Lógica do Estado-cliente embasa política externa de Flávio Bolsonaro

Empatado tecnicamente com Lula inclusive em simulações de segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem chances razoáveis de se tornar o próximo presidente da República. Gostemos ou não desse fato, parece-me hora de fazer um exercício de análise de conjuntura e identificar como seria a política externa brasileira sob comando do 01. Traçar cenários é fundamental para mitigar danos e não resvalar em previsões eivadas de ideologia.

Para a esquerda, é fácil caracterizar Flávio como alguém disposto a vender a pátria, embora tal como o pai Jair ele possa ser constrangido pelas demandas do setor produtivo, o que ficou claro quando o capitão desistiu de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém para não provocar os países árabes e muçulmanos — grande mercado para o agro brasileiro.

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De fato, considerando seus posicionamentos sobre as relações internacionais do Brasil, o senador-candidato parece abraçar a Doutrina Zema, uma referência ao governador de Minas Gerais, que vem sendo cotado como candidato a vice na chapa bolsonarista.

Trata-se da defesa de que o Brasil vire literalmente um Estado-cliente de Washington, tal como a principal liderança do Partido Novo argumentou à época do tarifaço imposto ao Brasil por conta do julgamento de Bolsonaro pai, em julho passado, graças às articulações promovidas pelo filho 03, Eduardo, vulgo bananinha.

“O Brasil começou a afrontar seus clientes. Você não pode tratar mal quem compra seus produtos”, comentou Zema em 11 de julho, em referência à postura do governo Lula de não ceder às pressões da Casa Branca de Donald Trump, que imaginou poder socorrer Jair, o principal aliado do supremacismo branco-cristão ao sul do Equador.

Num trocadilho nada engraçado com o prenome de seu autor, a Doutrina Zema faz do Brasil um Romeu que se suicida politicamente no cenário global enquanto sua Julieta — no caso os Estados Unidos sob Trump — se faz de morta, mas ainda tem capacidade para respirar não obstante os erros de uma política externa que minou o multilateralismo, principal mecanismo de manutenção da hegemonia americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Não espere que o Itamaraty coloque cabresto no filho se não foi capaz de controlar o pai. No fim, como certa vez me confidenciou um diplomata que entrevistei há mais de dez anos para minha tese de doutorado, diplomatas são soldados sem farda. Alguma resistência silenciosa pode ser articulada, mas seu sucesso tende a ser mais limitado que durante os estertores do governo de Jair, quando a extrema direita global dava mostras de enfraquecimento após Trump ter perdido sua primeira campanha de reeleição para Joe Biden em 2020.

O liberalismo de zap de Flávio, Zema e companhia ignora que o capitalismo que eles tanto dizem defender não existe sem o sistema de Estados-nação, que competem entre si por meio de empresas e mercados consumidores compostos por cidadãos que, porém, expressam não apenas necessidades materiais, mas também tendem a assumir a identidade nacional da unidade soberana que habitam. A alternativa é ser uma colônia, seja por meio de uma relação de controle político direto, seja pela instalação de um governo fantoche, papel que a extrema direita anseia por exercer.

É necessário reconhecer aqui o argumento de que o Brasil já vive uma realidade neocolonial considerando o elevado grau de dependência da China em suas relações econômicas internacionais. Do mesmo modo que seria desonestidade intelectual ignorar esse ponto de vista, parece-me equivocado dizer que a esquerda, seja no atual governo ou em administrações anteriores, nos colocou de joelhos perante Pequim. Sequer aderimos à Belt and Road Initiative, rede coordenada pelos chineses para investimentos em infraestrutura que conta com a participação de 150 países.

Já o bolsonarismo, em sua primeira (e espero última) passagem pelo Planalto, colocou-se em clara relação assimétrica com Trump, aceitando a abertura de nosso mercado de trigo para produtores dos EUA sem contrapartidas imediatas. O tão prometido apoio à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) jamais se confirmou de fato.

De volta à Casa Branca no modo vingança total, Trump agora exige que o Brasil receba presos de outras nacionalidades e impõe que tratemos facções criminosas como grupos terroristas sob o claro pretexto de intervir politicamente em nosso território. Flávio já demonstrou anuência a isso quando pediu em outubro passado que os EUA bombardeassem traficantes na Baía de Guanabara.

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Claro que o Brasil está atrasado em produzir uma articulação entre nações sul-americanas para combater as facções criminosas. A solução, no entanto, passa longe da Doutrina Zema, no fundo um desdobramento do messianismo que pode ver a salvação em Jair Messias, mas considera Trump e tudo que vem dos EUA sob a extrema direita como manifestação de Deus Pai e seu espírito nada santo.

As elites do país, em particular a econômica, que constitui uma burguesia nacional amparada desde sempre pelo Estado, vão dizer amém a esse descalabro? Para além do ódio a Lula e à esquerda, os detentores de interesses vinculados a corporações nacionais e à busca por explorar o mercado interno deveriam refletir acerca de seu apoio ao 01. Como diz o ditado, quando a cabeça não pensa, o corpo padece.

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