Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124


Em um mundo com cada vez mais eventos climáticos extremos como secas prolongadas, ondas de calor, enchentes e incêndios florestais de grandes proporções, a crise climática e a perda de biodiversidade deixaram de ser pautas restritas à agenda ambiental. Expressam o aprofundamento de desequilíbrios ecológicos produzidos pela forma como ocupamos e exploramos o planeta, atravessando diretamente áreas como economia, energia, infraestrutura, segurança alimentar, saúde pública e ordenamento territorial.
Quando o desmatamento avança e incêndios consomem grandes extensões de vegetação, os impactos ultrapassam os territórios diretamente afetados. A degradação ambiental afeta economias, intensifica eventos extremos, amplia a insegurança hídrica e alimentar e reduz a capacidade de adaptação das sociedades frente à crise climática. Ainda assim, apesar do avanço do conhecimento científico e do consenso internacional, persiste a dificuldade de transformar diagnósticos em mudanças estruturais.
Os ecossistemas atuais resultam de longos processos geológicos, climáticos e biológicos, marcados por extinções, transformações ambientais e reorganizações da vida na Terra. A biodiversidade sempre esteve em transformação, mas a velocidade atual das mudanças indica uma crise ecológica sem precedentes na história.
Celebrado em 22 de maio, o Dia Internacional da Biodiversidade foi instituído pela ONU para conscientizar sobre a importância da diversidade biológica e da conservação dos ecossistemas. A data remete à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), firmada na Eco-92, no Rio de Janeiro, em 1992. Mais de 30 anos depois, o tema permanece urgente diante da aceleração da perda de espécies e da degradação ambiental.
Pela primeira vez, uma única espécie adquiriu capacidade de alterar de forma acelerada os sistemas ecológicos planetários. Segundo a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), cerca de 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, dentro de um total estimado de 8 milhões, cenário que caracteriza uma crise ecológica sem precedentes.
As principais causas dessa perda, como mudanças de uso da terra, fragmentação de habitats, mudanças climáticas e exploração massiva de recursos naturais, estão associadas a um modelo de desenvolvimento consolidado sobretudo nos últimos dois séculos. Isso revela um ponto central: a humanidade deixou de ser apenas parte dos sistemas naturais e passou a ser uma força de transformação capaz de comprometer sua própria base de sustentação. E justamente por isso também recai sobre ela a responsabilidade de reorganizar sua relação com o planeta.
A perda de biodiversidade não representa apenas erosão ecológica, mas uma desestruturação progressiva dos sistemas biofísicos responsáveis pela regulação climática, pela manutenção dos ciclos hidrológicos, pela fertilidade dos solos e pela estabilidade de processos essenciais à produção de alimentos e à segurança hídrica.
No Brasil, essa discussão ganha contornos particularmente complexos. O país reúne uma das maiores diversidades biológicas do planeta e, ao mesmo tempo, um importante conjunto de instrumentos legais e institucionais voltados à conservação ambiental, à proteção climática e ao reconhecimento de direitos territoriais.
Entre esses instrumentos estão a Política Nacional sobre Mudança do Clima, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, os Planos de Ação Nacional para Conservação de Espécies Ameaçadas e a Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB), principal instrumento brasileiro de implementação dos compromissos assumidos no âmbito da CDB, além de mecanismos de controle do desmatamento, restauração florestal e fortalecimento de áreas protegidas, territórios indígenas e quilombolas.
Soma-se a isso o Código Florestal, com parâmetros de proteção ambiental incidentes sobre propriedades rurais privadas e desempenha papel relevante na manutenção da vegetação nativa em áreas produtivas. Esses avanços são resultado do acúmulo de conhecimento científico, da atuação de movimentos sociais e ambientais e de décadas de compromissos internacionais.
Ainda assim, persistem fortes contradições. Ao mesmo tempo em que o país amplia metas ambientais, fortalece compromissos internacionais e consolida importantes marcos normativos voltados à conservação e à proteção climática, também convive com pressões associadas à expansão desordenada da fronteira agropecuária, à mineração ilegal, à grilagem de terras públicas e à implementação de grandes obras e projetos frequentemente dissociados dos limites ecológicos dos territórios, além de desconsiderarem direitos, modos de vida e interesses da diversidade de grupos sociais que dependem diretamente desses ambientes.
Essa tensão pode ajudar a entendermos por que o Brasil frequentemente avança na formulação de políticas ambientais e, simultaneamente e infelizmente, enfrenta enormes dificuldades para consolidá-las de forma transversal nas demais agendas de desenvolvimento.
Como já dito pela ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva, a questão ambiental não pode ser tratada como um tema isolado pelos órgãos ambientais. Atravessa decisões relacionadas à infraestrutura, energia, agricultura, transportes, cidades, ordenamento territorial e modelo econômico e deveria ser tratada com mais seriedade e entendida como essencial para construirmos um cenário de desenvolvimento em bases realmente sustentáveis.
Exemplos como a repavimentação da BR-319 ilustram esse conflito, frequentemente reduzido à oposição entre conservação e desenvolvimento. No entanto, a ausência de avaliação rigorosa de impactos pode gerar desmatamento, conflitos territoriais, emissões elevadas e custos socioambientais de longo prazo.
Situação semelhante ocorre no debate sobre exploração de petróleo na foz do Amazonas, região de alta complexidade ecológica, com manguezais extensos e sistemas estuarinos fundamentais. Nesse contexto, o princípio da precaução não é obstáculo, mas instrumento de governança diante de riscos irreversíveis.
O desafio central não é escolher entre desenvolvimento e conservação, mas incorporar limites ecológicos às decisões estratégicas. Ignorá-los compromete as próprias bases econômicas e ambientais da Amazônia.
Áreas protegidas e territórios indígenas desempenham papel essencial não apenas na conservação da biodiversidade, mas também no ordenamento territorial, na contenção do desmatamento e na estabilidade climática regional.
Ao mesmo tempo, experiências de sociobioeconomia demonstram que é possível conciliar conservação e geração de renda, especialmente por meio do uso sustentável de recursos florestais, pesca manejada e conhecimentos tradicionais. Ainda assim, essas iniciativas coexistem com um modelo econômico baseado na conversão de ecossistemas naturais.
No cenário internacional, após o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, o desafio passa da formulação de metas à implementação efetiva. A COP17, prevista para 2026 em Yerevan, na Armênia, deverá aprofundar debates sobre financiamento, monitoramento e integração entre biodiversidade, clima e desenvolvimento.
Para o Brasil, esse contexto é estratégico, especialmente diante do protagonismo crescente nas agendas ambientais globais. Fortalecer políticas de conservação e uso sustentável significa ampliar a capacidade de governança territorial e planejamento de longo prazo.
A questão central da crise da biodiversidade talvez não seja mais se devemos conservar espécies e ecossistemas, mas se seremos capazes de reorganizar nossas decisões econômicas e territoriais antes que limites ecológicos sejam ultrapassados de forma irreversível, comprometendo as bases da vida no planeta.