Turismo no Brasil: evitando a solução errada para um problema que não existe

O turista brasileiro tem história. Aprendeu a viajar no banco de trás do carro, entre malas, sacos de supermercado e crianças sonolentas, em direção à casa de parentes numa cidade que o mapa mal registrava. Depois descobriu os classificados de jornal, as imobiliárias de beira de estrada, os cartazes de “aluga-se por temporada” colados em postes. Só mais recentemente – e com certa desconfiança inicial – entendeu que a tecnologia podia ajudá-lo a encontrar algo mais adequado, mais próximo do que ele de fato queria. Essa trajetória não foi ensinada por nenhuma política pública. Foi construída apesar delas.

Esse histórico importa porque revela algo sobre a natureza do turismo no Brasil: ele é, antes de tudo, um fenômeno de base. Não nasceu de grandes resorts nem de campanhas ministeriais. Nasceu da hospitalidade informal, da casa emprestada, do quarto alugado, da rede de indicações entre amigos, vizinhos e parentes. O aluguel por temporada não é uma novidade disruptiva no país, é a formalização de algo que os brasileiros sempre fizeram desde que viajar passou a ser possível.

Para um país de dimensões continentais, com uma diversidade de paisagens, culturas e sabores, esse modelo não é apenas conveniente. É estrutural. Em muitos destinos, de Norte a Sul, incluindo destinos não urbanos e cidades pequenas, não faz sentido econômico, ambiental ou social construir grandes hotéis. Em vez disso, a magia e o potencial das viagens no Brasil estão na hospitalidade local que já existe: um estoque enorme de quartos e casas (e os anfitriões que os compartilham), em destinos que ainda mal aparecem no mapa do turismo nacional.

Mas a acomodação sozinha não faz turismo. O que pode transformar o potencial econômico em ganhos concretos para comunidades e famílias em todo o Brasil se sustenta em três pilares: acomodações de curta duração operadas localmente, experiências que destacam a diversidade da história e das origens do Brasil e redes de transporte que conectam as pessoas do ponto A ao ponto B.

Juntos, esses três pilares manterão a renda circulando entre os moradores locais, valorizarão o que cada território tem de único – gastronomia, artesanato, saberes tradicionais, paisagens – e impulsionarão uma infraestrutura que beneficia não apenas os viajantes, mas também os próprios moradores. Esse modelo já existe de forma embrionária em várias partes do país: nas rotas de cicloturismo em Minas Gerais, nas experiências de turismo de base comunitária no Amazonas, nos caminhos rurais do sul do Brasil. Não é utopia. É uma arquitetura que precisa de apoio e escala dos agentes envolvidos.

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O Brasil não é Paris ou Barcelona. Esses destinos europeus mais movimentados são cidades históricas densas, com infraestrutura saturada há décadas, cujos desafios decorrentes do excesso de turismo foram resultado de sucessivos projetos de expansão da atividade sem considerar efetivamente o contexto local, e planos de marketing muito bem-sucedidos, que levaram a uma explosão de demanda. O Brasil, em grande parte, enfrenta o problema oposto: destinos subdesenvolvidos, infraestrutura insuficiente e uma demanda, tanto para viajantes domésticos como internacionais, que ainda tem potencial de crescimento. Usar o excesso europeu para frear a ausência brasileira é um erro de diagnóstico com consequências muito concretas.

Além disso, embora o discurso que direciona nossa atenção para as Barcelonas do mundo costuma soar progressista – preocupado com moradores, cultura local, especulação imobiliária, mas o efeito prático, em muitos casos, é a deterioração da disponibilidade de habitação e preços de aluguéis mais altos. Em um país tão diverso, quem perde com a restrição ao aluguel de temporada não é o grande investidor. É o morador que poderia complementar sua renda alugando um quarto, a região ou bairro específico que poderia receber visitantes sem perder sua identidade, o turista que poderia ter uma experiência mais autêntica do que qualquer pacote fechado é capaz de oferecer.

O Brasil não precisa tentar desaprender o que a Europa está tentando corrigir. Em vez disso, nós temos a oportunidade de construir desde já nosso ecossistema de turismo, que pode servir de modelo para destinos emergentes ao redor do mundo: um que seja distribuído, autêntico e enraizado na cultura local e no fortalecimento econômico. Esse é um modelo que não depende de investimentos estrangeiros robustos da hotelaria, mas que aproveita o que já existe e o que torna nosso país especial, respeitando os limites (ambientais, culturais e sociais) de cada destino.

O Brasil tem a oportunidade de trilhar seu próprio caminho, aprendendo com a experiência de outros destinos, mas construindo um modelo que reflita sua realidade, sua diversidade e seu potencial.

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