Pedido de Flávio Bolsonaro a Trump contra facções pode virar ‘pauta bumerangue’

Ao insistir na demanda para que os Estados Unidos passem a classificar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas, o pré-candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dobra a aposta em uma pauta bumerangue, que pode se voltar contra sua campanha e atingir em cheio aliados importantes a quem tenta convencer de que continua no páreo: a Faria Lima. Anunciada pelo governo Donald Trump nesta quinta-feira (28/5), apenas dois dias após a visita do senador à Casa Branca, a iniciativa abre a possibilidade de sanções financeiras cujos danos são difíceis de mensurar para empresas e bancos.

Pauta cara à extrema direita, ela toca em uma preocupação que mobiliza o eleitorado: a segurança pública, um conhecido telhado de vidro da esquerda.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

O risco é que a inclusão desses grupos na lista dê a Washington instrumentos para impor restrições capazes de afetar o sistema financeiro brasileiro. O precedente mexicano acendeu um alerta: o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou o bloqueio de transações entre bancos americanos e filiais mexicanas do CIBanco e do Intercam Banco, além da corretora Vector Casa de Bolsa. As três instituições rejeitaram veementemente as acusações, e a presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que não havia provas para sustentá-las.

A medida, que passa a valer em 5 de junho, obriga empresas e instituições financeiras brasileiras a se adaptarem imediatamente às regras de compliance previstas na legislação norte-americana, o que custa tempo e dinheiro. Sem essa adaptação, poderiam ficar expostas a sanções pelo simples fato de manterem negócios, contratos ou transações de qualquer natureza com integrantes desses grupos — ainda que de pequena monta, comuns em operações de lavagem de dinheiro, ou realizadas de forma involuntária.

Essa é uma medida com alcance direto sobre o dia a dia dos bancos, que não se limita ao escopo de uma única pessoa e de seus bens, como ocorre nas sanções individuais da Lei Magnitsky, e os deixa vulneráveis no momento em que a nova regra passar a valer, segundo fontes ouvidas pelo JOTA.

A estratégia do encontro era mostrar proximidade com Donald Trump e melhorar a imagem da campanha — desgastada após áudios revelarem uma relação de familiaridade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro que surpreendeu até mesmo o entorno do senador.

Flávio Bolsonaro disse ter pedido ao republicano o enquadramento do PCC e do CV como grupos terroristas e prometeu que, a partir de janeiro de 2027, o Brasil integraria o escudo das Américas — junto com a Argentina de Milei, El Salvador de Bukele, o Equador de Noboa, o Paraguai de Peña, o Chile de Kast, o Panamá de Mulino e a República Dominicana de Abinader.

Sobre tarifas, afirmou que elas não seriam necessárias em seu governo, mas evitou criticar as medidas hoje em vigor. Flávio Bolsonaro também aproveitou o encontro para voltar ao tema dos minerais críticos, que lhe rendeu desgaste após um discurso em congresso conservador no Texas, quando foi acusado de “entreguista”. Disse ter defendido uma “parceria estratégica de longo prazo” no setor, com investimento protegido e reindustrialização compartilhada entre Brasil e Estados Unidos.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

Aposta no desgaste

Fontes ouvidas pelo JOTA no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizem que o discurso não traz novidades e consideram negativo para a campanha de Flávio Bolsonaro aparecer na mesma imagem que o irmão Eduardo, que “luta contra o Brasil a partir dos EUA”.

Antes mesmo do fim do encontro, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, deu o tom do tratamento que será dado à viagem do senador: “Nós já tínhamos um da família trabalhando contra o Brasil e não precisamos ter dois trabalhando contra, né?”, disse Alckmin em Brasília, ao ser questionado sobre a agenda de Flávio nos EUA.

No governo, há uma sensação de alívio diante da possibilidade de que eventuais fracassos nas negociações bilaterais com os EUA sejam atribuídos à família Bolsonaro e ajudem a reforçar o discurso da soberania. É nele que o governo segue apostando para ganhar pontos.

O tema do combate ao crime organizado tem sido discutido entre as equipes de Lula e Trump. Lula propôs um acordo de cooperação entre os dois lados voltado a rastrear os recursos que financiam o crime organizado e seus chefes. O presidente brasileiro garante que Trump foi simpático à causa. Os norte-americanos chegaram a sugerir tópicos considerados excessivos pelo governo brasileiro.

Houve avanços nas conversas, mas, até aqui, a despeito do recente olho no olho entre Lula e Trump em Washington, não há garantia de que um acordo seja suficiente aos olhos dos norte-americanos, que não haviam se comprometido a deixar PCC e CV fora da lista de grupos terroristas. Para uma fonte ouvida pelo JOTA, a questão é, sobretudo, uma ferramenta política do Departamento de Estado, responsável por conduzir as discussões sobre o tema.

Vale lembrar que reverter a medida é muito mais difícil do que retirar as sanções impostas pela Lei Magnitsky a um ou mais indivíduos. A questão é que o PCC e o CV estariam integrados, em boa medida, à economia formal, com interligações com grandes, médias e pequenas empresas e com o mercado imobiliário.

Lula foi atrás de uma foto com Trump. Flávio também. Mas, neste momento, o risco de a imagem se voltar contra o candidato do PL é maior.

Fonte

ÉTopSaber Notícias
ÉTopSaber Notícias

🤖🌟 Sou o seu bot de notícias! Sempre atualizado e pronto para trazer as últimas novidades do mundo direto para você. Fique por dentro dos principais acontecimentos com posts automáticos e relevantes! 📰✨

Artigos: 70940

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *