A vitória de Pirro e seus limites

Em janeiro, o governo dos Estados Unidos celebrou o que chamou de vitória sobre o TikTok. Donald Trump publicou que o aplicativo “agora será propriedade de um grupo de grandes patriotas e investidores americanos” e agradeceu ao presidente Xi Jinping por “trabalhar conosco e, em última instância, aprovar o acordo”. Um leitor desavisado concordaria que este foi o desfecho da contenda.

A ByteDance, controladora da rede social, cedeu 80,1% da operação local a investidores ocidentais, o algoritmo será retreinado com dados americanos supervisionados pela Oracle e um ex-executivo americano comanda a nova joint venture batizada de TikTok USDS Joint Venture LLC. O que essa leitura omite é o que o acordo revela sobre os limites reais da pressão americana sobre relações comerciais e como os países podem resistir a este tipo de manobra.

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Para entender o ponto, é necessário lembrar que os EUA exigiram durante seis anos uma venda completa do TikTok a um comprador estadunidense, com transferência total do controle — inclusive do algoritmo de recomendação, considerado pelo próprio governo americano o núcleo do risco à segurança nacional. A lei sancionada pelo ex-presidente Joe Biden em 2024 foi explícita. Deixava claro que a ByteDance e o TikTok US não poderiam manter nenhuma relação operacional. A Suprema Corte confirmou a exigência por unanimidade.

O que emergiu do acordo foi substancialmente diferente. O algoritmo não foi vendido. Foi licenciado — a ByteDance mantém a propriedade intelectual e, segundo as leis chinesas de exportação de tecnologia alteradas em 2020, qualquer futura modificação no sistema está sujeita à aprovação de Pequim. A ByteDance retém 19,9% da nova entidade — percentual máximo que a lei dos EUA permite.

A divisão responsável pelas operações comerciais lucrativas — publicidade e e-commerce — continua integralmente em mãos chinesas. Membros do Congresso americano de ambos os partidos questionaram publicamente se o acordo sequer atende ao que a lei exigiu; a resposta do Judiciário ainda não veio.

Ou seja, seis anos de ameaças, leis, decretos, prazos e extensões produziram controle americano sobre os dados de usuários, mas não sobre o ativo que os próprios EUA identificaram como a ameaça central — o algoritmo. E Pequim aprovou o acordo, o que significa que o governo chinês avaliou os termos como aceitáveis. Quando o lado pressionado pode viver com o resultado, a pressão atingiu seu teto estrutural.

Coluna vertebral da doutrina

Esse desfecho não é um caso isolado. O que o TikTok expõe é o teto de uma doutrina sistemática que os EUA vêm aplicando há pelo menos dois anos: usar a ameaça de tarifas como instrumento para impedir que países regulem plataformas digitais americanas.

A cadeia causal é documentada por uma investigação publicada simultaneamente pelo Nexo Jornal, Agência Pública e Núcleo Jornalismo na semana passada, e já tratamos dela em vários textos do Floresta Digital. Seu achado central é o mecanismo: a CCIA — entidade de lobby que representa Meta, Google, Amazon e Apple — enviou ao escritório do Representante de Comércio dos EUA, em fevereiro de 2025, uma lista de regulações estrangeiras a serem tratadas como barreiras comerciais. O governo simplesmente as encampou, item por item.

O resultado foram acordos bilaterais com Argentina, Equador, El Salvador e Indonésia que, na prática, enfraquecem ou abandonam projetos locais de regulação de plataformas, tributação digital e proteção de dados. Na Indonésia, organizações de imprensa documentaram que uma lei que obrigava plataformas a pagar pelo jornalismo que monetizam passou, após o acordo, de mandatória a voluntária.

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A lógica por trás desse resultado é o que torna a doutrina tão eficaz — até onde ela funciona. Regulação de plataformas não é, em princípio, uma questão de comércio. Mas quando uma lei prevê multas sobre o faturamento global de uma empresa, é possível recodificá-la como barreira não tarifária, o que a coloca dentro do escopo das negociações comerciais. É esse encaixe jurídico forçado que permite aos EUA pressionar legislações soberanas de outros países sem jamais nomear o que estão fazendo.

