Quem tem medo de Erika Hilton?

Quem tem medo do gênero? é o título de um livro de Judith Butler, em que ela analisa o cenário político mundial e a criação fantasiosa da ideologia de gênero. Fizemos um pastiche usando o mesmo título, porque é a categoria gênero que está em questão, mas queremos falar de uma pessoa específica e de um fato recente ocorrido no Brasil: a eleição da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados

Todo o espectro político, seja no campo conservador, seja no campo progressista, de parlamentares a movimentos sociais, passando por pesquisadoras e jornalistas, todos que usam os pronomes elas ou eles têm medo da deputada Erika Hilton.

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Vamos trilhar este texto por uma via que tem sido interditada no debate político pelo medo do bolsonarismo: a via da autocrítica. Tentando contornar as barreiras da realpolitik, é preciso retomar as posições do governo em relação ao debate de gênero, insistir na responsabilidade do Congresso Nacional na garantia da isonomia de gênero e repensar a postura de mulheres que defendem os direitos das mulheres desde a teoria até os movimentos sociais.

Vamos começar colocando as cadeiras em seus devidos lugares. A Comissão da Mulher é um espaço de baixa relevância nos equilíbrios políticos da Câmara dos Deputados, assim, o esperado seria que os ruídos da eleição seguissem a mesma tendência. O que vimos fica entre o esperado e a surpresa: a formação de uma arena de ataques múltiplos que mobilizaram a pergunta sobre quem conta como mulher, quem pode ter poder, quais são as palavras autorizadas no debate público, quem pode discordar de quem. Tudo isso porque a deputada Erika Hilton é uma travesti negra.

Estaríamos muito contentes se a representatividade política de mulheres fosse uma dimensão da democracia em relação à qual representantes e representados estivessem, genuinamente, preocupados nas últimas semanas. Também estaríamos atentas se a qualidade do trabalho das pessoas eleitas para presidir a Comissão da Mulher estivesse sob controle social.

A teoria da representação política é um tema clássico na ciência política, não há nada de disruptivo e inovador em discuti-la inclusive quando se trata da representação de quem tem baixo poder político. Há poucos dias, vale o registro, faleceu Jürgen Habermas, um filósofo que pensou muito sobre legitimidade política e direitos. Importantes feministas do campo da filosofia e da teoria política travaram debates difíceis com Habermas sobre a representação política das diferenças.

Porém, não estamos contentes ou alertas, porque nada disso é verdade. A verdade é sobre uma deputada travesti atacada da direita à esquerda, transformada em bode expiatório por todos e todas que têm medo do gênero. Esse medo, como é próprio dessa emoção, foi camuflado na disputa pela presidência da Comissão da Mulher. Mas o que está camuflado não deixa de existir, então, se não podemos ver, podemos nos afinar e ouvir. Com atenção, o que escutamos é apenas o som ambiente. 

O som ambiente é o som uniforme, que está presente, mas não para ser realmente escutado, é um som com uma finalidade específica: compor um ambiente, sem se destacar. Quem grita, quem sobe o tom, atrapalha essa atmosfera, estraga o clima e entrega o plano. No caso, o plano de camuflar o medo do gênero. Esse medo faz o campo progressista tapar os ouvidos quando a situação é avaliada como embaraçosa. 

Porém, quem rompe o que está posto não pode apenas sussurrar. A deputada Erika Hilton e as mulheres negras e/ou mulheres trans são submetidas a níveis mais intensos de vigilância e julgamento sobre sua postura pública, principalmente quando rompem o som ambiente. O xingamento de imbeCIS ou cadelas incomodou algumas pessoas, mas esse incômodo não pode ser descontextualizado porque seu sentido depende da forma como a polidez na linguagem tem sido articulada politicamente. 

Há estudos importantes que sustentam que a impolidez na linguagem (veiculada na internet, por exemplo) tem sido uma estratégia da extrema direita exatamente contra as mulheres e a população LGBT. Apontam, inclusive, que essa é uma das formas de erosão da democracia. Mas o que Hilton fez ao mobilizar a linguagem impolida foi o exato oposto disso. Sejamos honestas, a linguagem incomodou, mas isso é camuflagem, não são os adjetivos que incomodam, mas o sujeito do discurso.

