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As imagens da missão Artemis II revelam a atmosfera da Terra como uma película fina e frágil — o “pálido ponto azul” descrito por Carl Sagan. A maior ameaça a esse delicado equilíbrio onde a vida prospera tem nome: a queima de combustíveis fósseis, que há mais de um século vem alterando o clima do planeta.
A ciência é clara: a inércia tem custo. Segundo pesquisa do Grantham Institute, até 2050, as mudanças climáticas podem reduzir o PIB per capita global de 3% a 15%, com perdas superiores a 20% nos países de baixa renda. Em um contexto de instabilidade energética no mundo, a dependência de fósseis deixou de ser apenas ambientalmente insustentável — tornou-se também um risco econômico e geopolítico.
O Brasil assumiu o compromisso de alcançar a neutralidade de emissões até 2050 e, na COP30, reforçou sua liderança global ao propor dois mapas globais: um para a transição dos combustíveis fósseis e outro para zerar o desmatamento. Mas ainda falta ao país um passo essencial: criar sua Estratégia Climática de Longo Prazo (LTS).
A LTS não é uma nova promessa. O Brasil já possui metas, planos e arcabouços. O que falta é integrá-los em uma estratégia única. A LTS funciona, na prática, como um GPS para alinhar crescimento, clima e inclusão social. Trata-se de uma âncora constitucional para garantir continuidade e estabilidade ao longo de diferentes governos, dando segurança a investidores, parceiros internacionais e à sociedade.
Signatário do Acordo de Paris, o Brasil estabeleceu na sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) metas de mitigação expressivas, incluindo cortar mais da metade das emissões até 2035 e atingir a net zero em 24 anos. Essa ambição exige mais do que metas intermediárias: demanda uma estratégia capaz de orientar decisões econômicas e políticas ao longo do tempo, começando agora.
A LTS é o instrumento que dá coerência, direção e permanência a essa trajetória, tendo sido prevista no Acordo de Paris. Até o momento, cerca de 80 países já apresentaram suas estratégias de longo prazo. Com matriz energética majoritariamente limpa, rica biodiversidade e relevância agrícola, o Brasil tem uma oportunidade singular de protagonizar a implementação de uma LTS que sirva de exemplo para o mundo.
Para o país, criar essa estratégia, porém, não se trata só de protagonismo internacional, mas de uma oportunidade de definir seu modelo de desenvolvimento nas próximas décadas. A LTS permite endereçar simultaneamente descarbonização e desenvolvimento, respondendo aos impactos esperados na transição energética. Ao prever políticas de proteção social, requalificação profissional e diversificação econômica, a estratégia garante que a justiça socioeconômica integre a transição.
Estudos do WRI (World Resources Institute) apontam que a transição para economias de baixo carbono poderá gerar cerca de 375 milhões de novos empregos no mundo na próxima década — 833 mil só na Amazônia brasileira até 2050. Se bem planejada, essa transformação pode ser uma das maiores oportunidades da história recente do país, modernizando a economia, gerando empregos e posicionando o Brasil como líder global em baixo carbono.
O “pálido ponto azul” não é apenas um símbolo da fragilidade do planeta, mas um chamado à ação coletiva. O Brasil tem hoje condições únicas para liderar essa mudança globalmente. O que falta é dar forma a essa visão em um plano de ação claro e de longo prazo. Uma estratégia em que desenvolvimento e descarbonização não são trajetórias opostas. Ao contrário, integram a mesma órbita.