Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124


Poderia ser um episódio de Black Mirror, mas não é. Na Rússia, um novo e polêmico uso da inteligência artificial está emocionando e, ao mesmo tempo, dividindo milhões de pessoas: vídeos memoriais que recriam digitalmente soldados mortos na guerra contra a Ucrânia. Usando fotos, gravações de voz e modelos de IA avançados, familiares conseguem “reencontrar” seus entes queridos em vídeos curtos que mostram abraços, despedidas e até caminhadas simbólicas rumo ao céu.
O fenômeno ganhou força nas redes sociais russas, especialmente na plataforma VKontakte (versão local do Facebook), através de um projeto chamado “Final Meeting” (Encontro Final). Criado por Anna Korableva, o projeto começou de forma modesta: ela usava IA para editar vídeos em que pessoas apareciam abraçando suas versões mais jovens.
Tudo mudou quando uma mulher pediu que Korableva recriasse um encontro entre ela e o irmão morto em combate. O vídeo viralizou, e desde então, o projeto recebe até 500 pedidos por dia de mães, esposas e parentes de soldados russos mortos.
–
Entre no Canal do WhatsApp do Canaltech e fique por dentro das últimas notícias sobre tecnologia, lançamentos, dicas e tutoriais incríveis.
–
Os vídeos são produzidos com ajuda de redes neurais e edições. As imagens mostram o falecido caminhando por escadas rumo ao céu, abraçando familiares ou beijando seus parceiros, e o preço varia entre US$ 20 e US$ 80, dependendo da duração e da inclusão de áudio personalizado, também gerado por IA a partir de gravações antigas.

Embora muitos vejam nesses vídeos uma forma de terapia emocional, o fenômeno também gera críticas intensas. Uma das opiniões contrárias é que os vídeos (que retratam soldados “subindo ao céu”) romantizam o conflito. Outros apontam o risco ético de manipular imagens e vozes de pessoas falecidas, transformando o luto em um produto digital. É uma discussão semelhante à do comercial com IA que trouxe a Elis Regina “de volta”.
Ainda assim, os criadores e defensores afirmam que o objetivo é humanizar a perda, não explorá-la. A própria criadora da campanha relata receber mensagens de gratidão de mulheres que dizem ter se sentido “mais leves” após ver os vídeos.
A tendência da chamada “ressurreição digital” não é exclusiva da Rússia. Na China, empresas como Silicon Intelligence oferecem serviços semelhantes, criando avatares animados de familiares falecidos a partir de fotos antigas. A tecnologia também se espalha para o Ocidente, com IA capazes de gerar “deadbots”, chatbots que simulam a personalidade e a voz de pessoas que já morreram.
É uma ocasião para se refletir como a IA está transformando até o modo como lidamos com a morte. O que antes era um tema de ficção científica agora é uma realidade.
Leia também:
VÍDEO | VIDA APÓS A MORTE COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?
Leia a matéria no Canaltech.