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O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, 76 anos, será o nome do PSD na disputa à Presidência da República em 2026. Médico de formação, líder ruralista e político com mais de três décadas de vida pública, Caiado construiu sua trajetória ancorado em pautas conservadoras, com forte base no agronegócio e discurso voltado à segurança pública e a crítica a governos do PT.
O nome de Caiado foi confirmado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, na manhã desta segunda-feira (30/3), em evento do Banco Safra. O anúncio oficial da candidatura ocorreu às tarde, na sede do partido em São Paulo.
A escolha do goiano não ocorreu sem divergências internas. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, até então também pré-candidato, era visto por parte da legenda como uma alternativa mais alinhada ao centro. Nesta manhã, ele criticou a definição da sua sigla. Na manhã desta segunda, ele criticou a decisão do partido. Sem citar Caiado diretamente, afirmou em vídeo nas redes sociais que a definição “desencanta” a ele e a “tantos outros brasileiros”. Também disse ter recebido apoio de lideranças políticas, economistas e membros da sociedade civil durante sua pré-candidatura.
“O Brasil está cansado, muito cansado de uma disputa que aprisiona o debate aos extremos. Com toda a franqueza, a decisão tomada pelo partido tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país”, afirmou.
Em carta aberta divulgada mais cedo, deputados federais e estaduais do PSD no Rio Grande do Sul manifestaram apoio à posição de Leite. O grupo afirma reconhecer no governador um “líder preparado para desafios ainda maiores” e que ele reuniria condições para representar “um caminho de centro, moderado, reformista e comprometido com o desenvolvimento de todas as regiões”.
“Independentemente das decisões partidárias tomadas na instância nacional, declaramos que nossa unidade permanece inabalável. Estamos juntos com Eduardo Leite. A confiança que depositamos em sua liderança não se condiciona a cargos, siglas ou convenções”, dizem.
Também cotado até este mês entre os presidenciáveis pelo partido, o governador do Paraná, Ratinho Júnior, por sua vez, apoiou a escolha por Caiado. Ratinho, que desistiu da sua pré-candidatura na semana passada, declarou que a decisão é um “exemplo do compromisso” do partido com a democracia. Também elogiou Caiado por seu trabalho no Goiás nas áreas de educação e segurança.
Caiado está em seu segundo mandato como governador de Goiás. Antes, foi deputado federal por cinco legislaturas e senador. Ele foi um dos primeiros políticos a se colocar como pré-candidato à Presidência para 2026.
No ano passado, lançou sua pré-candidatura pelo União Brasil, partido que integrou de 2022 até o início deste ano. Apesar do movimento, o goiano enfrentou falta de apoio no então partido, onde ainda há resistência quanto ao lançamento de um nome próprio à corrida eleitoral. Deixou o partido em janeiro e se filiou ao PSD no último dia 14.
Na atuação política mais recente, Ronaldo Caiado tem colocado a segurança pública no centro de sua agenda e da sua projeção nacional. O governador se consolidou como uma das principais vozes críticas à PEC da Segurança Pública, proposta do governo federal para reorganizar o sistema de segurança, e também se envolveu na articulação do PL Antifacção, especialmente na tentativa de incluir a equiparação de facções criminosas a organizações terroristas.
É a segunda vez que Ronaldo Caiado tenta subir a rampa do Palácio do Planalto. Ele disputou a eleição presidencial em 1989, a primeira após a redemocratização. Sua candidatura foi lançada pelo antigo PSD – partido com o mesmo nome da sua legenda atual que foi dissolvido em 2003 após a fusão com o PTB. Caiado terminou o pleito com um resultado pouco expressivo, com 0,72% dos votos, e no segundo turno declarou apoio a Fernando Collor contra Lula.
Naquele momento, os dois protagonizaram embates diretos: em um dos episódios mais lembrados, Lula afirmou que só faria perguntas a Caiado em debate quando ele atingisse 1,5% nas pesquisas. De volta ao cenário presidencial, Caiado considera a disputa de 2026 como uma “revanche” política, na tentativa de se consolidar como um dos principais nomes da oposição ao petista.
A entrada de Caiado na política está ligada a seu vínculo com o setor produtivo. Em 1985, ele fez parte da União Democrática Ruralista (UDR). Como uma das principais lideranças da entidade, o político ganhou projeção nacional ao vocalizar a resistência de grandes proprietários rurais a tentativas de avanço da agenda de reforma agrária impulsionada por movimentos sociais e por setores da esquerda.
Em um dos primeiros grandes episódios da sua vida política, ele liderou, em 1987, uma manifestação que reuniu cerca de 40 mil ruralistas de 18 estados em Brasília com o slogan de “defesa da propriedade”. Nesse cenário, o goiano se consolidou como um dos principais representantes do campo conservador e mais à direita no espectro político à época. Em 1989, aos 39 anos, Caiado se licenciou na presidência da UDR para a sua candidatura à presidência.
Depois da eleição, Caiado migrou de vez para a política institucional e foi eleito deputado federal por Goiás em 1990, iniciando uma longa trajetória na Câmara. Ao longo de cinco mandatos, foi voz constante da oposição a governos de esquerda e uma das principais referências da bancada ruralista no Congresso. Passou a maior parte desse período filiado ao PFL e, posteriormente, Democratas .
Em 2014, foi eleito senador. À época filiado ao Democratas (DEM), partido que posteriormente se fundiria ao PSL para formar o União Brasil, Caiado também dialogou com diferentes correntes da direita, incluindo o bolsonarismo.
A relação com o bolsonarismo foi marcada por aproximações e rupturas. Em 2018, Caiado apoiou Jair Bolsonaro e surfou a onda conservadora que marcou aquela eleição para se eleger governador de Goiás ainda no primeiro turno. Já no comando do estado, buscou construir uma imagem de gestor técnico, com foco em equilíbrio fiscal e políticas de segurança pública. O distanciamento em relação a Bolsonaro se tornou maior durante a pandemia de Covid-19, quando Caiado adotou medidas sanitárias mais rígidas e fez críticas à condução federal da crise.
Depois dos atos de 8 de janeiro de 2023, o governador condenou publicamente as invasões e reafirmou o compromisso com o Estado Democrático de Direito, mas passou a recalibrar sua estratégia. Desde o ano passado, intensificando acenos ao eleitorado conservador que orbitou o bolsonarismo, tem defendido publicamente a concessão de uma anistia ampla para o ex-presidente e os condenados pelo episódio.
Natural de Anápolis, Caiado descende de uma família tradicional goiana, com presença política e influência no agronegócio na região desde o século 19. Ele é neto de Antônio Ramos Caiado, conhecido como Totó Caiado, deputado federal e senador por Goiás. O avô do governador também foi interventor federal do estado na Primeira República.
Ele é ainda primo de Leonino Di Ramos Caiado, que governou o estado na década de 1970 e também foi prefeito da capital Goiânia, e sobrinho de Emival Ramos Caiado, deputado federal e senador durante a época da ditadura.
Outros dois antepassados de Caiado já comandaram o estado. O primeiro foi o seu trisavô, Antônio José Caiado, que presidiu a então província de Goiás em três ocasiões entre 1883 e 1895. O estado também foi governado por Brasil Ramos Caiado, irmão de seu avô Totó, entre 1925 e 1929.
O político é médico formado pela Escola de Medicina e Cirurgia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Tem especialização em ortopedia e traumatologia.