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Durante anos, ouvir música significa abrir um aplicativo, escolher uma playlist e deixar o algoritmo decidir o resto. O streaming venceu a guerra da praticidade, mas começou a enfrentar um fenômeno curioso: a fadiga.
Em 2026, cresce um nicho de usuários que busca justamente o oposto: ouvir álbuns inteiros, carregar arquivos locais e usar players dedicados de alta fidelidade que nem sempre dependem de Spotify, Apple Music ou outras plataformas.
Não é exatamente uma volta do walkman clássico, mas a ideia está ali. Equipamentos portáteis com DAC dedicado, suporte a arquivos FLAC e foco em áudio offline ganharam espaço entre entusiastas. Marcas como Sony, FiiO, Shanling e HiBy apostam nesse público que quer recuperar a sensação de “possuir” a música, não apenas escutá-la.
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O movimento também conversa com o renascimento de formatos físicos. O vinil já consolidou seu retorno, o CD resiste e até o cassete voltou a aparecer em nichos específicos, embora ainda muito distante de um retorno em massa.
Para Horácio De Bonis, dono da loja Sonic Discos, de Curitiba, o cassete continua sendo um formato pequeno diante de outros meios físicos. Em conversa com o Canaltech, o especialista comenta:
“Não avança por causa da falta de interesse das pessoas. O que pode acontecer futuramente é existir uma volta com todo um marketing em cima, todo um charme. O cinema inclusive ajuda nisso, o vinil voltou muito por causa disso também. O CD ainda pode passar por algo parecido, agora o cassete eu não acredito tanto”.

O curioso é que o streaming nunca esteve tão forte, só que parte do público começou a questionar a experiência. Playlists infinitas, recomendações automáticas e consumo fragmentado mudaram a forma como muita gente ouve música. O hábito de sentar e escutar um álbum inteiro ficou mais raro.
É justamente aí que o áudio offline reaparece. Quem compra um player dedicado normalmente faz algo quase arcaico: baixa discos completos, organiza bibliotecas, cria coleções e escolhe conscientemente o que ouvir.
O ritual importa tanto quanto o som. Essa mudança ajuda a explicar por que aparelhos como os novos walkman digitais da Sony e players Hi-Res cresceram entre colecionadores e audiófilos.
O retorno do áudio offline também passa por qualidade. Arquivos FLAC, DSD e WAV preservam mais informação do que formatos comprimidos, usados por muitos serviços de streaming. Em equipamentos simples a diferença pode ser pequena, mas em sistemas melhores ela aparece.
Horácio destaca que o equipamento continua sendo decisivo para qualquer formato:
“O vinil bem prensado é o que tem a melhor qualidade. Depois eu colocaria o CD e, por último, o cassete, mas isso depende muito do equipamento. Não adianta ter um LP excelente e tocar em um sistema simples. Você pode pegar um CD player antigo, de época, ligar em um amplificador e caixas melhores e aquele CD vai soar melhor. Tudo é traduzido pelo equipamento, então não existe resposta absoluta”.
A visão ajuda a entender por que tantos usuários migraram para players dedicados. O objetivo não é abandonar o streaming completamente, mas criar uma experiência paralela.

Existe um detalhe importante: esse movimento não é uma revolução de massa. Pouca gente vai trocar o celular por um player dedicado no dia a dia – o que cresce é um nicho.
Há usuários que mantêm streaming para mobilidade e reservam o áudio offline para momentos específicos: ouvir um álbum novo, usar fones de alta impedância ou simplesmente desacelerar.
Na prática, o “novo Walkman” virou quase um símbolo: não do passado, mas de uma mudança de comportamento.
Curiosamente, até formatos considerados improváveis ainda despertam curiosidade. Horácio observa que a ascensão do colecionismo tem sido fundamental para esse movimento, então muitas pessoas não querem abandonar a praticidade – apenas ter seus artistas favoritos na prateleira.
“Você percebe isso até olhando lançamentos futuros. Pegando uma janela de mais ou menos três meses, do fim de maio até metade de julho, aparecem milhares de LPs e CDs chegando ao mercado e um número muito pequeno de fitas. Estamos falando de algo na casa de 2.546 LPs, 1.677 CDs e só 65 fitas. Existe um interesse real por formatos físicos, mas ele está concentrado principalmente em vinil e CD”
Seja ouvindo música digital em um walkman moderno, ressuscitar um discman para escutar CDs ou simplesmente investir em uma vitrola para apostar nos vinis, tudo leva para a mesma tendência: o ato de ouvir música com toda a atenção e respeito que ela merece, para variar.
Leia a matéria no Canaltech.

