Lula e Trump podem mostrar as cartas em relação a minerais críticos, big techs e tarifas

A cinco meses das eleições no Brasil, o aguardado encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o norte-americano Donald Trump finalmente ocorrerá nesta quinta-feira (7/5) em Washington. Sem muitos detalhes de como será o encontro, duas fontes em edifícios diferentes na Esplanada dos Ministérios admitiram, porém, que a reunião será bate-volta.

A avaliação é a de que esse olho no olho beneficia Lula, ao tirar um pouco o foco das duas derrotas políticas históricas que sofreu no campo doméstico na semana passada. Ao mesmo tempo, assessores do presidente têm consciência de que é preciso cuidado com a mensagem que será passada deste encontro. Um novo revés é tudo o que o Lula não quer.

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A pauta inclui minerais críticos, no topo da lista de prioridades americanas (sobretudo em momento em que o Brasil discute o marco regulatório do setor), big techs e acordo de combate ao crime organizado. Lula também deve falar em Irã, depois que o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, conversou por telefone com o homólogo iraniano sobre o processo de paz na região.

Para alguns interlocutores, sair na foto com o Republicano agora não seria o mais desejável. Trump estaria mais tóxico do que nunca, em meio a uma crise de preços dos combustíveis sem precedentes — provocada por ele próprio —, com um conflito no Oriente Médio ainda longe do fim. No entanto, manter a relação no vácuo é correr o risco de perder o momentum e os canais de diálogo construídos até aqui.

Nem mesmo a família Bolsonaro parece disposta, por ora, a fazer essa aposta de forma explícita. Embora tente se mostrar próxima do entorno de Trump, a campanha de Flávio ainda evita mencionar diretamente o republicano. O cuidado se explica pelo risco de desgaste: o candidato do PL já foi acusado de “entreguista” após discurso em um encontro da direita no Texas.

‘Jogo ambíguo proposital’

No Palácio, existe a leitura compartilhada de que os EUA mantiveram até aqui um “jogo ambíguo proposital” para arrancar o máximo possível de benefícios econômicos e políticos da relação com o Brasil. A dinâmica tem sido manter a “boa química” no mais alto nível, enquanto, nos andares de baixo, os sinais seguem confusos. Daí a pressa pelo encontro.

Desde a posse de Trump, o governo teme a interferência dos EUA na eleição de outubro. Não necessariamente direta da Casa Branca, mas a partir de fundações, think tanks e até das próprias big techs, que não querem que o Brasil se torne um exemplo negativo para sua causa.

Mas o apoio de Trump nem sempre surte o efeito desejado. A aliança do ex-presidente Jair Bolsonaro com o americano claramente o ajudou a consolidar sua base, mas não impediu sua derrota em 2022. Em abril deste ano, Trump enviou seu vice, JD Vance, à Hungria para apoiar a reeleição do primeiro-ministro Viktor Orbán, um aliado próximo. Apesar do apoio direto, a oposição venceu as eleições. Isso sugere que o efeito é mobilizador para o núcleo duro, mas pouco persuasivo para o eleitor mediano, que vai mais uma vez decidir a eleição.

Curtos-circuitos na relação bilateral

Segundo afirmou ao JOTA um interlocutor do alto escalão, são constantes os recados enviesados, de segunda ou terceira mão, de fontes do baixo clero americano, que dão a entender que a relação não estaria assim tão bem quanto parece. Seria uma espécie de jogo “para ver se cria o caos”, de acordo com esta fonte.

As últimas semanas foram marcadas por curtos-circuitos na relação. Teve o episódio recente da retirada de credenciais de adidos da polícia de lado a lado, após a operação do ICE nos EUA que levou à prisão o ex-deputado Alexandre Ramagem. Antes disso, o Departamento de Estado firmou acordo com o governo de Goiás para a exploração de minerais críticos, para a irritação do governo federal, quando o país discute o marco regulatório do setor.

