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O desenvolvimento das nações é um processo contínuo, complexo e de difícil mensuração, o que alimenta uma diversidade de abordagens e interpretações no debate contemporâneo da economia política internacional. Há, ainda assim, um consenso crescente de que se trata de um fenômeno multidimensional, que transcende o crescimento econômico e abrange qualidade dos serviços públicos, prosperidade, inclusão e equidade social, segurança institucional e sustentabilidade ambiental.
Permanece, contudo, a questão central: como uma nação alcança níveis elevados e sustentáveis de desenvolvimento? Ou por que alguns países constroem trajetórias consistentes de progresso, enquanto outros permanecem marcados pela estagnação ou por avanços incompletos, mesmo dispondo de condições e recursos comparáveis?
É nesse contexto que o Global State Development Drivers Index (GSDI), elaborado pela Universidade de Fudan (Xangai),[1] emerge como contribuição relevante. Em vez de se limitar a uma única dimensão do desempenho econômico, como PIB, renda ou produtividade, o índice organiza um conjunto amplo de variáveis associadas às bases, capacidades e resultados do desenvolvimento. Sua contribuição está menos em isolar causas puras e mais em oferecer uma leitura sintética das condições e trajetórias que sustentam processos duradouros de transformação
Seu diferencial reside em uma abordagem explicitamente sistêmica e integrada. O desenvolvimento é compreendido como um fenômeno multicausal, composto por dimensões interdependentes, nas quais diferentes variáveis se reforçam — ou se bloqueiam — no decorrer do tempo. Parte-se da premissa de que o desenvolvimento não é espontâneo, mas resultado da ação de “forças motrizes” organizadas e coordenadas pelo Estado. Nesse sentido, o índice se diferencia de muitos indicadores comparativos utilizados por organismos internacionais, como Banco Mundial, FMI e OCDE, ao propor uma síntese integrada das diferentes forças que sustentam o desenvolvimento.
O índice é organizado em torno de cinco forças motrizes, cada uma medida por um conjunto de indicadores, formando um sistema comparável entre países e divididos em duas categorias. A primeira reúne as bases de sustentação (sustainability drivers), ou seja, a capacidade de continuidade e vitalidade sociocultural que incluem recursos, coesão e condições de longo prazo. A segunda concentra os vetores impulsionadores (driving forces) responsáveis pela geração de crescimento, bem-estar e avanço tecnológico. A articulação entre esses dois blocos é o que define o caminho de cada país, como sintetiza o quadro a seguir, que detalha os cinco submotores do GSDI.
Forças Motrizes do Desenvolvimento (GSDI)
| Submotores | O que mede | Indicadores principais |
| Forças produtivas | Capacidade de gerar riqueza material | PIB, PIB per capita, eletricidade, produtividade, força de trabalho, veículos de nova energia |
| Forças de desenvolvimento | Desenvolvimento econômico e social | Crescimento, desigualdade, emprego, gasto social, IDH, transparência, confiança, segurança, urbanização |
| Forças inovadoras | Investimento e resultados em inovação | P&D, universidades de ponta, inovação, patentes |
| Capacidade de continuidade | Sustentação material e humana de longo prazo | Defesa, território, meio ambiente, recursos naturais, população, educação, mobilidade estudantil |
| Vitalidade sociocultural | Confiança, atividade social e bem-estar | Efetividade governamental, confiança do consumidor, utilização da capacidade, suicídio, felicidade |
Fonte: adaptado de Fudan Development Institute (2025).
E como se distribuem as nações nesse ranking? O índice abrange 44 países, selecionados com base, principalmente, em sua influência econômica global e liderança regional[2]. O gráfico a seguir compara o desempenho dos países em dois momentos: 2013 (eixo horizontal) e 2023 (eixo vertical). Cada ponto representa um país: quanto mais à direita, maior seu nível inicial e quanto mais acima, melhor seu desempenho recente.
Gráfico 1: Evolução do GSDI (2013-2023)

Fonte: https://sdd.fudan.edu.cn/En
O primeiro aspecto que se destaca é a forte estabilidade no topo do ranking. Os Estados Unidos mantêm a liderança, com avanço adicional no período, o que sugere elevada capacidade de sustentar posições superiores no índice. De maneira semelhante, países europeus, em especial os escandinavos, permanecem concentrados nas posições superiores, com variações marginais.
Esse comportamento revela um padrão caracterizado por elevada continuidade institucional, robusta capacidade estatal e significativa vitalidade sociocultural. Ainda que apresentem perfis de inovação distintos daqueles observados em economias asiáticas de rápida transformação produtiva, esses países combinam estabilidade institucional, coesão social e políticas públicas adaptativas, resultando em avanços incrementais e relativamente estáveis.
