A Copa do Mundo e os gamers: como o futebol entrou na lógica dos games

A Copa do Mundo e os gamers: como o futebol entrou na lógica dos games – Canaltech

Durante muito tempo, assistir futebol foi um ritual bastante simples: ligar a TV, reunir amigos e acompanhar os 90 minutos de jogo. Mas basta olhar para qualquer grande campeonato recente para perceber que a experiência mudou radicalmente. A Copa do Mundo hoje acontece em múltiplas telas, plataformas e comunidades ao mesmo tempo. Enquanto a bola rola no gramado, milhões comentam lances no X, acompanham streamers na Twitch, disputam partidas de EA Sports FC e interagem com criadores de conteúdo que transformaram o futebol em entretenimento contínuo.

Ou seja, no lance a lance, o maior evento esportivo do planeta já opera dentro da lógica da indústria gamer, mesmo que pouca gente tenha percebido.

Os números ajudam a explicar essa transformação. Relatórios da Newzoo apontam que a indústria global de games deve ultrapassar US$ 206 bilhões em receita em 2028, impulsionada por uma base estimada entre 3,6 e 3,7 bilhões de jogadores no mundo. Ao mesmo tempo, plataformas de livestreaming seguem movimentando dezenas de bilhões de horas assistidas por ano, enquanto a Copa do Mundo do Catar, em 2022, alcançou cerca de 5 bilhões de pessoas globalmente, segundo a Fifa. 


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O comportamento multitela também reforça essa mudança. Dados da eMarketer mostram que grande parte dos fãs de esportes utilizam smartphones durante transmissões ao vivo para comentar jogos, acompanhar redes sociais, acessar estatísticas e interagir em tempo real. Quando esses universos se encontram, o futebol deixa de ser apenas um evento transmitido e passa a funcionar como uma experiência interativa.

Além disso, a chamada “second screen experience” [experiência de segunda tela] virou padrão, principalmente entre as gerações mais jovens. Assistir ao jogo enquanto se comenta em grupos, reage a streamers ou confere estatísticas em tempo real já faz parte do consumo esportivo. A TV deixou de ser o centro absoluto da atenção e agora divide espaço com celulares, chats ao vivo e plataformas de streaming.

Watch parties: a arquibancada digital

Nesse cenário, as watch parties se consolidaram como um dos fenômenos mais interessantes da nova cultura esportiva. Criadores de conteúdo passaram a reunir comunidades inteiras para assistir partidas ao vivo com comentários próprios, linguagem informal e interação constante. Em muitos casos, a audiência busca mais que o jogo, ela quer experiência coletiva criada ao redor da partida.

Isso ajuda a explicar por que streamers se tornaram tão relevantes para o esporte. Eles funcionam como narradores da internet, transformando emoções e acontecimentos em conteúdo compartilhável. Assim como na cultura gamer, acompanhar quem transmite e comenta se tornou tão importante quanto acompanhar o próprio jogo. 

O sucesso do EA Sports FC mostra como a fronteira entre futebol e games praticamente desapareceu. Para muitos jovens, o videogame se tornou porta de entrada para clubes, jogadores e campeonatos. Com mais de 10 milhões de cópias vendidas, o EA Sports FC 26 reforça a força do futebol digital na cultura esportiva atual.

Esse fenômeno influencia até a forma como torcedores constroem identidade com times e competições. Uniformes virtuais, rankings online e modos competitivos fazem parte do ecossistema cultural do futebol moderno. O esporte se tornou uma experiência expandida e permanentemente conectada. 

Recentemente, a EA protagonizou uma das maiores transações da história da indústria gamer, em um acordo avaliado em US$ 55 bilhões, reforçando o peso econômico e cultural que os games esportivos alcançaram globalmente. A audiência busca participação e interação em tempo real, tornando as plataformas digitais cada vez mais importantes no esporte.

Para marcas e organizações, a disputa pela atenção já não acontece apenas nos 90 minutos de jogo, mas em transmissões, redes sociais, comunidades digitais e jogos eletrônicos. Em outras palavras, o futebol continua o mesmo, mas a forma de vivê-lo se expandiu muito além das quatro linhas.

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