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O livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari, tornou-se um fenômeno global. Desde o seu lançamento, a obra é presença garantida em listas de mais vendidos e cabeceiras de líderes mundiais. No entanto, enquanto o público em geral abraça a narrativa envolvente de Harari, uma pergunta ecoa nos corredores das universidades: o que os especialistas realmente pensam sobre o livro?
Muitos historiadores e cientistas veem Sapiens como uma visão panorâmica fascinante, mas criticam o autor por simplificar excessivamente pesquisas complexas, selecionar evidências de forma tendenciosa e, por vezes, apresentar especulações como fatos estabelecidos.
O maior trunfo de Harari é também sua maior crítica. Especialistas afirmam que ele prioriza uma narrativa cativante em detrimento de dados brutos ou interpretações alternativas. Em áreas como a psicologia evolutiva e a pré-história, o autor frequentemente transforma ideias especulativas em verdades absolutas.
Críticos apontam que falta ao livro um rigoroso sistema de fontes, resultando em uma “ciência populista” que achata debates complexos para manter o ritmo da leitura. Para o leitor leigo, isso pode criar a falsa impressão de que certas teorias são consensos acadêmicos, quando na verdade ainda são amplamente discutidas.
Um dos pilares de Sapiens é a ideia de que a modernidade cognitiva humana surgiu como uma “revolução” súbita há cerca de 70 mil anos. Harari descreve isso quase como uma “mutação milagrosa” que nos permitiu cooperar em grandes grupos.
Contudo, a paleoantropologia moderna discorda dessa visão de “salto da noite para o dia”. Evidências atuais em genética e no registro fóssil sugerem que a complexidade comportamental e cognitiva evoluiu gradualmente ao longo de centenas de milhares de anos. Ao ignorar as incertezas desse registro, o livro apresenta uma linha do tempo contestada como se fosse um fato consumado.
Harari polemiza ao chamar a Revolução Agrícola de “a maior fraude da história”, sugerindo que os agricultores eram universalmente menos felizes e saudáveis do que os caçadores-coletores.
Embora seja verdade que os primeiros agricultores enfrentaram novas doenças e maior carga de trabalho, especialistas dizem que a visão de Harari é “preto no branco” demais. Ele ignora as variações regionais e as vantagens demográficas de longo prazo que tornaram a agricultura uma adaptação de sucesso para a espécie. Além disso, historiadores do bem-estar argumentam que é impossível medir a “felicidade subjetiva” na pré-história com a certeza que o autor sugere.
Outro ponto central do livro é o conceito de “ficções compartilhadas”. Harari afirma que deuses, nações e até direitos humanos existem apenas na imaginação humana.
Embora essa seja uma descrição sociológica interessante, filósofos notam que o autor dá um salto metafísico perigoso ao concluir que, por dependerem da crença humana, essas coisas são “nada além de ficções”. Antropólogos também criticam sua visão linear da religião (animismo → politeísmo → monoteísmo), que ignora a enorme diversidade e os caminhos não lineares do desenvolvimento religioso em diferentes culturas.
Apesar das críticas, Sapiens não perde o seu valor como uma obra de reflexão social. O segredo para aproveitar a leitura é mudar a perspectiva:
No fim das contas, Sapiens é um excelente ponto de partida para curiosos, desde que o leitor mantenha o espírito crítico e entenda que a história da nossa espécie é muito mais complexa e cheia de nuances do que uma única obra pode conter.