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O confronto entre Romeu Zema (Novo) e o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), dominou o debate político e reverberou de Brasília à Faria Lima, mas, ao menos até agora, parece ter sido insuficiente para alavancar a pré-candidatura do ex-governador de Minas Gerais ao Planalto e ajudar eleitoralmente seu sucessor no comando do estado.
O embate teve início quando Mendes pediu ao ministro Alexandre de Moraes a inclusão do ex-governador no inquérito das fake news, após o mineiro divulgar uma série de vídeos satíricos chamado “Os Intocáveis”, em que fantoches representando o decano e o ministro Dias Toffoli simulam trocas de favores.
Segundo levantamento da consultoria Bites, Zema turbinou suas redes sociais com a publicação das peças e após o revide de Gilmar Mendes, dado na quarta-feira passada (23/4), no “Jornal da Globo” (TV Globo).
Para o mercado político, o principal teste sobre a viabilidade do nome do Novo virá das pesquisas, e o primeiro levantamento chegou na segunda-feira (27/4). A pesquisa Nexus/BTG, realizada no último fim de semana (24 a 26 de abril), funciona como um primeiro termômetro do impacto eleitoral do episódio e aponta avanço, embora marginal.
Na espontânea, ele dobrou sua participação, de 1% para 2%, enquanto Lula foi de 32% para 33% e Flávio permaneceu em 26%. O mineiro também reduziu levemente o desconhecimento, de 37% para 35%, mas viu a rejeição subir de 31% para 33%. No cenário estimulado, o pré-candidato do Novo avançou de 4% para 5%, repetindo um movimento incremental, enquanto Caiado manteve 4% e Renan Santos (Missão) dobrou de 2% para 4%, sugerindo dispersão de parte do crescimento no campo da direita.
Segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre os dias 22 e 27 de abril e divulgada nesta manhã (28/4), os números do ex-governador são de estabilidade. Zema e Ronaldo Caiado (PSD) permanecem nos mesmos patamares de março, com 3,1% e 3,3%, respectivamente. O principal movimento no campo oposicionista veio de Renan Santos (Missão), que avançou um ponto percentual, de 4,4% para 5,3%.
A candidatura presidencial do ex-governador tem por objetivo, em termos partidários, manter a relevância do Novo no cenário nacional. O entendimento dos dirigentes do partido e do próprio pré-candidato é no sentido de que o projeto presidencial é fundamental para a principal missão do Novo neste ano: sobreviver à cláusula de barreira –ou cláusula de desempenho, instituída pela minirreforma eleitoral, que estipula um desempenho mínimo nas urnas para que os partidos tenham acesso a recursos do fundo partidário e tempo de propaganda em rádio e TV.
Seu perfil político também pesou na decisão de anunciar a intenção de concorrer ao Planalto. O ex-governador costuma dizer que só entrou na vida pública para contribuir com a experiência adquirida como empresário, ou seja, prefere estar à frente de cargos executivos. No entanto, em privado, aliados reconhecem que ele teria dificuldades, por exemplo, para se eleger senador por Minas Gerais.
Apesar de ter encerrado o mandato com taxas de aprovação em queda e próximas a 50%, conforme levantamentos de vários institutos, o ex-governador enfrentaria uma disputa dura pelo Senado em Minas. O cenário reúne pesos pesados como Carlos Viana (PSD), que disputa a reeleição; Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem; e Domingos Sávio (PL), deputado federal apoiado por Flávio Bolsonaro. Há ainda a promessa feita por Zema a Marcelo Aro (União-PP), seu ex-secretário, de que ele terá uma das vagas de candidato a senador.
Em termos políticos, as dificuldades de Zema em Minas Gerais estão refletidas nas pesquisas recentes para a eleição a governador do estado, cargo que ele ocupou de 2019 até o início deste mês. Seu candidato, o atual ocupante do Palácio da Liberdade, Mateus Simões (PSD), que era seu vice, não conseguiu até agora atingir dois dígitos nos principais levantamentos e não fechou alianças com partidos considerados estratégicos, como o PL e o Republicanos.
Conforme pesquisa Genial/Quaest divulga nesta terça-feira (28/4), o pré-candidato do Republicanos ao governo de Minas, Cleitinho Azevedo, lidera em todos os cenários nos quais é apresentado ao eleitor, nos dois turnos. Ele tem entre 30% e 37% das intenções de voto no primeiro turno. Em seguida, aparecem Alexandre Kalil (PDT), entre 14% e 18%, Rodrigo Pacheco (PSB), entre 8% e 12%, e Mateus Simões (PSD), entre 3% e 5%.
Em dificuldades nas pesquisas, Simões disse recentemente que pode ter um palanque presidencial triplo em Minas, ou seja, abrir espaço não apenas para seu padrinho político, como planejava inicialmente, mas também para Flávio e Ronaldo Caiado, o candidato de seu partido, o PSD.
Enquanto o ex-governador acumulava cliques, aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL) movimentavam-se nos bastidores. Em um evento fechado com investidores realizado na quinta-feira (23/4) em São Paulo, aliados do presidenciável filho de Jair Bolsonaro faziam lobby por uma chapa Flávio-Zema, argumentando que o mineiro agregaria atributos que Flávio ele não possui: experiência no Executivo.
A composição, segundo esse raciocínio, também seria lida pelo mercado e pela sociedade como um sinal de “compliance político”, em contraste com a imagem desgastada de nomes do Centrão. O próprio pré-candidato do Novo, porém, já rechaçou publicamente a possibilidade.
Por outro lado, uma corrente no entorno de Flávio que defende outros nomes para compor a chapa, como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), faz um cálculo diferente: o ex-governador agregaria mais à chapa permanecendo na disputa, atuando como uma voz mais incisiva e radical na campanha e nos debates. Isso reduziria a exposição direta de Flávio a desgastes e lhe permitiria construir uma imagem de oposição mais moderada perante o eleitorado.
Apesar do interesse de setores do mercado financeiro em uma composição com o ex-governador, há resistência à hipótese dentro da família Bolsonaro. Na segunda-feira (27/4), Carlos Bolsonaro publicou um texto nas redes sociais que foi interpretado como uma rejeição à possibilidade de ele ser vice de seu irmão. “É preciso deixar muito claro: por onde passo em Santa Catarina e pelo Brasil, investidores e contratados demonstram enorme preocupação com o aumento de impostos trazido pela reforma tributária, que sequer entrou plenamente em vigor”, afirmou Carlos, que anexou uma manchete sobre o apoio de Zema à reforma.
Também pesa contra o nome do Novo a avaliação de aliados de Flávio de que a ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal o deslocou para uma posição mais radical à direita. Para esse grupo, o movimento reduz o apelo do ex-governador como nome para a chapa.