Em contraste, o gráfico demonstra a evolução ascendente mais expressiva do conjunto analisado: a da China, que se desloca de forma acentuada em direção ao topo, refletindo ganhos expressivos em capacidade produtiva, inovação tecnológica e coordenação estatal. Mais do que crescimento, trata-se de um processo acelerado de convergência com as economias mais avançadas.
O Brasil, por sua vez, apresenta um padrão distinto. Posicionado na faixa intermediária, seu desempenho revela estagnação no decorrer da década, com leve perda relativa. Apesar de contar com uma base industrial ainda relevante e um sistema científico significativo, o país enfrenta fragilidades persistentes — notadamente baixa coordenação estatal, descontinuidade de políticas públicas e limitações na inovação aplicada.
O problema fundamental, portanto, não reside na ausência de capacidades, mas na dificuldade de articulá-las de forma coerente. O resultado é um potencial recorrente que não se converte em um padrão de desenvolvimento de longo prazo.
Como ilustra o Gráfico 2, quando comparado aos países líderes, o Brasil apresenta uma distância relevante, especialmente nas dimensões de capacidade de continuidade, forças produtivas e inovação. Enquanto países como EUA, China e nações europeias exibem perfis relativamente equilibrados entre os diferentes motores do desenvolvimento, o Brasil mantém um padrão assimétrico, com desempenho razoável apenas em vitalidade sociocultural e forças de desenvolvimento.
Essa configuração, todavia, não é exclusividade brasileira. Na América Latina, o Brasil situa-se próximo da média, com vantagens marginais em alguns pilares, sem, no entanto, romper o teto que caracteriza a região. Em síntese, os países latino-americanos compartilham configurações marcadas pela fragmentação entre dimensões, pela descontinuidade das políticas públicas e pela limitada capacidade de execução.
Gráfico 2: Brasil em Perspectiva Comparada (2023)

Fonte: Adaptado de https://sdd.fudan.edu.cn/En
Outra comparação relevante é entre os países emergentes do Leste Asiático e da América Latina. Entre 2013 e 2023, o grupo asiático (China, Vietnã, Malásia, Tailândia e Filipinas) avançou no GSDI, em média, de 45,2 para 50,3 pontos (+5,1), enquanto o grupo latino-americano (Brasil, Argentina, Chile, Peru, Costa Rica e México) registrou leve retração, de 44,9 para 44,2 pontos (-0,7). Essa diferença não é apenas de ritmo, mas também da natureza da estratégia de desenvolvimento.
Na Ásia, observa-se um padrão cumulativo, no qual ganhos em capacidade produtiva, forças de desenvolvimento e inovação se reforçam mutuamente, indicando uma complexificação econômica progressiva. Já na América Latina, a estabilidade dos indicadores indica dificuldades de coordenação entre esses vetores, reflexo da intensa desindustrialização e da baixa sofisticação tecnológica. Trata-se, assim, menos de uma divergência conjuntural e mais de caminhos distintos de desenvolvimento.
Em linhas gerais, o Global State Development Drivers Index qualifica o debate ao deslocar a análise dos resultados para as bases que os sustentam. Seu diferencial é sugerir que o desenvolvimento depende de coerência sistêmica: avanços isolados tendem a ser insuficientes quando não se articulam a capacidades produtivas, institucionais, sociais e inovativas.
Com isso, o índice questiona abordagens fragmentadas e de curto prazo, indicando que trajetórias bem-sucedidas estão associadas à coordenação estratégica, à continuidade institucional e à atuação de Estados capazes de orquestrar processos de complexificação econômica.
Para o Brasil, a leitura é especialmente relevante. O problema central parece estar menos na ausência de recursos ou capacidades latentes e mais na dificuldade de articulá-los de forma consistente e duradoura. Isso aponta para a baixa coordenação entre política industrial e agenda de inovação, além da fragilidade de um planejamento de longo prazo sustentado por estabilidade institucional, condição necessária para transformar potencial em mudança estrutural.
O “Santo Graal” do desenvolvimento, almejado por todos e alcançado por poucos, permanece complexo. Não há modelo único nem receita universal. A experiência comparada sugere, porém, um elemento recorrente: Estados capazes de organizar, coordenar e alinhar progressivamente as forças motrizes do desenvolvimento.
Ferramentas como o GSDI não oferecem respostas prontas, mas uma lente para mapear capacidades, identificar lacunas e orientar escolhas estratégicas. Nesse terreno, saber onde se está e como outros países avançaram é um passo decisivo para construir caminhos próprios.
[1] Para mais detalhes, ver Fudan Development Institute. (2025). Global State Development Drivers Index (2024). State Development Drivers Series.
[2] Para mais informações sobre a metodologia ver o Anexo em Fudan Development Institute. (2025). Global State Development Drivers Index (2024). State Development Drivers Series.