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O câncer de próstata é o tumor mais frequente entre homens brasileiros depois do câncer de pele não melanoma. Todos os anos, milhares de pacientes enfrentam não apenas o diagnóstico da doença, mas também o medo das sequelas do tratamento: perda urinária, disfunção sexual e cirurgias de alto custo frequentemente associadas a hospitais privados e tecnologias inacessíveis.
Durante décadas, a evolução da cirurgia prostática pareceu seguir uma lógica inevitável: quanto mais avançada a tecnologia, melhores os resultados. A cirurgia robótica transformou-se em símbolo mundial de precisão, menor sangramento e recuperação funcional mais rápida. Mas também aprofundou um problema estrutural da saúde contemporânea: a desigualdade no acesso.
Plataformas robóticas custam milhões de reais, exigem manutenção sofisticada, treinamento especializado e permanecem concentradas em poucos centros de excelência, quase sempre vinculados à rede privada. Enquanto isso, no Sistema Único de Saúde (SUS), a maioria dos homens continua sendo operada pela cirurgia aberta convencional, técnica eficiente no controle do câncer, mas tradicionalmente associada a recuperação mais lenta e maior impacto funcional no pós-operatório.
A questão ultrapassa a discussão médica. Ela envolve financiamento público, incorporação tecnológica e o próprio papel constitucional do SUS como sistema universal. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, discutir inovação em saúde significa discutir também quem terá acesso real a ela.
Em um cenário de restrição orçamentária permanente, toda nova tecnologia incorporada ao sistema público disputa recursos com atenção básica, vacinação, prevenção e ampliação da assistência. O debate sobre inovação, portanto, também é político, econômico e jurídico. Não basta que uma tecnologia seja moderna. É necessário avaliar se ela pode ser aplicada em escala, de forma sustentável, sem ampliar ainda mais as desigualdades já existentes.
Foi justamente nesse contexto que uma linha de pesquisa desenvolvida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro começou a questionar uma das premissas mais consolidadas da urologia contemporânea: os melhores resultados da cirurgia robótica dependem realmente do robô?
A pergunta surgiu a partir de uma observação simples. Nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que os robôs se popularizavam, também ocorreu uma mudança importante na própria lógica da cirurgia prostática. O foco deixou de ser apenas a retirada completa do tumor. A preservação anatômica passou a ocupar papel central.
Nervos, esfíncteres urinários e estruturas delicadas da pelve passaram a ser preservados de maneira mais cuidadosa, reduzindo sequelas funcionais associadas à cirurgia prostática — especialmente incontinência urinária e disfunção erétil. A cirurgia tornou-se menos agressiva não apenas porque surgiram máquinas mais sofisticadas, mas porque houve um refinamento progressivo do conhecimento anatômico e da técnica cirúrgica.
A hipótese levantada pelos pesquisadores era direta: talvez parte dos benefícios atribuídos à robótica estivesse relacionada menos à máquina e mais à mudança da estratégia operatória.
Foi dessa hipótese que surgiu, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, a Prostatectomia Radical Retropúbica Anatômica Anterógrada Aberta, AORP – sigla em Inglês, técnica que adapta à cirurgia aberta princípios modernos de preservação anatômica usados na cirurgia robótica.
O objetivo nunca foi substituir a cirurgia robótica nem negar seus avanços tecnológicos. A proposta era outra: reproduzir princípios anatômicos modernos sem depender de plataformas milionárias e inacessíveis para grande parte do sistema público brasileiro.
Os primeiros pacientes foram operados em estudo piloto iniciado em 2015. Embora pequeno, o trabalho trouxe resultados promissores. Parte dos pacientes recuperou a continência urinária logo após a retirada da sonda, e a maioria já apresentava controle urinário em poucos meses.
Após a cirurgia do câncer de próstata, a perda involuntária de urina é uma das complicações mais temidas pelos pacientes. O impacto ultrapassa a dimensão física e afeta autoestima, relações sociais, trabalho e qualidade de vida. Muitos homens relatam isolamento social, insegurança e dificuldade de retomar atividades cotidianas simples.
Entre 2016 e 2019, a equipe da UERJ conduziu um ensaio clínico randomizado com 220 pacientes com câncer de próstata localizado. Metade foi submetida à cirurgia aberta convencional; a outra metade realizou a AORP.
O estudo possui uma característica particularmente relevante: foi realizado integralmente dentro da rotina do SUS, envolvendo residentes supervisionados por cirurgiões experientes em hospital universitário público. Isso significa que os resultados observados não dependiam de condições artificiais de centros privados altamente selecionados, mas de um ambiente real de assistência pública brasileira.
Os resultados demonstraram redução do sangramento cirúrgico, menos complicações pós-operatórias e recuperação urinária mais rápida nos pacientes submetidos à nova técnica, sem prejuízo do controle oncológico da doença.
Três meses após a cirurgia, os índices de continência urinária foram significativamente superiores no grupo operado pela AORP. Ao mesmo tempo, os resultados oncológicos permaneceram equivalentes aos da cirurgia convencional, sem aumento de margens cirúrgicas positivas ou sinais de pior controle tumoral.
Mas talvez o aspecto mais relevante da experiência brasileira esteja além das estatísticas cirúrgicas.
A pesquisa produzida na UERJ questiona uma lógica cada vez mais dominante na saúde contemporânea: a ideia de que inovação depende necessariamente da aquisição de equipamentos sofisticados importados de centros ricos.
A experiência da AORP propõe caminho diferente. Em vez de apenas importar soluções desenvolvidas em sistemas ricos, os pesquisadores buscaram adaptar princípios científicos modernos às condições concretas do SUS. O centro da inovação deixou de ser exclusivamente a máquina e passou a incluir estratégia cirúrgica, treinamento anatômico e reorganização da prática médica.
Isso não significa negar a importância da cirurgia robótica. O ponto central é outro: sistemas públicos universais precisam discutir não apenas incorporação tecnológica, mas também sustentabilidade, escala e acesso.
Em países marcados por desigualdade estrutural e limitação orçamentária permanente, a discussão sobre inovação inevitavelmente se conecta à própria efetividade do direito constitucional à saúde. Afinal, tecnologias altamente sofisticadas têm pouco impacto coletivo quando permanecem restritas a parcelas pequenas da população.
A trajetória da AORP ainda depende de validação multicêntrica e reprodução em outros hospitais. Como toda inovação científica, os resultados precisam ser confirmados em diferentes contextos, equipes e populações.
Mas uma conclusão já parece evidente: hospitais públicos brasileiros também podem produzir conhecimento original, competitivo e internacionalmente relevante.
Talvez o maior mérito da experiência conduzida no Hospital Pedro Ernesto seja justamente esse: lembrar que medicina de alta qualidade não depende apenas de máquinas sofisticadas, mas também de inteligência clínica, formação acadêmica sólida e capacidade de produzir soluções compatíveis com a realidade social do país.
No debate contemporâneo sobre inovação em saúde, essa talvez seja uma das discussões mais importantes — e mais urgentes — para o futuro do SUS.