No fim do ano passado, a Embaixada dos EUA se reuniu com parlamentares para tratar de projetos de interesse de empresas americanas do setor de tecnologia. A atuação mais acintosa foi com relação ao PL 2331/2022, que regula os serviços de vídeo sob demanda (VoD). Matthew Lowe, conselheiro para Assuntos Econômicos da missão diplomática, liderou a equipe de assessores que manifestou preocupações com o texto relatado pelo senador Eduardo Gomes (PL-TO). Falaram, na ocasião, sobre o “estágio positivo” em que se encontravam as relações entre Brasil e EUA e que seria prudente aguardar um acordo mais amplo com as empresas para votar o projeto.

Neste ano, as empresas chegaram a firmar entendimento com representantes do setor audiovisual, mas não houve acordo com o governo para pautar a proposição. Outro tema de interesse de Lowe foi o PL 4675/2025, que regula a concorrência nos mercados digitais. O deputado Aliel Machado (PV-PR), que relata o projeto na Câmara, também recebeu os assessores americanos em seu gabinete. A conversa girou em torno de inquietações com os efeitos da proposta para as americanas. De lá pra cá, no entanto, o interesse dos EUA em relação ao tema parece ter andado algumas casas para trás. Até agora, o governo americano não procurou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para discutir os termos que estão em negociação com Aliel.

No contexto das investigações sobre a Seção 301, a regulação da Inteligência Artificial desperta novas atenções por parte dos EUA, sobretudo diante do novo calendário que o relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), estabeleceu para a tramitação do projeto. Há diversas restrições das americanas ao texto aprovado no Senado, sendo a principal delas o capítulo voltado para direitos autorais.

Outro ponto em discussão na Seção 301 é a transferência internacional de dados. Bandeiras de cartões de crédito deixaram de ter o controle sobre este fluxo após o Pix. As reclamações dos americanos vão além. Os EUA exigem um acordo de adequação para a transferência internacional de dados, mas dentro de um modelo próprio de certificação, que está previsto na Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), só que não foi regulamentado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A resistência a este modelo faz com que a Casa Branca acuse o Brasil de impor barreiras comerciais às relações entre os países.

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Bala de prata

A Suprema Corte americana derrubou o tarifaço de 50% imposto por Trump, mas parte da pauta brasileira de exportações ainda está sujeita a uma tarifa de 10%, vigente até o mês que vem. Nesse intervalo, Washington busca justificativas para sobretaxar o país — já se falou em uma cobrança de até 30%. A investigação no âmbito da Seção 301 está na reta final, e o Brasil tenta influenciar os rumos do processo. Há alguns dias, o governo enviou uma missão técnica aos Estados Unidos.

Na reunião desta quinta, os dois lados devem colocar as cartas sobre a mesa, não apenas da pauta comercial, mas da política. O encontro será um marco para a construção da narrativa internacional das campanhas. Um acordo pode ser ponto para Lula. Um não acordo, idem. Afinal, o discurso da soberania e o enfrentamento renderam-lhe popularidade. E esta, segundo admitem interlocutores, é “a bala de prata” que o governo guarda para um momento crucial da campanha. Para o bolsonarismo, será um termômetro que medirá o grau de toxicidade de Trump.

A aproximação com Trump pode render dividendos eleitorais no curto prazo, mas também carrega riscos relevantes. O eleitor mediano — geralmente classificado nas pesquisas como independente e historicamente decisivo no segundo turno — tende a ser pragmático e avesso a extremos. Para uma parcela expressiva desse grupo, que representa cerca de um terço do eleitorado, a associação a Donald Trump tende a funcionar mais como fardo do que como ativo eleitoral.

Dados levantados em março pela Genial/Quaest indicam que um eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro teria impacto direto nas intenções de voto. Apenas 14% dos entrevistados afirmaram que esse apoio não faria diferença. Para 32%, ele aumentaria a probabilidade de voto em Lula, contra 28% que disseram o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro. Outros 19% migrariam para uma terceira alternativa, fora da polarização entre os dois.

Na prática, o endosso trumpista parece mobilizar mais resistência do que adesão. Somados, os eleitores que reagiriam negativamente ou de forma esquiva ao apoio de Trump superam os que reagiriam positivamente. O dado sugere que a bênção do republicano poderia produzir ganho líquido para o adversário, em vez de beneficiar o candidato apoiado.

Fonte

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