Galípolo nega interferência política no Banco Master e pede apoio ampliar autonomia do BC

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira (8/4), em depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado, que a liquidação do Banco Master foi resultado do agravamento da situação de caixa da instituição e negou ter sofrido pressão política no processo. Segundo ele, a orientação recebida foi para agir com autonomia técnica, “sem proteger ninguém, sem perseguir ninguém”.

Ao longo da oitiva, Galípolo também rebateu insinuações sobre interferência de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito do caso, disse que a relação com integrantes da Corte se deu em torno de temas ligados à crise da Magnitsky e defendeu o andamento da PEC 65/2023, que amplia a autonomia institucional do Banco Central.

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O presidente do BC ainda explicou por que a autarquia optou por afastar supervisores de carreira só após a conclusão de uma apuração preliminar, relatou uma reunião no Palácio do Planalto com o banqueiro Daniel Vorcaro e afirmou que não há, até o momento, elementos que apontem culpa do ex-presidente da instituição Roberto Campos Neto em auditorias ou sindicâncias.

Também disse que o Banco Central vem sendo observado por outras jurisdições por causa da regulação de criptoativos no Brasil e defendeu que operações com stablecoins tenham exigências equivalentes às aplicadas ao mercado de câmbio tradicional. “Você tem que equiparar as duas regulações efetivamente”, afirmou.

Liquidação do Banco Master

Galípolo afirmou que, depois de o Banco Central negar, em setembro, a operação envolvendo a aquisição pelo BRB, o Master renovou sua linha de apoio junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), sob novas condições e exigências. Segundo ele, o próprio banco reconheceu dificuldades e apresentou ao BC um plano para deixar o mercado, com a perspectiva de venda da instituição.

De acordo com o presidente do BC, a negociação chegou a ser associada a investidores árabes, que, segundo ele, jamais foram apresentados formalmente à autoridade monetária. Ao longo do processo, porém, o passivo da instituição teria consumido o caixa do banco. “No dia da liquidação, o banco tinha em caixa um valor que era 10% do valor de vencimento que ele tinha para pagar naquele dia”, disse.

Ele também relatou que, em março, a diretoria de Fiscalização passou a investigar carteiras de crédito da instituição diante de dificuldades para encontrar evidências de parte das operações registradas. Segundo Galípolo, esse tipo de apuração é complexo porque a ausência imediata de prova não significa, por si só, inexistência da operação. “Ao não encontrar, demanda que você se desdobre e investigue ainda mais”, afirmou.

PEC do Banco Central

Galípolo fez um apelo ao Senado pela aprovação da PEC 65/2023, que trata da autonomia institucional do Banco Central. Disse que a proposta busca aproximar a estrutura legal brasileira do modelo adotado por outros bancos centrais no mundo. “Eu pedi apoio de início, pedi ajuda, peço socorro”, afirmou.

A seu ver, autonomia da autoridade monetária não significa falta de controle ou redução de transparência. Ao contrário, ele sustenta que o BC quer ampliar a prestação de contas e se submeter à observância pública sobre todos os gastos. “De maneira nenhuma o Banco Central quer se eximir da responsabilidade de prestar conta sobre qualquer centavo que for gasto”, disse.

Na avaliação do presidente do BC, a proposta é necessária para fortalecer a instituição diante de crises. Ele recorreu à imagem de “furacões” para dizer que o papel do BC não é evitar choques, mas estar preparado para resistir a eles com uma estrutura sólida. “A gente não consegue prever furacões, a gente não consegue evitar furacões. A gente consegue construir prédios sólidos para que possam suportar furacões”, afirmou.

Rodízio de supervisores de instituições financeiras

Ao comentar o afastamento de servidores de carreira, Galípolo disse que uma das sugestões apresentadas ainda em setembro foi a retomada do rodízio entre supervisores responsáveis por acompanhar instituições financeiras. “Precisamos voltar a fazer rodízio entre os supervisores”, afirmou.

Segundo ele, a troca periódica de responsáveis ajudaria a evitar acomodação ou apego excessivo à própria análise. Ao mesmo tempo, ponderou que divergências técnicas não podem ser automaticamente tratadas como indício de dolo. Disse que é preciso “tomar o devido cuidado” antes de transformar discordâncias em suspeitas de má-fé.

Galípolo afirmou que o BC evitou afastamentos imediatos porque havia o risco de a medida ser explorada politicamente como perseguição contra a instituição fiscalizada, sobretudo num contexto em que auditorias, agências de rating e escritórios de advocacia sustentavam que a situação estava regular.