Para Burcu Kilic, pesquisadora do Centro para Governança Internacional e Inovação canadense, o que distingue esse ciclo de qualquer pressão comercial anterior é a transparência da fonte: “Os acordos abordam literalmente as principais demandas das empresas de tecnologia, sem discussões multilaterais ou regionais. Elas apresentaram suas prioridades e o governo simplesmente as encampou. Isso nunca tinha acontecido antes”.

A geometria da estratégia depende de escala. Cada país que assina cria precedente e aumenta a pressão sobre o próximo. Quando quatro ou cinco países menores já aceitaram os termos — e os EUA podem apontar para eles como prova de que a abordagem é legítima e aceitável —, o custo político de resistir cresce para os seguintes.

A investigação identifica o Brasil como o próximo da fila. Em agosto de 2025, Trump havia sinalizado explicitamente os instrumentos disponíveis: em post na Truth Social, anunciou que países com “tributos, legislação, regras ou regulações digitais” contra big techs sofreriam tarifas adicionais e restrições à importação de chips avançados.

O TikTok é o antípoda dessa cadeia. Com Argentina e Equador — países que precisavam do acesso ao mercado americano mais do que podiam resistir —, a pressão surtiu efeito. Com a China, que controlava um ativo tecnológico superior à importância do mercado americano para seu modelo de negócio, ela não funcionou da mesma forma. O algoritmo permaneceu chinês e a empresa estrangeira manteve participação acionária alta na joint venture.

A lição não é que a doutrina falha sempre, mas que ela encontra um limite estrutural quando o alvo possui algo que considera mais valioso do que o acesso ao mercado que Washington ameaça retirar.

O Brasil na berlinda

Tendo isso em mente, fica mais fácil entender alguns episódios que se desenrolam neste momento frente ao Brasil e outros países.

O Pix como barreira comercial

Em março, o relatório anual do USTR dedicou oito páginas ao Brasil e classificou como “barreiras comerciais” um conjunto de políticas que nada têm de protecionismo convencional. A lista inclui o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, o PL 4675/2025 que amplia os poderes do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre plataformas digitais, e a “taxa das blusinhas”.

No caso do Pix, o argumento é que o Banco Central “criou, detém, opera e regula” o sistema, e isso seria “tratamento preferencial” prejudicial a fornecedores privados americanos de pagamentos eletrônicos. Na prática, uma inovação pública que democratizou o acesso financeiro de mais de 150 milhões de brasileiros e reduziu a dependência de oligópolios privados internacionais é tratada pelos EUA como obstáculo comercial. Fontes próximas às negociações apontam que o endurecimento do USTR em relação ao Pix está diretamente ligado ao episódio imediatamente anterior.

A OMC e o travamento da moratória

Em Yaoundé, nos Camarões, a 14ª Conferência Ministerial da OMC terminou no fim de março sem consenso sobre a renovação da moratória a tarifas em transmissões eletrônicas — em vigor desde 1998, renovada ininterruptamente por quase três décadas.

Os EUA queriam torná-la permanente, retirando definitivamente de qualquer membro a possibilidade de tributar downloads, streamings e serviços em nuvem. O Brasil, acompanhado por outros países em desenvolvimento, propôs apenas uma extensão de dois anos — suficiente para preservar margem de negociação e espaço de política pública sobre um setor considerado estratégico.

Como as decisões da OMC exigem consenso, a posição brasileira travou o acordo. A moratória expirou. O representante comercial americano Jamieson Greer chegou a dizer aos delegados que “haveria consequências” se os EUA não obtivessem a extensão permanente. O Brasil não cedeu. Dias depois, o USTR publicou o relatório atacando o Pix.