Como bode expiatório, Erika Hilton foi acusada em duas chaves diferentes que merecem ser mencionadas: o voto contrário que proferiu em relação ao aumento da pena para o crime de feminicídio, e a repetitiva acusação de que Érika seria “agressiva”, “radical” ou “conflituosa”. Jornais publicaram artigos de opinião que avaliavam o comportamento da deputada como raivosa e intolerante. Ela foi inclusive comparada a Jair Bolsonaro por ter usado a palavra cadelas.

Mulheres podem (deveriam, inclusive) ser antipunitivistas. Como falamos no último texto, há uma permissão de conservação que a sociedade fornece aos homens para que mantenham as mulheres em posição de subordinação. Essa permissão social não acaba com mais tempo de prisão para os feminicidas ou agressores. Sabemos que a punição não é nada além de punição, portanto, inútil para qualquer possibilidade de lidar com o devir.

Mulheres cis, pessoas feministas, movimento social podem se posicionar contra o punitivismo, criminólogas podem explicar sua função, gestoras públicas podem contra-argumentar, é assim que se faz política. Esse episódio foi transformado em prova de falta de representatividade política de Hilton e isso é uma acusação muito séria para qualquer membro do poder legislativo. 

Já o enquadramento de Hilton como uma figura “agressiva”, “radical” ou “conflituosa” segue outro padrão conhecido na política: mulheres que exercem autoridade ou expressam posições firmes são frequentemente retratadas como descontroladas, exageradas, deselegantes e inapropriadas. As pessoas negras também. Essa imagem não é apenas uma reprodução de estereótipos, ela flerta com os crimes de discriminação: racismo, transfobia e, quem sabe  existirá, a misoginia.

A extrema direita, em outra via, articula seu medo da Deputada de forma abertamente transfóbica, mas a esquerda eleita também tem medo do gênero, embora camufle seu pânico em frases feitas e no silêncio conveniente. Há mulheres que também têm medo do gênero, mas, acionando o patriarcado (a opressão fruto da divisão sexual do trabalho e da exclusão da esfera pública) contra o gênero (o que há são processos sociais, um corpo é só um corpo até que alguém diga que é de mulher ou de homem). 

Ao insistir que a experiência da mulher não é a mesma que a experiência das mulheres transsexuais e travestis, as feministas radicais e os homens de esquerda estão dizendo que o patriarcado impõe às mulheres uma opressão específica que só mulheres cis podem mobilizar politicamente e experienciar pessoalmente. Com isso, as mulheres fora do marco da heteronormatividade têm direitos humanos, mas não os direitos das mulheres. Como discutimos isso sem medo? Debatendo gênero e não só patriarcado.

Ao compreender que o patriarcado é uma estrutura machista que oprime mulheres cis,, os homens progressistas e as feministas radicais estão recusando a existência da categoria gênero. É evidente que não fazem isso da mesma forma violenta e desumanizadora que a extrema direita faz, mas isso não os torna menos responsáveis pela ausência de políticas públicas, ideias, teorizações e relações humanas baseadas na isonomia de gênero.

Estamos propondo uma redução do debate, dirão algumas. Outras dirão que estamos reduzindo a importância da história de violência contra as mulheres. Em nossa defesa, já adiantamos a resposta: estamos ampliando o debate porque leis não têm donas. As mulheres cis não são senhoras do crime de feminicídio. Normas jurídicas se fazem em aplicação e esse é um processo incessante e aberto.

O medo do gênero é reforçado quando entendemos que a subordinação das mulheres apontada pela crítica ao patriarcado é uma experiência que pode ser atribuída de forma exclusiva ao que vivem as mulheres com útero. De forma camuflada, esse medo do outro também penetra socialmente e termina reforçando a fantasia de que existe algo como uma ideologia de gênero.

Precisamos exercitar nossa capacidade de proteger as diversas formas de ser, de viver a sexualidade, de ter prazer, de participar da reprodução humana e de criar educação sexual. Temos que exercitar nossas emoções nas artes, nas ruas, na vida pública contra a fantasia da ideologia de gênero.

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A categoria gênero propõe-se a “desconstruir a materialidade dos corpos” e incluir – o que foi considerado ininteligível e destinado ao extermínio – também no campo dos direitos. Podemos passar dias e noites discutindo sobre como vamos diluir o essencialismo e o identitarismo e recolocar-nos como feministas entre nós mesmas e para o mundo, mas façamos isso sem criar bodes expiatórios e sem medo.

Vida longa ao mandato de Erika Hilton.

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