Encontro no Palácio do Planalto com Daniel Vorcaro

Galípolo disse que foi chamado para uma reunião no Palácio do Planalto pelo chefe de gabinete da Presidência. Segundo ele, ao chegar ao encontro, encontrou uma narrativa já disseminada em 2025 pelos controladores do Master: a de que o banco estaria sendo perseguido pelo mercado financeiro e, por isso, teria dificuldade para captar recursos.

O presidente do BC afirmou que nunca considerou essa tese aderente à realidade, porque o Master, pelo tamanho, não teria escala suficiente para representar ameaça concorrencial relevante ao sistema financeiro. “Dificilmente um banco que respondia por 0,5% dos ativos do sistema financeiro pudesse estar causando um problema de concorrência pro sistema”, disse.

Para ele, o encontro foi semelhante a situações em que partes interessadas procuram a presidência do Banco Central para apresentar sua versão sobre processos em andamento. Segundo Galípolo, ao ouvir a exposição, a resposta do presidente Lula foi que o tema não cabia ao Palácio do Planalto, mas ao Banco Central, e que a análise deveria ser feita de forma técnica.

Ele afirmou ainda ter recebido como orientação que conduzisse o caso com máxima tecnicidade, autonomia e sem “pirotecnia”. “Seja técnico, o mais técnico possível”, disse ter ouvido. Em outro momento, resumiu a orientação recebida assim: “Não proteja ninguém, não persiga ninguém, faça o trabalho técnico e você tem toda autonomia”.

De acordo com ele, participaram da reunião Daniel Vorcaro, Augusto Lima, o chefe de gabinete da Presidência, o ex-ministro Guido Mantega, o ministro Rui Costa e o ministro Alexandre Silveira. Galípolo afirmou que o então ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) não estava presente.

Relação com ministros do STF

Galípolo negou ter tido qualquer interlocução com o ministro Alexandre de Moraes sobre o Banco Master. “Não”, respondeu, ao ser questionado sobre o tema.
Disse, porém, que mantém relação cordial com ministros do Supremo, assim como com outros integrantes da Corte. “O ministro Alexandre, ou qualquer outro ministro do Supremo, sempre teve uma relação da mais cordial possível comigo”, afirmou.

Segundo ele, conversas com ministros do STF ocorreram em meio à crise relacionada à Magnitsky, que classificou como uma das situações mais complexas de 2025 do ponto de vista sistêmico. Nesses casos, afirmou, entravam em jogo questões de privacidade e sigilo bancário e financeiro, que o Banco Central tem obrigação legal de preservar.

Ministros do TCU

O presidente do Banco Central relatou que houve reunião, na própria sede da autarquia, com os ministros Jhonatan de Jesus e Vital do Rêgo, do Tribunal de Contas da União, quando se discutia a realização de uma inspeção sobre o caso.

Segundo ele, ficou definido que a apuração seria feita pela área técnica do TCU, a AudBancos. Galípolo destacou que Vital chegou a dizer publicamente que o assunto seria resolvido em fevereiro. “O tema teria sido todo resolvido em fevereiro”, afirmou, ao mencionar a fala do ministro.

De acordo com o presidente do BC, o trabalho técnico foi concluído naquele mês e foi “absolutamente irretocável, exemplar, técnico”, mas o processo ainda não foi levado à deliberação final dos ministros do tribunal. Ele afirmou ter voltado a procurar Jhonatan de Jesus recentemente para saber se havia previsão de votação do relatório.

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Criptoativos no Banco Central

Galípolo afirmou que a atuação regulatória do Banco Central no mercado de criptoativos vem sendo observada internacionalmente. Segundo ele, a missão do FSAP, do FMI, avaliou a regulação adotada no Brasil e haverá apresentação do modelo brasileiro a outras jurisdições. “A gente está sendo pioneiro nisso”, disse.

Ele afirmou, porém, que o BC não buscou ser pioneiro por escolha. “Não estamos sendo pioneiros porque gostamos de ser pioneiros. É porque, justamente, esse é um mercado que se desenvolveu muito aqui no Brasil e impôs essa necessidade”, declarou.

A saída encontrada, segundo Galípolo, foi não criar um regime totalmente paralelo ao sistema financeiro tradicional. Pela lógica descrita por ele, quando um criptoativo representar um derivado ou token de um ativo já existente, deve se submeter à regulação do ativo original.

No caso das stablecoins, defendeu que as exigências de informação e controle sejam equivalentes às das operações de câmbio tradicionais, sem tratamento mais flexível. “Não deveria existir uma regulação mais pertinente ou atenciosa quando você compra dólar diretamente e uma mais flexível e leniente quando você compra stablecoin”, afirmou.

Roberto Campos Neto no Banco Master

Galípolo afirmou que não há, até o momento, nenhum elemento em auditorias ou sindicâncias que aponte culpa do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto no caso Master. “Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontra qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos”, disse.

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