digitais como uma nova categoria jurídica, que pode incluir tanto itens patrimoniais (como criptomoedas) quanto existenciais (como fotos íntimas, cartas e mensagens privadas).
Nancy propôs que os bens digitais sejam classificados entre transmissíveis (que podem passar aos herdeiros) e intransmissíveis (que envolvem intimidade, segredos ou cláusulas de sigilo). Para ela, a solução está na criação de um “incidente de identificação e avaliação dos bens digitais pós-morte”, separado do inventário principal, com atuação de um novo profissional: o inventariante digital, perito autorizado a acessar o conteúdo do falecido.
A ministra apontou que, sem esse tipo de mecanismo, o juiz se vê em conflito com o princípio da saisine, que garante aos herdeiros todos os bens deixados. “E se entre esses bens estiverem revelações que causem dor, humilhação ou até prejudiquem terceiros?”, questionou.
A desembargadora Jaqueline Montenegro (TJ-RJ) também foi enfática: o Código Civil em vigor, com base na realidade da década de 1970, “nasceu velho” e não oferece respostas à sociedade atual. Ela destacou avanços no anteprojeto, como a desburocratização da área de família, o reconhecimento de novos modelos afetivos e o fortalecimento da autonomia civil. Mas alertou para lacunas importantes, como a falta de uma abordagem mais profunda sobre famílias plurais e uniões poliafetivas.
“Estamos diante de uma nova realidade social e digital. Precisamos de regras claras que reflitam o mundo que vivemos — inclusive o mundo pós-morte”, afirmou.
Fonte
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