Após Dark Horse, Flávio vira candidato para perder e bolsonarismo avançar golpe no Senado

A manutenção da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto mesmo após escândalo Dark Horse, que revelou o financiamento de Daniel Vorcaro — então proprietário do Banco Master — ao filme homônimo inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), indica que a extrema direita não se importa tanto em reconquistar a Presidência da República.

Pesquisas recentes mostram Flávio com queda nas intenções de voto, muito embora siga competitivo até porque receberia no segundo turno boa parte da confiança de eleitores que, na primeira rodada, vão votar em candidatos menos competitivos. Dito isso, o real foco dos reacionários autointitulados patriotas-que-prestam-continência-para-a-bandeira-dos-EUA em outubro será a conquista do Senado.

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Isso já era bola cantada há algum tempo em diversas análises — inclusive em textos já publicados nesta coluna —, mas ganha outra dimensão com a atual conjuntura internacional e doméstica. No cenário em que Lula se reelege e a extrema direita domina o Senado com oportunistas do centrão, não apenas cabeças podem rolar no Supremo Tribunal Federal (STF), mas todas as condições para uma paralisia institucional estarão dadas.

O patriarca Jair já rejeitou a hipótese de sua terceira e atual esposa Michelle Bolsonaro (PL) substituir o filho 01 na cabeça de chapa do bolsonarismo. Para além do temor de uma passagem de bastão dentro da família, o ex-presidente rejeita abrir espaço na direita para outra força que possa rivalizar com a centro-esquerda democrática no longo prazo.

Isso porque esse campo político é identificado com o sistema, essa entidade enigmática que também é o alvo retórico de figuras que ensaiam ser hoje o que Bolsonaro pai foi na eleição de 2018 — os autointitulados antissistêmicos Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).

Se vier a existir, portanto, Lula 4 será o enterro definitivo a múltiplas mãos da ordem constitucional de 1988 — que, aliás, não equivale apenas à Constituição, mas às estruturas políticas e normativas necessárias à manutenção e aplicação da Carta Magna.

Os progressistas vão assistir a tudo de camarote, de mãos atadas, enquanto figuras como os senadores Damares Alves (Republicanos-DF) e Cleitinho (Republicanos-MG, que pode ser candidato ao governo estadual), além dos pré-candidatos ao Senado Guilherme Derrite (PP-SP) e Michelle (que deve ter a candidatura pelo DF oferecida como prêmio de consolação por se manter bela, recatada e do lar) tocam a agenda da extrema direita contra a ordem constitucional de 1988.

O inferno não será apenas de Lula em sua quarta encarnação presidencial, mas de todos nós. O presidente estará constantemente na mira do impeachment ao lado dos ministros do STF enquanto o Congresso passa medidas que podem ser resumidas pela expressão Neoliberalismo 2.0 – A Missão.

Na sua versão 1.0, esse paradigma econômico esteve muito distante das terras brasileiras não obstante o triunfo dos mercados financeiros e das privatizações nos anos 1990. O 2.0 refere-se à roupagem nacionalista-reacionária com a qual agora as elites vendem o mercado.

Perto do que vem por aí fica claro que o governo FHC e os dois primeiros ciclos de Lula no poder podem ser compreendidos como a social-democracia possível numa era de globalização econômica, que segue, porém, sem os freios impostos pelo multilateralismo, deixados de lado em prol da lei da selva no cenário geoeconômico internacional. Essa social-democracia preservou legados do capitalismo de Estado outrora dominante e privilégios da elite enquanto forneceu oportunidades às classes menos favorecidas.

Não se quer liberalizar a economia para combater privilégios. É o contrário: sem regulação, a concentração de renda e poder só tende a aumentar. No plano externo, a contrapartida será um Brasil submisso, sobretudo aos interesses de Washington, em vez de defendermos nossos interesses de forma autônoma. Um Brasil com maior concentração de renda e poder, por sua vez, estará na antessala da autocratização que, neste século, não avança com tanques nas ruas, mas pela erosão das instituições.

Nesse sentido, a tomada do Senado pelos bolsonaristas e aliados de conveniência equivale à conquista do paraíso pela extrema direita. Lula 4 vai presidir sem governar. Nos últimos dez anos, o poder presidencial já foi significativamente erodido pelo avanço dos congressistas sobre as emendas orçamentárias. Uma câmara alta de maioria bolsonarista será a pá de cal sobre o mais longo intervalo democrático de nossa história.

Com a persistência de oligarquias e interesses corporativistas, nosso Legislativo tende paradoxalmente a se distanciar dos anseios do povo, tal como ficou evidente na apresentação de proposta de semana de trabalho de 52 horas pelo bolsonarismo em contraponto à defesa da jornada 6×1.

A Presidência da República, nesse contexto, funciona como anteparo das distorções na representação popular se contar com o mínimo de respaldo de parlamentares que pensam em questões estruturais em vez de se satisfazerem com o feijão com arroz do dia a dia.

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O cavalo passa selado para que os inimigos da atual ordem constitucional se refestelem. Dificilmente ele não será montado pois a base social da direita comprou o discurso de Deus, Pátria, Família e Liberdade. Resta saber até outubro se o papel de dark horse — isto é, azarão — na campanha presidencial recairá sobre Flávio Bolsonaro tal como vestiu seu pai.

Nada absurdo para um país a-histórico, sem memória, nem mesmo capaz de manter a responsabilização de Jair Bolsonaro pela pandemia — a parcela dos que lhe atribuem responsabilidade por ela caiu 21,5% segundo o Datafolha. Pensando bem, Flávio Bolsonaro não é azarão. Ainda segue competitivo porque o Brasil assim o quer.

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