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De acordo com pesquisa Quaest divulgada em janeiro, quase metade dos brasileiros aprova a invasão dos Estados Unidos na Venezuela, enquanto a maioria rejeita a condenação feita pelo presidente Lula. O medo de que o Brasil “vire uma Venezuela” segue mobilizando eleitores, mais entre lulistas do que entre bolsonaristas — sobre essa relação, vale lembrar das tensões recentes geradas pelo tarifaço de Donald Trump, discutidas anteriormente nesta coluna.
Contudo, a percepção dos brasileiros sobre a Venezuela nem sempre foi negativa. Durante os anos 2000, Hugo Chávez e Lula pareciam ser os grandes líderes da esquerda latino-americana. Portanto, de onde vem essa avaliação cada vez mais negativa da opinião pública em relação à Venezuela?
O impacto do ataque estadunidense ao país vizinho demonstra que a política externa deixou de ser um assunto restrito a diplomatas. Tanto nas ruas quanto nas principais redes sociais, os brasileiros estão debatendo esse fato internacional e suas possíveis consequências para as eleições presidenciais de 2026.
Embora o Brasil tenha construído ao longo do tempo a imagem de uma nação pacífica e diplomática, o debate público recente mostra opiniões cada vez mais intensas dos brasileiros sobre assuntos internacionais, especialmente em relação à Venezuela (Lira, 2025).
Parte dessa mudança está associada à atuação das elites políticas, que passaram a expressar publicamente avaliações críticas sobre o país vizinho desde o início da década de 2010, influenciando a forma como o tema passou a circular no debate público.
Mesmo antes do bolsonarismo existir como movimento político, a direita brasileira tradicional – na época, PSDB e DEM – utilizava o risco de “venezualização” do Brasil para alertar a opinião pública sobre a permanência do PT no poder.
A entrada da Venezuela de Chávez no Mercosul, em 2012, apoiada pelo governo brasileiro na época, tornou-se um ponto de inflexão: governo e oposição, liderados pelo PT e pelo PSDB, respectivamente, transformaram a política externa em arena de disputa política interna, cujos sinais passaram a ser interpretados e reproduzidos pela opinião pública.
A continuidade do regime sob Nicolás Maduro aprofundou a politização das relações exteriores brasileiras. O agravamento do autoritarismo e da crise econômica na Venezuela desencadeou uma onda migratória para países vizinhos, incluindo o Brasil, com efeitos diretos nos estados fronteiriços. Em 2015, Roraima decretou situação de emergência diante do aumento expressivo do fluxo de imigrantes venezuelanos em sua fronteira, evidenciando como a crise regional passou a gerar impactos concretos na agenda doméstica brasileira.
A crise migratória levou o tema ao centro da agenda política. A nova Lei de Migração, aprovada em 2017, ampliou direitos, mas provocou reação de grupos da direita, que passaram a enquadrar a imigração como uma ameaça à segurança nacional, o que acabou por resultar em vetos à lei. Em 2018, esse discurso ganhou força e se traduziu em episódios de violência contra venezuelanos, sobretudo em Roraima.
Esse contexto ajuda a explicar a mudança nas percepções sobre a imigração no Brasil. Embora o país registre historicamente baixo fluxo migratório, o Censo de 2022 aponta crescimento no número de imigrantes latino-americanos, especialmente venezuelanos. A participação desse grupo saltou de 27,3% em 2010 para 72% em 2022. Ao mesmo tempo, estudos recentes indicam um aumento de atitudes negativas em relação aos imigrantes.
Contudo, pesquisas de opinião realizadas entre 2014 e 2023 pelo projeto “O Brasil, as Américas e o mundo” (BAM) mostram que, apesar de pequenas oscilações, a avaliação da presença de estrangeiros permanece majoritariamente positiva (Lira, 2025).
