Uma guerra no caminho do ESG

Mestre Machado de Assis ensinava que “Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muitas vezes indispensável…”. É possível inserir nessa máxima machadiana no conflito Irã-EUA, que desencadeou a pior crise do petróleo na história do mundo, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), levando muitos países a uma situação de insegurança energética?

O petróleo, o carvão e o gás seguem, sem dúvida, dominando a matriz energética global, mas a atual crise dos combustíveis fósseis pode colocar em risco a transição rumo ao carbono zero? Há, nesse debate, um paradoxo que merece atenção. A resposta tende a ser afirmativa quando observamos a retomada do uso do carvão — a mais poluente das fontes fósseis — empregado para compensar a escassez de gás natural liquefeito (GNL) em diversos países; além disso, a própria guerra impõe um custo climático elevadíssimo: foram 5 milhões de toneladas de emissões de GEE apenas nas duas primeiras semanas, volume equivalente à produção de 84 países. Esses números, divulgados pelo Instituto do Clima e Sociedade, já podem ser duplicados, pois o conflito ultrapassou um mês de duração.¹

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Contudo, essa realidade, fomentada pela preocupante falta de petróleo e gás e   seus impactos na economia, com aumento de preços, da inflação e das taxas de juros, pode levar ao incremento da busca pela diversificação de fontes de energia. A DVN, empresa de auditoria e gestão de riscos de Oslo, analisa o conflito do Oriente Médio como sendo uma janela de oportunidade para a sustentabilidade: “A regra geral de que o que é ruim para os combustíveis fósseis é bom para as energias renováveis ​​se aplica. E o conflito no Oriente Médio é definitivamente ruim para o petróleo e o gás. Ele está claramente fortalecendo a segurança energética como uma preocupação global primordial, pois expôs, mais uma vez, de forma dramática, a vulnerabilidade de muitos países à dependência do petróleo e do gás. Mesmo uma ‘normalização’ precoce da oferta e dos preços do petróleo e do gás não mudaria essa perspectiva.” ²

Mas o que esse paradoxo tem a ver com o ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança)? O colunista da Bloomberg, Liam Denning,  entende que há um novo ESG no horizonte,  que envolve economia, segurança e geopolítica, três fatores que devem ser vistos como externalidades, ou seja, riscos que afetam terceiros.³ Do outro lado do mundo, na Malásia, o “The Borneo Post” apresenta  percepção similar de que a guerra EUA-Irã poderá redefinir os pilares ESG , explicitando análise da MBSB Research: “Empresas com altas pontuações ESG estão apresentando um desempenho superior justamente porque sua eficiência energética reduz os custos com combustível, suas cadeias de suprimentos diversificadas evitam zonas de guerra e sua transparência em relação às sanções impede o colapso jurídico”.4

À medida que as empresas passam a tratar a segurança energética como uma prioridade estratégica, será inevitável reequilibrar o peso atribuído ao pilar Ambiental do ESG, incorporando uma visão mais ampla sobre a origem e a estabilidade das fontes de energia utilizadas. Da mesma forma, o pilar Social ganhará novas camadas de complexidade, exigindo que as organizações considerem a geopolítica que envolve seus profissionais, especialmente aqueles que atuam em regiões sujeitas a conflitos . Já a Governança, para se manter resiliente, precisará fortalecer de forma consistente suas estruturas de proteção, ampliando tanto os mecanismos de segurança digital quanto os protocolos de segurança física de suas estruturas.

Neste mundo de incertezas e vulnerabilidade energética, criou-se a necessidade de caminhar mais rapidamente no sentido das energias limpas (eólica, solares, hidrelétricas). Se o risco vem por atacado, as soluções podem vir no varejo. Já temos muitos veículos elétricos transitando. Na China, eles já são 50% da frota nova de veículos que chega ao mercado. Em ritmo similar, o Brasil vendeu 220 mil carros elétricos no ano passado. Pode parecer pouco frente a uma frota de 124 milhões de veículos, mas o crescimento foi significativo, de 26%, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). O país já conta com fábricas de veículos 100% elétricos e elétricos Plug-in em três Estados: Bahia, São Paulo e Minas Gerais.5

