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No contexto do ESG, o “S” de social, coloca o acesso à saúde como um dos principais indicadores de sustentabilidade — e, nesse cenário, garantir acesso equitativo à inovação deixa de ser apenas uma agenda setorial para se tornar um compromisso estruturante. A sustentabilidade dos sistemas de saúde deve ser cunhada pela capacidade de transformar avanços científicos em acesso real ao cuidado.
Nas últimas décadas, a medicina evoluiu de forma extraordinária, mas esse desenvolvimento ainda chega à população de forma desigual, especialmente em países com grandes diferenças regionais e sociais. Esse é um dos principais obstáculos para que se cumpram os compromissos assumidos na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, em especial as metas 3.4 e 3.8 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3, que tratam da redução da mortalidade por doenças não transmissíveis e cobertura universal de saúde.
Esses temas estão profundamente conectados. Não é possível reduzir de forma consistente a mortalidade por doenças crônicas se o acesso ao diagnóstico e ao tratamento continua desigual. Da mesma forma, não basta ampliar a cobertura formal do sistema de saúde se a inovação permanece concentrada nos grandes centros ou para determinados grupos sociais.
Novas terapias, diagnósticos cada vez mais precisos, uso de dados em larga escala e ferramentas digitais já permitem tratar doenças com maior eficácia e, muitas vezes, com menos impacto para o paciente. No entanto, o acesso a esses avanços ainda ocorre de forma lenta e desigual, especialmente em países com grandes complexidades demográficas e diferenças regionais, como o Brasil.
Os dados da Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer, por exemplo, mostram que o perfil da doença no Brasil varia de forma significativa entre as regiões, centros urbanos e rurais, como resultado direto de desigualdades no acesso aos serviços de saúde, da falta de ações de prevenção e das más condições de vida da população.
Dessa forma, o câncer se soma a doenças não transmissíveis, como diabetes e problemas cardiovasculares, para figurar entre as principais causas de morte no Brasil. Na maioria dos casos, o problema não é a ausência de tecnologia, mas a demora para incorporá-la ao cuidado. Quando o diagnóstico chega tarde ou o tratamento não está disponível, o custo humano é maior, assim como o ônus para o sistema.
Sob a ótica do ESG, esse cenário evidencia que a sustentabilidade em saúde está diretamente ligada à capacidade de reduzir essas lacunas de acesso. Por isso, ampliar o acesso à inovação deve fazer parte da agenda central de sustentabilidade. Sistemas que conseguem oferecer diagnóstico precoce, terapias modernas e acompanhamento adequado tendem a reduzir complicações, evitar internações e melhorar a qualidade de vida da população.
Um dos caminhos mais promissores para esse cenário é levar diagnóstico e tratamento para mais perto do paciente e da sua rotina, fortalecer a atenção básica e conectar serviços em rede, de forma a ampliar o alcance do sistema de forma viável. Mais do que ampliar estruturas, é preciso reorganizar o cuidado para que a inovação chegue aonde ela é mais necessária.
Ninguém conseguirá avançar sozinho nessa agenda. Garantir acesso equitativo à inovação depende de colaboração entre governo, setor privado, academia, profissionais de saúde e sociedade civil. Depende também de um ambiente regulatório capaz de equilibrar rapidez, segurança e responsabilidade, permitindo que novas soluções sejam incorporadas de forma consistente.
Cumprir as metas globais de saúde até 2030 não será possível e nem sequer eficaz apenas com mais recursos ou mais serviços. Será necessário garantir que o conhecimento produzido pela ciência se traduza em melhores desfechos para todos, e não apenas para uma parte da população.
Sustentabilidade em saúde, portanto, não pode ser entendida, sob o olhar da indústria farmacêutica, apenas como a capacidade de manter o sistema funcionando, mas como a capacidade de fazê-lo evoluir. E isso passa, inevitavelmente, por ampliar o acesso à inovação, reduzir desigualdades e transformar compromissos e metas globais em impacto local.