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Se o incômodo na Faria Lima virou pânico durante o período de vigência das sanções aplicadas sob a Lei Magnitsky a um único indivíduo brasileiro — o ministro Alexandre de Moraes —, o mercado financeiro deve se preparar para uma ameaça ainda mais preocupante. A eventual classificação do PCC e do CV como grupos terroristas, como estaria sendo discutida nas alas mais radicais da Casa Branca e é defendida pela direita no Brasil desde o ano passado, pode causar danos ainda difíceis de mensurar ao sistema financeiro nacional, segundo fontes do governo e especialistas ouvidos pelo JOTA.
No debate político, o argumento que tem se destacado é o de que tratar o crime organizado como terrorismo seria uma ameaça frontal à soberania brasileira, por abrir as portas para ações militares no Brasil, como aconteceu na Venezuela. Há quem diga que é difícil que isso aconteça, dado o tamanho e a relevância do país, embora a imprevisibilidade de Donald Trump tenha o poder de materializar hipóteses antes impensáveis.
Pouco se fala, contudo, sobre seu efeito mais evidente e imediato. Os efeitos que as sanções desencadeadas pela medida podem ter sobre instituições financeiras e empresas nacionais são os riscos que vêm sendo avaliados pelas autoridades brasileiras, que estudam seu potencial de alcance. O enquadramento do PCC e do CV como grupos terroristas permite a aplicação de sanções a toda e qualquer instituição financeira ou empresa que tenha negócios, contratos ou transações de qualquer natureza com seus integrantes, ainda que de pequena monta — comuns em operações de lavagem de dinheiro. É uma medida com alcance direto sobre o dia a dia dos bancos. Não se limita ao escopo de uma única pessoa e de seus bens, como no caso da Magnitsky.
A questão é que o PCC e o CV estariam integrados, em boa medida, à economia formal, com interligações com grandes, médias e pequenas empresas e com o mercado imobiliário, o que aumenta sobremaneira a exposição das instituições financeiras, que, em sua maioria, têm correspondentes nos EUA. Isso exigiria o exame cauteloso de todas as cadeias e de todos os provedores, com o desenvolvimento de novos programas de compliance e altos custos de adaptação.
“O risco de compliance é muito maior, porque afeta operações do dia a dia. Não só o high finance. Estamos falando de sanções muito mais graves e de longo alcance do que as da Magnitsky. Não são atos administrativos, mas criminais, que podem ser sancionados por lei”, disse ao JOTA Ricardo Zuñiga, fundador da Dinámica Américas, ex-diplomata e alto funcionário do Departamento de Estado na administração do democrata Joe Biden.
Usando o exemplo da cadeia revelada na operação Carbono Oculto, se a Petrobras distribuísse gasolina por meio de empresa conectada a um desses grupos, sob a nova classificação, poderia ser sancionada. O que Zuñiga ressalta é que o PCC, por exemplo, funciona como a máfia italiana, com capilaridade e domínio de cidades e regiões. Qualquer negócio nessas áreas poderia ser objeto de sanção, o que significa que, para as instituições, o nível de risco é muito mais alto. O México, que teve vários grupos do crime organizado classificados como terroristas, seria a prova disso.
Os bancos brasileiros são considerados conservadores em seu compliance e mantêm relação com correspondentes nos EUA, além de dependerem do acesso ao dólar e ao sistema financeiro americano. “Eles precisam desse acesso para suas operações. E isso cria um novo risco, porque as organizações estão no sistema formal, no varejo, nos portos, nos transportes, na distribuição de gasolina, no petróleo, no mercado imobiliário”, acrescenta Zuñiga.
Um interlocutor do governo fala em jogo arriscado da direita, que pode causar danos graves à economia brasileira, na mesma linha da bandeira que empunhou no ano passado pelo tarifaço e pela aplicação da Magnitsky contra membros do STF. “Se, por exemplo, diante da legislação americana, você, mesmo que involuntariamente, ou seja, ainda que não soubesse que um determinado operador usa os seus cartões, pode ser penalizado”, explicou.
O assunto foi tema de conversa telefônica recente entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Além de tentar desarmar a pauta, o chanceler tenta insistir no acordo de combate ao crime organizado proposto pelo presidente Lula a Trump por telefone ainda no ano passado e que está sendo negociado neste momento entre os dois países.
Uma parcela expressiva da população vê o crime organizado como um poder que extrapola o tráfico de drogas, avança sobre serviços e atividades comerciais em comunidades e estabelece ramificações na política e nas instituições. Essa percepção se intensificou no último ano.
Em fevereiro de 2026, 92% dos brasileiros afirmavam que organizações criminosas controlam esferas relevantes da política e do sistema judicial — alta de seis pontos percentuais em relação aos 86% registrados em fevereiro de 2025.
Os dados são da consultoria de opinião AtlasIntel e indicam não apenas avanço, mas consolidação dessa leitura na opinião pública, com um diagnóstico cada vez menos contestado.
Esse ambiente ajuda a explicar o avanço de propostas mais duras no debate político, como a reclassificação de organizações como CV e PCC como terroristas. A medida é hoje defendida de forma quase consensual por expoentes do campo bolsonarista, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL) e os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo) e Ratinho Júnior (PSD).
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Outro dado que calibra o potencial dessa proposta junto ao eleitorado foi medido em pesquisa da consultoria Quaest, realizada em novembro do ano passado, após a megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. O levantamento mostra que 73% dos brasileiros são favoráveis a enquadrar organizações criminosas como terroristas.
A principal conclusão neste momento é a mudança no enquadramento do crime organizado na opinião pública. Trata-se de um diagnóstico cada vez mais consolidado entre os brasileiros, ainda que carregue um componente relevante de viés ideológico e tenha potencial para polarizar o debate político nas campanhas.