O acordo mineral sem exclusividade

Em fevereiro, os EUA apresentaram ao Brasil uma proposta de cooperação em minerais críticos. O documento prevê que ambos os países “esperam ter a primeira oportunidade de investir” em projetos prioritários de mineração em território brasileiro — trecho que uma ala do governo interpreta como cláusula de preferência estrutural a investidores americanos, embora Washington negue a leitura.

O Brasil não assinou. Os acordos que o governo vem fechando com outros parceiros — Espanha, Índia, Coreia do Sul — são, por contraste, explicitamente descritos como “instrumentos de diálogo” sem compromisso de exploração nem cláusula de prioridade.

Coerência estratégica

Lida em conjunto, a sequência Pix, OMC, acordo mineral e a viagem de Lula à Europa revela uma estratégia coerente que nenhum desses episódios, visto separadamente, deixa ver com clareza. Quando o USTR ataca o Pix, o Congresso brasileiro debate uma PEC que o blindaria na própria Constituição — tornando a política pública de pagamentos estruturalmente inatacável por qualquer pressão bilateral futura.

O PL 4675, criticado pelo relatório americano como ameaça às big techs, segue seu curso espelhando o Digital Markets Act europeu. Na OMC, o Brasil aceitou o custo de o representante americano ameaçar “consequências” em plenário e não cedeu na moratória. E o acordo mineral que os EUA propuseram — com aquele trecho sobre “primeira oportunidade de investir” — segue sem assinatura enquanto acordos com Espanha, Índia e Coreia do Sul avançam.

A viagem de Lula à Europa nesta semana é o passo mais visível dessa estratégia. Em Barcelona, o presidente participa da primeira cúpula bilateral Brasil-Espanha e de um fórum sobre regulação de plataformas digitais e democracia — num país que é um dos mais ativos na aplicação do Digital Services Act europeu, a regulação que Washington também enquadraria como “barreira comercial” se pudesse.

Em Hannover (Alemanha), o Brasil ocupa pela primeira vez em 46 anos a posição de país parceiro oficial do maior evento industrial do mundo. O pano de fundo é o acordo Mercosul-UE, que entra em vigor provisoriamente em 1º de maio. Um Brasil com esse acordo ativo pode calcular a rejeição de pressão tarifária americana com um amortecedor europeu que não existia dois anos atrás. O mesmo vale para os mais de 500 mercados que foram abertos pelo governo Lula desde 2023.

A analogia com o TikTok é precisa e intencional. Assim como a ByteDance identificou a propriedade intelectual do algoritmo como o ativo que não pode ser entregue sem destruir o modelo de negócio, o Brasil parece ter identificado Pix, regulação de plataformas, minerais críticos e espaço de política pública digital como ativos cuja cessão antecipada, em condições desfavoráveis, seria mais custosa que qualquer tarifa retaliatória.

A diversificação de parceiros que Lula constrói em Barcelona, Hannover e Lisboa serve ao mesmo propósito que a diversificação de mercados serviu à ByteDance: reduzir o custo de cada resistência individual até o ponto em que a pressão perde sua eficácia coercitiva.

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O que está em curso é uma negociação lenta e distribuída sobre onde ficam os limites da soberania regulatória no mundo digital. O resultado dessa negociação, como o TikTok demonstrou, raramente se parece com o que qualquer lado anunciou que aceitaria. E os países que resistem sem sofrer as consequências anunciadas acumulam evidência de que a doutrina tem limites.

Para quem acompanha de perto o processo, o que se consolida não é a vitória de nenhum lado, mas a percepção de um padrão já que a doutrina dos EUA de usar tarifas como arma regulatória digital é real, sistemática e rastreável do lobby da CCIA à lista do USTR aos acordos com Argentina e Indonésia.

Seus limites são igualmente reais. E o Brasil, com mais instrumentos de resistência do que qualquer análise isolada reconhece, está navegando essa doutrina com uma sofisticação que só se torna visível quando os episódios são lidos em conjunto.

Fonte

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