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A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas, anunciada pelo governo americano nesta quinta-feira (28/5), ajuda a oxigenar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) ao Palácio do Planalto, após os estragos causados pela revelação dos áudios em que o senador pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ao mesmo tempo, deixa o presidente Lula (PT) em situação delicada para se contrapor a uma medida que, em um primeiro momento, tende a angariar apoio entre o eleitorado exaurido pela criminalidade no país.
O anúncio, feito um dia depois da visita do senador a Washington, serviu como demonstração inequívoca dos canais abertos pelo clã Bolsonaro em setores do governo americano, mais notadamente o Departamento de Estado e a Vice-Presidência, comandados respectivamente por Marco Rubio e J.D. Vance.
Também deu um ar de efetividade à estadia do Flávio nos EUA, algo que vai além da foto conseguida por Lula ao lado de Trump após três horas de reunião entre representantes dos dois países. O encontro dos presidentes, apesar de positivo para Lula, não resultou em nenhum anúncio, acordo ou memorando assinado. Flávio, por sua vez, conseguiu ao menos acelerar uma medida que já era dada como certa — e que contava com a forte oposição do Palácio do Planalto.
Enquanto o entorno do presidente e integrantes de sua pré-campanha ainda pensavam sobre como se manifestar, Flávio Bolsonaro foi às redes para dizer que em uma viagem como candidato fez mais pelo Brasil do que o PT “em 17 anos de governo”. Repetiu que o rival, três semanas antes, “foi de joelhos atrás do Trump para fazer lobby a favor do CV e do PCC”. E, em uma vacina contra o discurso do governo de que a medida viola a soberania brasileira, afirmou que os brasileiros que vivem nas áreas dominadas por esses grupos não possuem “soberania dentro de suas próprias casas”.
O governo vem fazendo nos últimos meses pesquisas qualitativas para averiguar a percepção do eleitor sobre os EUA classificarem os grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas. E os resultados agradaram, segundo fontes com quem o JOTA conversou antes e depois do anúncio.
De acordo com os relatos, os entrevistados se mostraram contrários com relação à possibilidade de uma intervenção dos EUA em território brasileiro. Embora inicialmente alguns apoiassem a nova nomenclatura de “terroristas” para esses grupos, eles imediatamente passaram a demonstrar receio quando confrontados com a hipótese de uma incursão armada ou até mesmo de bombardeios americanos em regiões de favela.
Com base nisso, a pré-campanha de Lula já ensaiava um discurso para se contrapor à defesa da medida feita pelo bolsonarismo. A ideia era trabalhar o medo captado nas pesquisas qualitativas e usá-lo como trunfo eleitoral, realçando a subserviência do bolsonarismo a Donald Trump.
Mas, com o anúncio já feito e a nova classificação em vigor a partir de 5 de junho, o quadro mudou. Enquanto não houver uma consequência direta — algo como uma intervenção real, uma incursão americana em território brasileiro, os temidos bombardeios em áreas dominadas pelo crime —, o anúncio de Rubio tende a ser visto como uma ação efetiva contra esses grupos.
A medida pode ainda afetar os interesses da Faria Lima, e as consequências, nesse caso, são mais imprevisíveis. Se atrapalhar os negócios de empresas e bancos brasileiros, a tendência é que o mercado se irrite mais uma vez com o clã Bolsonaro, em fenômeno semelhante ao que ocorreu durante o tarifaço de 2025. Mas, se os impactos chegarem à economia real, a população vai culpar Flávio ou Lula?
O governo ainda aposta que sua visão sobre soberania prevalecerá no debate público, reforçando a visão de que o bolsonarismo é submisso aos Estados Unidos de Donald Trump. Mas seria muito mais fácil encontrar um discurso contra a medida anunciada por Rubio enquanto ela estava somente no campo das ideias.
Agora, até que as tropas do Tio Sam invadam a Baía da Guanabara ou caia a primeira bomba sobre uma comunidade brasileira, Lula terá que ser muito hábil para criticar a classificação de CV e PCC como grupos terroristas sem parecer que está defendendo bandido.