Chapa Tereza-Michelle representa união agro-cristã do Brasil do século 21

Flávio Bolsonaro está na berlinda após a exposição de conversas entre ele e Daniel Vorcaro. O senador chegou a chamar o então banqueiro — hoje preso por conta das falcatruas envolvendo o Banco Master — de irmão ao cobrar os recursos prometidos para o filme Dark Horse, que explora a ascensão do pai Jair à Presidência da República.

O estrago é tamanho que setores da centro-direita já cogitam uma chapa alternativa àquela que deve ser encabeçada pelo filho 01, tendo em sua composição a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

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No balão de ensaio lançado antes mesmo do último fim de semana, Tereza — a quem já havia sido oferecida a vaga de vice de Flávio — seria a presidenciável. Porém, é Michelle quem deveria ficar com a cabeça de chapa de modo a atrair o voto evangélico que ainda está com Lula, tanto que será incluída na pesquisa Datafolha a ser feita nesta semana como opção de voto ao Planalto.

Sua trajetória de ascensão social — de mãe solo moradora de uma cidade-satélite de Brasília a líder político-evangélica e esposa de ex-presidente — ressoa fácil entre eleitoras de perfil similar Brasil afora.

Caso a ideia emplaque, o dueto Tereza-Michelle seria a primeira chapa presidencial com organicidade social do Brasil do século 21: a união formal entre agro e evangélicos, respectivamente a base material e simbólica do país na atualidade, tal como detalhei em meu livro Shaping Nations and Markets: Identity Capital, Trade, and the Populist Rage (Routledge, 2024), no qual comparo a ascensão do bolsonarismo à do trumpismo nos Estados Unidos, apoiado por protecionistas e nacionalistas branco-cristãos, e do nacionalismo hindu liderado pelo primeiro-ministro Narendra Modi na Índia.

O bolsonarismo em si tem base social — e Michelle é a representante dele. Mas a chapa vencedora em 2018, com Jair Bolsonaro e o hoje senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), representava sobretudo a caserna, tendo sido encabeçada por um oficial quase expulso do Exército por planejar explodir instalações militares no Rio de Janeiro nos anos 1980 e um general reformado representando as viúvas da ditadura militar, que insistem em chamar a deposição de João Goulart de revolução em vez de golpe.

Já escrevi neste espaço que o bolsonarismo é fruto de cinco Bs — os tradicionais boi, bala e Bíblia, além da ode à boçalidade e um sentimento de branquitude enrustido. Jair representa sobretudo a bala e os dois últimos Bs. Flávio, evangélico, ainda é um tanto quanto distante dessa fatia do eleitorado. Daí a organicidade trazida por Tereza Cristina e sua associação com o boi/agro e Michelle com a Bíblia debaixo do braço.

Se a partir dos anos 1930 o século 20 foi marcado no Brasil pela associação entre a defesa limitada do sincretismo religioso-racial e ambições na esfera industrial, os anos 2030 tomam um rumo oposto, afirmando um Brasil dependente da exportação de produtos primários e rumo a uma maioria evangélica ou cristã conservadora em parceria com católicos afeitos a posições como as defendidas por religiosos como Frei Gilson, que defende a subordinação das mulheres aos homens tal e qual um evangélico radical interpreta a Bíblia. A deputada federal Simone Marquetto (MDB-SP) é ligada a ele e cotada para vice de Flávio caso o senador ouça as instruções de seu pai e siga firme na candidatura.

Tereza e Michelle teriam mais capacidade de dialogar com o eleitor centrista, desidratando a já cambaleante candidatura de outro líder ruralista, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). Elas poderiam até mesmo capturar o voto antissistema dos mais jovens, hoje concentrado em Renan Santos (Missão), que chega a empatar com Flávio no eleitorado entre 16 e 24 anos, e parcialmente direcionado a Romeu Zema (Novo), que surfa na onda de críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O filme sobre Jair chama-se Dark Horse — literalmente “o azarão”, numa referência à improbabilidade de alguém como Bolsonaro pai ser eleito presidente da República, reforçando, assim, a aura messiânica em torno da qual o clã se sustenta na política em escala nacional.

Mais do que azaronas, Tereza e Michelle também indicariam uma contradição à esquerda: ironicamente, seriam a primeira chapa feminina verdadeiramente competitiva à Presidência — em 2022, Simone Tebet (hoje no PSB, então no MDB) e Mara Gabrilli (hoje no PSD, então no PSDB) não contam, pois eram terceira via.

PT e afins tem uma dificuldade incrível de renovar seus quadros e refletir em chapas majoritárias a defesa de igualdade de gênero ainda que a única mulher eleita presidente até hoje, Dilma Rousseff, tenha chegado lá pelas mãos do partido de Lula.

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Para a direita em geral e setores do mercado financeiro, mais que Tereza, a parceria ideal com Michelle se daria com Tarcísio de Freitas (Republicanos), que, porém, se acovardou perante a pressão dos homens da família Bolsonaro e não renunciou do Governo de São Paulo a tempo para buscar o Planalto.

Na falta de solução melhor para substituir Flávio, que caiu do cavalo, a combinação de duas mulheres embalaria o velho conservadorismo alinhado ao reacionarismo bolsonarista num papel de presente de aparência contemporânea para o eleitor. Nada mais apropriado para um país que anda em círculos sem sair do lugar.

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