Lula, Flávio e Haddad: a metáfora do cristal trincado

Um sábio veterano das pesquisas e do marketing político costuma recorrer a uma metáfora interessante quando quer explicar em poucas palavras determinados motivos que tornam um candidato mais viável eleitoralmente do que outro. “Fulano não tem o cristal trincado”, diz ele.

Em linhas gerais, essa expressão significa que a imagem pública de determinado político não tem fissuras nem episódios que possam comprometer sua credibilidade, além de transmitir a ideia de transparência, ou seja, o cristal está límpido e intacto, facilitando a construção de uma candidatura vitoriosa.

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Conforme essa teoria informal, a eleição para presidente deste ano vem se desenhando como uma disputa entre dois favoritos que não possuem mais o privilégio de ostentar um cristal intacto, prova disso são os recentes ataques do PT a Flávio Bolsonaro (PL) e o revide imediato do senador. O partido do presidente da República associou o filho de Jair Bolsonaro ao escândalo do banco Master: “Bolso Master”. A resposta foi rápida: “esquema de corrupção ocorrido já no governo Lula“.

A troca de acusações nas redes sociais não se restringe ao banco. Rachadinha, mensalão, milícias, escândalo do INSS, mansão e petrolão puxam a capivara das desgraças. Não por outros motivos, o mesmo sábio da teoria do cristal quebrado vaticina: “estamos adentrando a batalha das rejeições”. De acordo com a mais recente pesquisa Genial Quaest, Lula e Flávio têm 48% de rejeição cada, seguidos por Romeu Zema (Novo), com 33%, e Ronaldo Caiado (PSD), com 29%.

No entanto, segundo a mesma pesquisa, Lula, com 37%, e Flávio, com 32%, são os líderes das intenções de voto no primeiro turno. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. Portanto, estamos mesmo diante de uma “batalha do cristal trincado” entre os favoritos.

Importante neste ponto lembrar o marqueteiro Duda Mendonça (1944-2021), que popularizou a frase “quem bate, perde”, uma síntese dos ensinamentos dos bons manuais de comunicação eleitoral: ataques diretos e agressivos tendem a prejudicar também seus autores porque o eleitor não gosta de agressividade.

Mas como diminuir a rejeição de Lula e Flávio se suas pré-campanhas já estão se engalfinhando nas redes sociais cinco meses antes da eleição? Como transmitir ao eleitor alguma sensação de esperança se a narrativa for baseada em votar no “menos pior” para o país?

Há ainda um problema adicional para Lula. Bater em Flávio com a intenção de frear a subida do pré-candidato do PL nas pesquisas poderá beneficiar e fortalecer Caiado ou Zema, também candidatos de centro-direita. Trocando em miúdos, o petista corre o risco de aumentar sua rejeição sem tirar da frente adversários políticos e eleitorais. 

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É nesse cenário que começam a trabalhar as equipes de comunicação das principais pré-campanhas até aqui. Em algum momento, se tiverem juízo e competência, os times de Lula e de Flávio terão de levar a sério o trabalho hercúleo de diminuir a rejeição de seus candidatos, algo sabidamente difícil de ocorrer no conturbado ambiente político brasileiro, cingido por uma polarização de nervos à flor da pele.

No caso do presidente, fustigado pela chuva e pelo eterno vento da política brasileira, o trabalho de diminuição de sua rejeição deveria ser a base de sua atual pré-campanha e de toda a campanha a partir de agosto, ao menos no primeiro turno. Por ora, a julgar pelo que foi apresentado até aqui, o caminho escolhido poderá ser outro.

Assim, se a pancadaria não der certo nos próximos meses, é possível que crescerá nos bastidores do PT, da centro-esquerda e até da Faria Lima o grupo dos que sonham com a substituição de Lula pelo ex-ministro Fernando Haddad, um petista cujo o cristal não está trincado pelos “ãos” da política nacional. 

Me chama

Em conversas reservadas, Fernando Haddad tem dito que gostaria de ser convocado pela CPI do Master, se algum dia ela vier a ser instalada no Congresso, para debater de peito aberto com a oposição.

Deixa comigo

O PT escalou Haddad para atacar Flávio como forma de preservar Lula até onde for possível do embate direto com o filho de Jair Bolsonaro. Coube ao ex-ministro e pupilo do presidente cravar o apelido “Bolsonarinho”.

Fair play

Quando o assunto, porém, é sua pré-campanha para o governo de São Paulo, Haddad diz que vai procurar manter o alto nível contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) e os demais adversários.

Fonte

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