Nos últimos anos, a polarização também passou a influenciar a política externa brasileira. Temas internacionais entraram na disputa político-partidária para mobilizar eleitores, e a Venezuela tornou-se seu principal símbolo. Governado pela esquerda desde 1999 e alvo dos EUA, o país é frequentemente usado como exemplo de autoritarismo e de colapso econômico. No Brasil, a aproximação com Caracas foi associada aos governos do PT e explorada por adversários, popularizando slogans como “o Brasil não vai virar Venezuela”, recorrente desde 2018.
A retórica parece ter surtido efeito. Houve uma mudança significativa nas percepções dos brasileiros ao longo do tempo. A Figura 1 mostra uma queda consistente na avaliação da Venezuela: em 2010, predominavam opiniões positivas, enquanto, em 2023, o país passou a ser majoritariamente avaliado negativamente.
Observa-se ainda o aumento das avaliações mais intensamente negativas e uma redução expressiva da taxa de não resposta, indicando que os brasileiros passaram a expressar mais sua opinião.
Essa mudança também se reflete na forma como os brasileiros avaliam as relações exteriores do Brasil com a Venezuela. A partir de 2019, o país passa a ser cada vez mais percebido como uma ameaça, segundo dados do BAM (2023).

Em conjunto, esses dados indicam um cenário de polarização, em que a relação entre o Brasil e a Venezuela é majoritariamente percebida como de “amizade” ou “ameaça”, com pouco espaço para avaliações intermediárias.
O padrão sugere que a avaliação sobre a Venezuela acompanha a polarização política doméstica, à medida que os discursos das elites, majoritariamente críticos, passam a orientar a forma como o tema é interpretado pela opinião pública.
Em relação aos Estados Unidos, os brasileiros parecem fazer uma distinção que nem sempre aparece no debate político: enquanto têm uma percepção positiva do país, rejeitam seu presidente. Essa clivagem já se impunha desde 2017 e se acentuou nos dados mais recentes, com menos indecisão e mais opiniões extremas, sugerindo uma crescente solidificação dos julgamentos.

Os dados indicam que, embora os sinais das elites sejam centrais para moldar a opinião pública no Brasil, eles não são convergentes no caso dos Estados Unidos. A direita tende a avaliar os EUA positivamente, a extrema direita personaliza essa relação em torno de Trump, como ilustrou Jair Bolsonaro ao declarar “I love you” em 2019, e a esquerda mantém uma posição crítica, hoje pouco mobilizadora. Esse desalinhamento ajuda a explicar por que a imagem dos EUA permanece relativamente estável, sem se traduzir em forte polarização.
No caso da Venezuela, o sinal das elites é mais nítido e polarizado. Há mais de uma década, a direita, e depois o bolsonarismo, utiliza o país como atalho cognitivo para alertar contra governos de esquerda. À esquerda, o posicionamento é mais ambíguo: embora Lula nunca tenha sido próximo de Maduro, o PT seguiu reconhecendo o regime chavista. A ausência de um sinal claro entre as elites progressistas tornou a Venezuela um tema politicamente custoso no debate eleitoral e cada vez mais isolado no debate brasileiro.
O sequestro de Maduro no terceiro dia do ano foi um recado claro de Washington sobre a “nova ordem mundial”. Retirar um presidente de um país soberano à força é algo gravíssimo para as normas formais e informais das Relações Internacionais. O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos e o respeito ao direito internacional, tem relativizado a questão.
Os dados da Quaest mostram uma ruptura na opinião pública em relação a todos esses elementos. A partir da polarização política doméstica, as pessoas se sentem à vontade para naturalizar os ataques estadunidenses, mesmo sem simpatizar com Trump. A imagem negativa da Venezuela e do regime chavista foi construída ao longo de anos pelas elites e acabou se cristalizando na população.
Quando a política externa entra na lógica da polarização, o custo é claro. Em nome da disputa interna, parte da opinião pública aceita o que antes seria inaceitável. A política doméstica passou a falar mais alto do que as regras do sistema internacional.