Lula entra no modo campanha e resgata bandeiras de 2025 para tentar pautar eleição

O presidente Lula (PT) entrou de vez nos últimos dias no modo campanha, mas com temas que já estão postos desde o ano passado. Após a humilhante derrota de seu indicado ao STF, Jorge Messias, em votação no Senado, e com o quadro eleitoral indefinido, o Planalto parece ter entendido que é hora de agir.

Três eventos nos últimos dias marcaram essa mudança de chave de Lula. Primeiro, uma visita acertada aparentemente às pressas aos Estados Unidos para uma reunião com o presidente Donald Trump. Segundo, o discurso do petista na solenidade que marcou o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid. E, por fim, o lançamento nesta terça-feira (12/5) de um plano de combate ao crime organizado, que prevê desembolsos de R$ 11 bilhões para asfixiar financeiramente as facções.

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Esses três acontecimentos antecipam em boa parte os temas que Lula pretende colocar na campanha para derrotar Flávio Bolsonaro (PL) e um que lhe é desfavorável, mas do qual ele não conseguirá fugir: a segurança pública.

O encontro com Trump serviu para reverter a pauta negativa gerada pela rejeição de Messias. Mas também recolocou à mesa o tema da defesa da soberania nacional. Também se reforçou a tentativa de passar ao eleitor a imagem de que Lula é capaz de dialogar com líderes de diversos matizes e defender os interesses do país, sem o “entreguismo” atribuído ao clã Bolsonaro.

Dias depois de voltar de Washington, nesta segunda-feira (11/5), o presidente fez um discurso de forte viés eleitoral na solenidade que instituiu o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Com menções e ataques diretos ao ex-presidente Jair Bolsonaro, sua fala marcou uma mudança na retórica de Lula, que costumava chamar o antecessor de “o coiso” ou “aquele que estava aqui antes de mim”, sem citar seu nome.

“Bolsonaro dizia: a pressa da vacina não se justifica. Essa fala foi em entrevista publicada em canal de YouTube do seu filho, aquele fujão que está nos Estados Unidos tentando pregar golpe contra o Brasil”, disse, em uma referência a Eduardo Bolsonaro.

Essa manifestação carrega algumas marcas que a campanha petista pretende implementar no período eleitoral. A primeira é a da comparação com a gestão Bolsonaro, em diversas áreas, de saúde à economia, confiando que isso convencerá o eleitor independente a votar em Lula, mesmo a contragosto.

Rememorar os brasileiros da desastrada condução da pandemia pela gestão anterior é visto como um trunfo para os atuais ocupantes do Planalto. A segunda é estampar nessa retórica um certo elemento de medo de que o bolsonarismo volte a comandar o país. E a última, que novamente aparece, é a questão da soberania.

Já com o lançamento do plano de combate ao crime organizado, Lula tenta encontrar um discurso para aquele que é visto como o ponto fraco das gestões petistas e da esquerda em geral. Da maneira como foi idealizado, o plano reforça o discurso já ensaiado no ano passado de que as facções devem ser combatidas mais com inteligência e mecanismos financeiros do que com armas.

Novamente, essa pauta dialoga com 2025, quando uma violenta operação policial no Rio de Janeiro marcou o início do fim da recuperação da popularidade do presidente, que entrou em um ciclo de más notícias que parecia não terminar.

Na solenidade, Lula também realçou a promessa de criar o Ministério da Segurança Pública tão logo a PEC que tramita sobre o tema seja aprovada pelo Senado. Caso isso ocorra, o que depende de um acerto na conturbada relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), o petista poderá dar uma marca à sua gestão nessa área. Resta saber o potencial de isso se converter em votos na apertada eleição que se avizinha.

Desalento e preocupação

Interlocutores afirmam que Lula estava relativamente tranquilo em relação às suas chances de vitória até há algumas semanas. Mas ficou assustado com apresentações de pesquisas qualitativas feitas a ele pelo comando de pré-campanha.

Essas pesquisas detectaram um sentimento de grande desalento de parte do eleitorado, com desejo real de mudanças, o que em tese favorece muito a candidatura opositora de Flávio Bolsonaro. O endividamento contribui para esse mal-estar, somado à impressão de que os bons indicadores econômicos não têm se refletido em uma sensação de mais dinheiro no bolso das pessoas.

Lula também tem outros fatores para se preocupar e sobre os quais pode não ter tanto controle. A guerra no Oriente Médio já impacta a economia. O governo tem promovido subsídios aos combustíveis, mas fontes do mercado vislumbram a possibilidade de um pico na inflação de alimentos nos três meses que antecedem a eleição presidencial.

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Além disso, há tempos já se identifica um certo cansaço geral com a imagem pessoal do presidente. Aos 80 anos, Lula foi protagonista em praticamente todas as eleições desde 1989, após a redemocratização do país. Sua aprovação não consegue acompanhar a boa avaliação de iniciativas do governo, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e benefícios como subsídios ao gás, à conta de luz e a estudantes do ensino médio. “Fadiga de material” é analogia comum entre aliados do presidente que tentam explicar o fenômeno. 

Pode haver algum alívio nas próximas semanas caso as pesquisas confirmem a tendência já demonstrada em levantamentos recentes de diferentes institutos de estagnação de Flávio e leve recuperação da popularidade de Lula. Mas, segundo relatos, o petista está de fato preocupado com a possibilidade de encerrar sua carreira com uma derrota nas urnas.

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