IA pode impactar até 37% dos trabalhadores e expõe lacuna digital no Brasil

IA pode impactar até 37% dos trabalhadores e expõe lacuna digital no Brasil – Canaltech

A discussão sobre inteligência artificial no mercado de trabalho brasileiro costuma oscilar entre dois extremos: o entusiasmo tecnológico e o temor da substituição em massa. Mas o que o debate público ainda não absorveu com clareza é que a IA não opera apenas como uma força de eliminação de postos de trabalho. Ela está reconfigurando, de forma mais profunda e silenciosa, a própria lógica de funcionamento do emprego.

Um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com as Fundações Grupo Volkswagen e Arymax, ajuda a dimensionar esse deslocamento. Segundo o levantamento, até 37% dos trabalhadores brasileiros podem ser impactados pela inteligência artificial. O dado, por si só, já seria suficiente para exigir atenção. Mas o ponto mais relevante está no tipo de impacto: não se trata de um único vetor, mas de uma transformação que atua simultaneamente sobre automação de tarefas, reorganização de funções e redefinição de habilidades demandadas.

A IA não apenas substitui atividades repetitivas: ela também amplia capacidades humanas e, sobretudo, altera a forma como valor econômico é gerado dentro das organizações. Isso significa que o trabalho deixa de ser avaliado apenas pelo que executa e passa a ser medido pelo quanto consegue se adaptar a sistemas cada vez mais mediados por tecnologia. A consequência é menos visível do que uma demissão em larga escala, mas potencialmente mais estrutural.


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Nesse novo ambiente, o risco não está apenas na substituição direta de funções, mas na velocidade com que determinadas competências deixam de ser relevantes. Profissões inteiras podem não desaparecer, mas perder centralidade econômica em ciclos cada vez mais curtos. Isso desloca o problema do campo da ocupação para o campo da atualização permanente, um desafio que recai tanto sobre trabalhadores quanto sobre empresas e políticas públicas.

O ponto mais sensível desse processo é que ele encontra um país ainda distante de uma base mínima de letramento digital. Dados da Anatel indicam que apenas 21,3% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas, como enviar um e-mail. Em outras palavras, antes mesmo de discutir inteligência artificial avançada, o Brasil ainda enfrenta um déficit de competências elementares para a vida digital contemporânea.

Essa defasagem ajuda a explicar por que os efeitos da IA tendem a ser assimétricos. Em economias mais maduras digitalmente, a transição ocorre sobre uma base já consolidada de habilidades. No Brasil, ela acontece sobre um terreno fragmentado, o que tende a ampliar desigualdades existentes e criar novas linhas de exclusão.

O tema é estrutural e, em alguma medida, coletivo, pois diz respeito ao lugar que o país quer ocupar nessa nova economia do trabalho. Sem uma política consistente de formação digital e de requalificação em escala, a inteligência artificial tende a deixar de ser apenas uma alavanca de produtividade para se tornar também um fator de ampliação das desigualdades já existentes.

A pergunta que se impõe não é se a IA vai transformar o trabalho. Isso já está em curso. A questão é quem estará preparado para acompanhar essa transformação e em que ritmo ela será distribuída na sociedade.

Confira também outro artigo sobre o tema: Organizações Agênticas: nova e significativa mudança de paradigma no trabalho.

Leia a matéria no Canaltech.

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