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O presidente Lula (PT) entrou de vez nos últimos dias no modo campanha, mas com temas que já estão postos desde o ano passado. Após a humilhante derrota de seu indicado ao STF, Jorge Messias, em votação no Senado, e com o quadro eleitoral indefinido, o Planalto parece ter entendido que é hora de agir.
Três eventos nos últimos dias marcaram essa mudança de chave de Lula. Primeiro, uma visita acertada aparentemente às pressas aos Estados Unidos para uma reunião com o presidente Donald Trump. Segundo, o discurso do petista na solenidade que marcou o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid. E, por fim, o lançamento nesta terça-feira (12/5) de um plano de combate ao crime organizado, que prevê desembolsos de R$ 11 bilhões para asfixiar financeiramente as facções.
Esses três acontecimentos antecipam em boa parte os temas que Lula pretende colocar na campanha para derrotar Flávio Bolsonaro (PL) e um que lhe é desfavorável, mas do qual ele não conseguirá fugir: a segurança pública.
O encontro com Trump serviu para reverter a pauta negativa gerada pela rejeição de Messias. Mas também recolocou à mesa o tema da defesa da soberania nacional. Também se reforçou a tentativa de passar ao eleitor a imagem de que Lula é capaz de dialogar com líderes de diversos matizes e defender os interesses do país, sem o “entreguismo” atribuído ao clã Bolsonaro.
Dias depois de voltar de Washington, nesta segunda-feira (11/5), o presidente fez um discurso de forte viés eleitoral na solenidade que instituiu o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Com menções e ataques diretos ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sua fala marcou uma mudança na retórica de Lula, que costumava chamar o antecessor de “o coiso” ou “aquele que estava aqui antes de mim”, sem citar seu nome.
“Bolsonaro dizia: a pressa da vacina não se justifica. Essa fala foi em entrevista publicada em canal de YouTube do seu filho, aquele fujão que está nos Estados Unidos tentando pregar golpe contra o Brasil”, disse, em uma referência a Eduardo Bolsonaro.
Essa manifestação carrega algumas marcas que a campanha petista pretende implementar no período eleitoral. A primeira é a da comparação com a gestão Bolsonaro, em diversas áreas, de saúde à economia, confiando que isso convencerá o eleitor independente a votar em Lula, mesmo a contragosto.
Rememorar os brasileiros da desastrada condução da pandemia pela gestão anterior é visto como um trunfo para os atuais ocupantes do Planalto. A segunda é estampar nessa retórica um certo elemento de medo de que o bolsonarismo volte a comandar o país. E a última, que novamente aparece, é a questão da soberania.
Já com o lançamento do plano de combate ao crime organizado, Lula tenta encontrar um discurso para aquele que é visto como o ponto fraco das gestões petistas e da esquerda em geral. Da maneira como foi idealizado, o plano reforça o discurso já ensaiado no ano passado de que as facções devem ser combatidas mais com inteligência e mecanismos financeiros do que com armas.
Novamente, essa pauta dialoga com 2025, quando uma violenta operação policial no Rio de Janeiro marcou o início do fim da recuperação da popularidade do presidente, que entrou em um ciclo de más notícias que parecia não terminar.
Na solenidade, Lula também realçou a promessa de criar o Ministério da Segurança Pública tão logo a PEC que tramita sobre o tema seja aprovada pelo Senado. Caso isso ocorra, o que depende de um acerto na conturbada relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), o petista poderá dar uma marca à sua gestão nessa área. Resta saber o potencial de isso se converter em votos na apertada eleição que se avizinha.
Interlocutores afirmam que Lula estava relativamente tranquilo em relação às suas chances de vitória até há algumas semanas. Mas ficou assustado com apresentações de pesquisas qualitativas feitas a ele pelo comando de pré-campanha.
Essas pesquisas detectaram um sentimento de grande desalento de parte do eleitorado, com desejo real de mudanças, o que em tese favorece muito a candidatura opositora de Flávio Bolsonaro. O endividamento contribui para esse mal-estar, somado à impressão de que os bons indicadores econômicos não têm se refletido em uma sensação de mais dinheiro no bolso das pessoas.
Lula também tem outros fatores para se preocupar e sobre os quais pode não ter tanto controle. A guerra no Oriente Médio já impacta a economia. O governo tem promovido subsídios aos combustíveis, mas fontes do mercado vislumbram a possibilidade de um pico na inflação de alimentos nos três meses que antecedem a eleição presidencial.
Além disso, há tempos já se identifica um certo cansaço geral com a imagem pessoal do presidente. Aos 80 anos, Lula foi protagonista em praticamente todas as eleições desde 1989, após a redemocratização do país. Sua aprovação não consegue acompanhar a boa avaliação de iniciativas do governo, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e benefícios como subsídios ao gás, à conta de luz e a estudantes do ensino médio. “Fadiga de material” é analogia comum entre aliados do presidente que tentam explicar o fenômeno.
Pode haver algum alívio nas próximas semanas caso as pesquisas confirmem a tendência já demonstrada em levantamentos recentes de diferentes institutos de estagnação de Flávio e leve recuperação da popularidade de Lula. Mas, segundo relatos, o petista está de fato preocupado com a possibilidade de encerrar sua carreira com uma derrota nas urnas.