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Os conflitos no Oriente Médio também impulsionam a demanda por eletrificação em diversos países, inclusive europeus, estimulando a modernização das redes e das baterias de armazenamento de energia. A Comissão Europeia, por exemplo, apresentou este ano uma Comunicação ao Parlamento, ao Conselho e aos Comitês Econômico e Social e das Regiões sobre a “Estratégia de Investimento em Energia Limpa”, que defende uma transição acelerada para a eletrificação. A UE calcula que os aportes no setor energético devem alcançar 660 bilhões de euros entre 2026 e 2030, abrangendo oferta (geração), demanda (eficiência energética) e infraestrutura (redes). Os europeus buscam diversificar as fontes de financiamento para projetos energéticos a fim de garantir a segurança energética do continente.

Na conclusão da Comunicação, a Comissão recomenda: “Investir na transição para energias limpas significa investir na nossa segurança, competitividade e sustentabilidade. Esta estratégia e as suas ações-alvo visam ajudar a mobilizar capital privado institucional em larga escala, partindo do princípio de que é necessário investimento privado adicional na transição para energias limpas para a competitividade, segurança e descarbonização da Europa.”6

A Espanha, que vinha apostando fortemente na expansão das energias renováveis, enfrentou duras críticas após o apagão histórico ocorrido no ano passado, que paralisou sistemas de transporte e interrompeu atividades industriais em várias regiões do país. Apesar desse episódio, o desempenho espanhol na atual crise energética vem  surpreendendo. O país conseguiu mitigar de forma mais eficaz os efeitos da escassez de petróleo e demonstrou avanços significativos na consolidação de sua segurança energética.

Na busca de segurança energética, o Paquistão, país que atua como mediador no conflito entre EUA e Irã, registrou um expressivo avanço da energia solar fotovoltaica, que vem ajudando a amenizar a crise dos combustíveis fósseis. A capacidade de geração dos painéis instalados nos telhados paquistaneses superou a potência total . É quando o varejo ganha status de atacado.O Brasil, por sua vez, totalizou mais de 3,4 milhões de sistemas solares de geração de energia em 2025, sendo 83% das instalações em residências e 8% em comércios.

Igualmente, na Ásia, países como a Coreia do Sul, impactados pela crise de energia, porque importa 70% de petróleo bruto que transita pelo estreito de Hormuz – ponto nevrálgico do conflito no Oriente Médio – busca respostas a partir do incremento da energia limpa. A Coreia quer crescer no segmento de energia solar e está criando a partir deste ano 500 vilas de renda solar/ano até alcançar 2.500 em 2030.A implantação está vinculada a políticas públicas para acelerar a transição energética, fixar o homem no campo e criar uma fonte de renda para a comunidade .7

O atual paradoxo energético que atravessa o cenário global reforça, de maneira quase irrefutável, a percepção formulada por Machado de Assis sobre encontrar algo de bom em meio a uma crise de dimensões gigantescas, que pressiona governos e empresas. A agenda ESG, antes centrada sobretudo em métricas ambientais, sociais e de governança corporativa, passa agora a incorporar novas dimensões, como segurança energética, estabilidade econômica e impactos geopolíticos. A crise de combustíveis fósseis, portanto, funciona como um catalisador: expõe fragilidades, mas também abre espaço para que novos parâmetros sejam adotados, impulsionando políticas alinhadas às demandas urgentes de um mundo em transição energética.

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¹https://climateandcommunity.org/wp-content/uploads/2026/03/Research-Snapshot_Iran-Emissions-Methodology.pdf

²https://www.dnv.com/energy-transition-outlook/the-war-in-iran-and-effects-on-the-global-energy-transition/

³ www.bloomberg.com/opinion/articles/2026-03-06/iran-war-economics-security-and-geopolitics-are-the-new-esg

4 https://www.theborneopost.com/2026/03/10/how-malaysias-esg-agenda-evolves-after-the-us-iran-war/

5https://www.portalsolar.com.br/noticias/tecnologia/mobilidade-eletrica/brasil-bate-recorde-de-vendas-de-carros-eletricos-em-2025

6https://eur-lex.europa.eu/legal-content/

7https://www.eco-business.com/news/south-korea-bets-on-community-solar-to-drive-rural-energy-transition-cut-emissions/

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