Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124
Physical Address
304 North Cardinal St.
Dorchester Center, MA 02124


Alguém será capaz de desbancar Flávio Bolsonaro (PL) como candidato da direita no segundo turno da próxima eleição presidencial? Os voos-solo de PSD e Novo para o Planalto indicam que o status do filho 01 de principal adversário de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no pleito de outubro não é consenso nem mesmo à direita.
Nesta semana, o ainda governador do Paraná, Ratinho Júnior, deve ser anunciado candidato ao Planalto pelo PSD de Gilberto Kassab, tido como o rei Midas da articulação política nacional. Já Romeu Zema, que renunciou ao Governo de Minas Gerais no último domingo (22), parece ter abandonado por ora a ambição de ser vice de Flávio para se vender como o outsider que parte do eleitorado ainda tem esperança de encontrar em meio à polarização entre centro-esquerda e extrema direita que prevalece nas eleições nacionais desde 2018.
Pesquisas de opinião pública sugerem que o eleitor estaria cansado do embate encabeçado hoje pela oposição entre PT e PL — ou, numa versão mais personalista, entre lulistas e bolsonaristas. Para além de eventuais vieses que não ficam evidentes nas respostas dos entrevistados, tal cansaço vira miragem se considerarmos que em 2018 e 2022 havia opções à direita para além de Jair Bolsonaro.
Ademais, a ideia de que se vota na extrema direita devido à falta de alternativa melhor para bloquear Lula e/ou o candidato por ele apoiado não resiste ao exame dos fatos aplicado às eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014, em que o eleitor antipetista preferiu o candidato do PSDB, mas optou por uma guinada à direita desde então, seja pela identificação com pautas extremistas, seja pela sensação de que todo o sistema está podre, conjuntura ressuscitada pelo caso Banco Master.
Em 2018, ninguém mais ninguém menos que o atual vice-presidente Geraldo Alckmin foi o candidato do PSDB. Não foi ele que foi para a esquerda: foi a sua excelência, o eleitor médio, que se deslocou para a direita. Nesse sentido, Zema e o Novo — que já demonstrou ser linha auxiliar do bolsonarismo inclusive em votações no Congresso — saem na frente para roubar votos que, hoje, parecem ir para Flávio quase que por gravidade.
Mais que Ratinho Júnior, Zema ainda pode se vender como outsider, mesmo após quase oito anos à frente do governo mineiro. Isso porque ele é empresário, adquirindo, portanto, proximidade com milhares de brasileiros que, com lastro ou sem, compraram o discurso de que são empreendedores explorados por um Estado parasitário.
Para as elites e a nação, Zema seria assaz perigoso no campo das relações exteriores, em que, conforme explicado na coluna anterior, defende que o Brasil deve ser um Estado-cliente, uma ideia nada conveniente ainda mais considerando que os EUA de Trump viraram um animal perigoso.
No contexto dos assuntos de Estado é que Ratinho Júnior adquire maior vantagem. Diferentemente de Zema, ele parece aberto a aceitar a institucionalidade de defesa da soberania encarnada pelo Itamaraty em vez de fazer alinhamento automático com o movimento MAGA de Trump e afins.
Ademais, se, por um lado, ele jamais poderia se vender como antiestablishment pertencendo ao partido de Kassab e sendo um político profissional, por outro tem maior potencial de crescimento. O PSD tem perfil centrista e o governador do Paraná tem bom desempenho nas simulações contra Lula, que na visão de pouco mais da metade do eleitorado, segundo o Paraná Pesquisas, não merece um segundo mandato.
Assim, considerando que, quando a campanha esquentar de fato, as contradições de Flávio serão expostas — em particular sua vinculação a milícias —, Ratinho Júnior terá um universo a explorar, atraindo votos dos que dizem votar na extrema direita por falta de opção contra Lula e o PT, assim como de centristas que criticam a atualidade do lulismo na conjuntura atual. Seu pai, o apresentador Ratinho, pode lhe servir como um poderoso cabo eleitoral, inclusive entre mulheres pobres, que hoje tendem a votar predominantemente em Lula.
De fato, para o público em geral, parece ser um equilíbrio interessante aceitar um discurso linha-dura na segurança sem submissão a Trump e com defesa do que seria uma economia mais liberal e um Estado menos corrupto. Não somente pela jovialidade — Ratinho Júnior completa 45 anos neste ano —, mas pela experiência de governador do Paraná por dois mandatos consecutivos, a chapa do PSD tende a assombrar Flávio e o bolsonarismo mais que Zema.
Está nas mãos do eleitor e da eleitora mostrar diante desse cenário bastante plausível de que parte da direita flerta, sim, com o bolsonarismo sem, porém, dividir a cama com a extrema direita. Prevalecendo o projeto 01 de Jair, no entanto, teremos a prova de que é o eleitorado que se radicalizou e trocou alianças com o reacionarismo que ameaça no curto prazo a democracia e, no longo, a existência do Brasil como Estado soberano e nação.