A formação médica de que o Brasil precisa

Todos os dias, o Brasil realiza milhões de consultas médicas. Em cada uma delas, um cidadão ou uma cidadã se coloca diante de um profissional para expor uma queixa, uma dor, uma dúvida sobre sua própria saúde — e espera receber uma resposta.

A maioria dos pacientes não chegam ao consultório com diagnóstico pronto, mas com sinais e sintomas que precisam ser interpretados. É nessa tradução — da queixa à conduta — que reside o núcleo da competência médica. E é justamente ela que está em questão quando se fala em qualidade da formação.

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Um sistema de saúde eficiente não deve substituir o exame clínico por baterias de solicitações laboratoriais. Quando isso ocorre, é sinal de fragilidade. Uma falha num dos fundamentos da formação médica — a semiologia e a propedêutica.

O médico que ausculta, palpa e percute antes de solicitar não é uma exceção a ser admirada; deveria ser a regra. Para que seja a regra, porém, é preciso discutir com rigor como o Brasil forma, avalia e habilita seus médicos.

A partir de 2018 houve um crescimento desordenado de cursos de medicina sem a devida contrapartida regulatória, muitas vezes em locais com serviços saturados de estudantes, comprometendo a qualidade da formação ofertada.

Um retrato atual dos cursos de medicina pode ser delineado pela com a edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, realizada em 2025: 33% dos concluintes de medicina não atingiram nota mínima para proficiência, um reflexo dessa expansão desordenada.

A experiência internacional é, nesse ponto, iluminadora — não como modelo a ser copiado, mas como paradigma de escolhas institucionais.

Nos Estados Unidos, o United States Medical Licensing Examination (USMLE) estrutura a avaliação médica em três etapas progressivas, distribuídas ao longo da formação e do início do exercício profissional, com vinculação ao licenciamento estadual. No Reino Unido, o General Medical Council (GMC) vai além da entrada na profissão: exige a revalidação periódica — a cada cinco anos — de todos os médicos em exercício, assegurando que a competência clínica não seja verificada uma única vez para sempre. No Canadá, o Medical Council of Canada (MCC) aplica avaliações que incluem estações de competência clínica prática, com foco na capacidade de raciocínio diagnóstico.

Em nenhum desses sistemas a avaliação é delegada a entidades corporativas de classe, mas conduzida por organismos de Estado com governança técnica, independência e transparência.

É por essa razão que o debate sobre qualidade da formação médica no Brasil precisa ir além da instituição de uma mera prova. Uma avaliação pontual, aplicada apenas ao concluinte com valor diagnóstico limitado e, sobretudo, transferindo ao estudante o ônus de uma falha que frequentemente é institucional.

Um sistema de avaliação consistente precisa alcançar o estudante em diferentes momentos da graduação — identificando lacunas quando ainda há tempo de corrigi-las — e, ao mesmo tempo, incidir sobre as instituições de ensino, responsabilizando os cursos insatisfatórios pela qualidade do que oferecem.

A atuação articulada entre os Ministérios da Saúde e da Educação aponta exatamente nessa direção: construir um sistema integrado de avaliação, que envolva o estudante, a instituição e o processo formativo em sua integralidade.

Mas o ciclo da formação não se encerra na graduação, continua na residência médica que é o principal caminho para formação de especialistas, a qual precisa ser expandida e também avaliada.

Em que pese a retomada e a expansão da oferta de vagas de residência nos últimos três anos, nosso horizonte deve ser mais largo: universalizar progressivamente o acesso à residência médica como objetivo estratégico de longo prazo.

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Os esforços precisam ser constantes, articulados com as necessidades reais do SUS e atentos às regiões onde a escassez de especialistas é mais aguda.

Formar bem não basta se a residência for para poucos.

A qualidade da formação médica é, em última análise, uma questão de Estado — não de corporações ou do interesse privado. O cidadão que se senta no consultório merece ser atendido por um médico com competência clínica. E o profissional bem formado merece um sistema que reconheça sua capacidade — não como obstáculo burocrático, mas como garantia pública de que o encontro clínico, aquele momento de confiança entre quem cuida e quem é cuidado, foi precedido por uma formação à altura de sua responsabilidade.

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