Ciro Gomes abraça pautas e práticas do bolsonarismo para ‘salvar’ o Ceará do PT

O diagnóstico segue o mesmo. A eloquência e contundência no discurso também. Mas os eleitores do Ceará já notaram um Ciro Gomes diferente na pré-campanha ao governo do oitavo maior colégio eleitoral do país. A começar pelo palanque montado pelo ex-governador, ex-ministro de Lula e ex-presidenciável. 

No lugar dos acadêmicos, dos industriais e da jovem militância trabalhista das campanhas anteriores, ganham destaque pastores, militares e influenciadores de extrema direita que enxergam nele uma chance rara de desbancar o atual governador, o petista Elmano de Freitas. Ciro abraçou boa parte das pautas e de algumas práticas bolsonaristas na corrida eleitoral que ele lidera antes mesmo da campanha começar oficialmente.

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De volta ao PSDB e após recusar o convite de Aécio Neves para concorrer pela quinta vez ao Planalto, Ciro foi buscar a bênção da direita cearense pra ganhar musculatura na corrida estadual.

Em seu discurso agora ganham força a pauta da segurança pública, referências à religiosidade e elogios a antigos desafetos, como o ex-humorista e deputado federal André Fernandes, presidente do PL cearense.

“Sim, se pegar na internet coisas que um andou dizendo do outro no passado, vai ser uma beleza pra quem quiser fazer a sabotagem”, disse Ciro no lançamento da pré-campanha em Fortaleza ao lado do bolsonarista. “Mas a pergunta que se deve fazer é: essa reunião é pra quê? É pra atender o benefício pessoal, particular? Ou é pra libertar o Ceará do inimigo maior, da tragédia maior? Eu estou com minha consciência tranquila.”

Como líder do PL, André foi o principal responsável pela articulação do apoio bolsonarista ao tucano. Aos 28 anos, ele entrou na política após virar uma figura pop da direita cearense. Tornou-se conhecido fazendo vídeos humorísticos nas redes sociais e ao se engajar na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016. Apoiador de primeira hora de Jair Bolsonaro no Ceará, elegeu-se deputado estadual, depois federal e chegou ao segundo turno na corrida à prefeitura de Fortaleza em 2024, perdendo para Evandro Leitão (PT) por apenas 0,76% ou 10,8 mil votos. 

Para selar a aliança com Ciro, André teve que comprar briga com Michelle Bolsonaro. A ex-primeira dama tem trabalhado para desfazer o acordo já que garantiu apoio ao senador Eduardo Girão (Novo). No começo de maio, ao defender o fim da aliança do PL com o ex-governador, ela republicou uma entrevista na qual Ciro diz que Bolsonaro “é quase um burro, quase um jumento, um cara imbecil mesmo”. O acordo, porém, é chancelado pelos filhos de Bolsonaro.

A disputa provocou um racha na base de extrema direita do estado, mas André tem ainda um motivo pessoal para bater o pé. Como parte do acerto controverso, o deputado indicou o pastor Alcides Fernandes, seu pai, para compor a chapa do tucano ao Senado. A tropa de Ciro também tem sua unidade, de fato, militar, composta por Capitão Wagner (União Brasil), ex-candidato ao governo, e o Inspetor Alberto (PL), vereador de Fortaleza.

Ciro também tem o apoio de políticos como o deputado federal Doutor Jaziel, também do PL, que é pastor e se descreve como “cristão, patriota e conservador”. Em um evento com cabos eleitorais em fevereiro, Jaziel se referiu à história de Ciro, o Grande, que, segundo o Velho Testamento teria sido ungido por Deus para libertar os judeus da escravidão na Babilônia.

O deputado comparou o Ciro bíblico ao político cearense. “Vai dizer o quê do Ciro? Inteligente, competente, governador e também… [de] direita”, completou, arrancando palmas do público e um sorriso de Ciro.

A aproximação com a extrema direita pode ser considerada uma inflexão relevante mesmo na biografia de um político acostumado a inflexões do tipo. “Revelado” pelo antigo PSD, herdeiro do partido da ditadura, a Arena, Ciro se elegeu governador do Ceará pelo PSDB. Mas foi junto a partidos mais à esquerda, como o PSB e o PDT, que o cearense concorreu quatro vezes a presidente. E foi nessas campanhas que Ciro apresentou ao país seu Projeto Nacional de Desenvolvimento, que previa a reindustrialização do Brasil por meio de maior participação estatal na economia e o fortalecimento dos direitos trabalhistas.

Afagos ao agro

Por tudo isso, fica mais fácil entender outras inflexões que Ciro tem feito, não apenas no discurso, mas no programa. Uma delas reside na questão ambiental. Em sua última campanha à presidência, em 2022, Ciro dizia que “o crescimento do Brasil passa necessariamente por uma agenda ambiental clara, capaz de provar que a floresta em pé vale muito mais que um campo desmatado.”

