Venda de creatina dispara após descoberta de benefícios para o cérebro

O crescimento nas vendas e na diversificação do público consumidor indica que a creatina ultrapassou definitivamente os limites do universo esportivo

No Brasil, a indústria que gira em torno do universo fitness e do bem-estar não para de crescer. Na última década, para se ter noção, o número de academias simplesmente triplicou, criando um setor responsável por impulsionar cerca de R$ 8 bilhões por ano. O fitness, além de tornar-se um setor promissor em termos de investimento, no âmbito social, também tornou-se um estilo de vida.

Este movimento espalha-se para além das academias de musculação, pilates, treino funcional e boxes de crossfit. No processo de crescimento, o setor de suplementos passou a ter ainda mais destaque.

Conforme cálculo estimativo realizado pela Associação Brasileira de Suplementos Alimentares (Brasnutri), o Brasil é o terceiro país no ranking global dos que mais consomem suplementos alimentares, perdendo somente para os Estados Unidos e a Austrália. Nesse processo, dentre o amplo leque de possibilidades suplementares, a creatina passou a ocupar lugar de destaque.

Nas farmácias brasileiras, de acordo com os dados da consultoria Close-Up International, o comércio de creatina cresceu 67%, considerando os últimos cinco anos, o que representa um aumento de 92% no que diz respeito ao faturamento do segmento na sua totalidade. Não é à toa que a busca pelo termo “creatina” conseguiu superar as pesquisas sobre “whey protein” no Google.

Mas quais são os benefícios científicos da creatina?

Historicamente, a creatina é estudada há muito tempo. Na década de 1970, o professor Roger Harris (1944-2024), da Universidade de Aberystwyth, no País de Gales, descobriu os benefícios da suplementação de creatina. A partir de então, muitas são as pesquisas que relacionam a substância à melhora das funções físicas.

No entanto, nas últimas duas décadas especialmente, os estudos passaram a mostrar outros possíveis benefícios do uso da creatina. Em síntese, a creatina é uma substância produzida naturalmente pelo corpo e também encontrada em alimentos, como carne e peixe. Ela é armazenada nos músculos e usada como fonte rápida de energia durante atividades intensas.

Atualmente, existem, também, estudos que estabelecem conexão do uso da creatina com a melhora das funções cognitivas das pessoas, a interrupção do crescimento de tumores em estudos com animais e a redução dos sintomas da menopausa.

Um estudo recente, feito com 25 mil pessoas, mostrou que, entre os participantes com 52 anos ou mais, aqueles que consumiram maiores quantidades de creatina na dieta apresentaram menor risco de câncer. A cada 0,09 g adicional da substância (equivalente à ingestão média de dois dias), observou-se uma redução de 14% de risco. Por conseguinte, existem indícios de que a creatina pode favorecer também a saúde mental.

Em um estudo, os pacientes com depressão receberam o suplemento em pó junto da terapia cognitivo-comportamental. Após oito semanas, os sintomas destes pacientes melhoraram mais do que os daqueles que fizeram apenas a terapia. A creatina também pode ser benéfica em quadros crônicos.

No ano de 2023, o pesquisador Sergej Ostojic e sua equipe da Universidade de Novi Sad, na Sérvia, investigaram os efeitos da creatina em 19 pacientes com Covid-19 longa. Metade recebeu 4 g diários do suplemento; a outra metade, placebo. Os resultados indicaram que, depois de seis meses, aqueles que usaram creatina melhoraram dos sintomas significativamente, recuperando até mesmo a concentração.

Todavia, os níveis mais baixos de creatina no corpo foram identificados justamente naqueles pacientes com quadros mais graves da doença, e a creatina pura se consolidou como uma das formas mais recomendadas de suplementação, por esboçar nos ensaios alto nível de benefícios para o usuário.

Hoje, os estudos debruçam-se sobre os impactos deste suplemento ao longo de toda a vida. No fim, com o respaldo da ciência, a creatina passa a ocupar um novo espaço no mercado: o da saúde cerebral e da longevidade, reforçando a tendência de que, no futuro, os suplementos nutricionais serão cada vez mais valorizados.

Lucas Carvalho
Lucas Carvalho

Historiador, pesquisador e professor. Agora minerando dados e trabalhando com notícias no meio jurídico. Paixão por História, astronomia, línguas e Tecnologia.

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