Agora, ele chama de “estúpidos” ambientalistas que se opõem a obras que causam impactos à natureza. Em um encontro de empresários do agro em março. em Fortaleza, Ciro defendeu o setor. “Claro que nenhum de vocês está interessado em destruir seu ativo principal que é a terra, o recurso hídrico. Ninguém aqui quer intoxicar trabalhador. [Isso é] Só o preconceito de uma gente estúpida que é contra tudo o que representou progresso no Ceará […] Eles são contra qualquer coisa. E também são contra a produção.”

O tucano arrancou aplausos ao prometer acabar com o licenciamento ambiental como ele existe hoje, com estudos de impacto ambiental e a previsão de medidas de redução de danos e compensação. Seu projeto é substituí-lo por uma declaração simples de próprio punho do empresário, suficiente para autorizar a obra. 

“A ideia aqui é que você substitua esse emaranhado insuportável, ininteligível de regramentos que muitas vezes são a criação de dificuldade pra vender facilidade de um sistema corrupto que vive dessas questões”, disse ele. “Eu pretendo propor uma mudança de sistemática. Cada empreendedor que tiver vontade de empreender no Ceará vai receber um caderno de encargos, dizendo quais são as condições legais, que serão todas revistas pra ficar só aquilo que for moderno e essencial. O empreendedor vai dizer: ‘Eu cumpro essa condição’ e no fim vai dizer: ‘Tudo o que eu falei aqui é verdade sob as penas da lei`. E a partir daí, assinou, entregou pro governo, pode produzir. Se o governo quiser que vá atrás pra mostrar que o cabra mentiu.”

A proposta está alinhada com a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), instrumento previsto na nova Lei Geral do Licenciamento, em vigor a partir de 2026. A lei foi apelidada pelos ambientalistas de “Lei da Devastação”, justamente por afrouxar as regras de proteção ambiental, e está sendo questionada no STF. 

A lei federal já permite o autolicenciamento de certas atividades de médio e baixo impacto em processos analisados pela União. A ideia de Ciro é estender esse benefício também ao âmbito estadual.

Discurso antipetista e liderança nas pesquisas

A construção da candidatura de Ciro tem se mostrado eficiente na corrida ao Palácio da Abolição. Seus movimentos dominam o noticiário político local e, por ser um nome muito conhecido, ele se beneficia do chamado “recall eleitoral”. Na mais recente pesquisa Genial/Quaest, do final de abril, Ciro aparece em primeiro lugar, à frente do governador Elmano de Freitas, no primeiro e no segundo turnos.

Sua aposta no discurso antipetista parece estar funcionando, o que chama atenção diante de eleitorado que é tradicionalmente bastante lulista. Em 2022, Lula venceu Bolsonaro por 39 pontos percentuais e ajudou a eleger Elmano ainda no primeiro turno. Quatro anos depois, o governo Elmano é aprovado por 53% dos cearenses, mas o governador consegue superar Ciro nas pesquisas.

Uma das apostas da campanha petista será desconstruir a imagem de Ciro, uma tarefa que, aliás, o partido já conseguiu fazer com sucesso em anos anteriores. O abraço do tucano ao bolsonarismo local será, certamente, um ponto chave. 

Mas, se nada der certo, o PT trabalha com um plano B: a candidatura de Camilo Santana, ex-governador e ex-ministro de Lula, o único nome petista que, segundo as pesquisas, venceria Ciro hoje. De toda forma, o que se desenha no Ceará é uma disputa acirrada entre petistas e antipetistas. 

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Tão acirrada que já produziu até uma condenação por violência política de gênero. No dia 19 de maio, o juiz eleitoral Edson Feitosa dos Santos Filho, da 115ª Zona Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), condenou Ciro a um ano e quatro meses de prisão por proferir ofensas sexistas contra a prefeita de Crateús, a petista Janaína Farias. Em 2024, Ciro a chamou de “cortesã” e “assessora para assuntos de cama” de Camilo Santana. O juiz converteu a prisão em pagamento de multa de 70 salários mínimos. O tucano disse que seus comentários destinavam-se a Camilo Santana, e não a Janaina, e que pretende recorrer da condenação.

Ciro Gomes passou os últimos 20 anos se apresentando como uma terceira via, uma alternativa à polarização do PT com seus adversários da ocasião: primeiro os tucanos, e mais recentemente os bolsonaristas. Agora, ao se aliar à extrema-direita para “salvar” o Ceará do PT, ele parece querer dizer que, para superar a polarização, é preciso aprofundá-la. 

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