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A guerra iniciada por Donald Trump a partir de ataques ao Irã, em parceria com Israel, trouxe ao cenário eleitoral brasileiro um risco que não estava na mira do governo — ao menos não nessa magnitude, segundo admitiu um interlocutor. Uma alta significativa e persistente na cotação do petróleo pode pressionar a inflação e afetar a política monetária do Banco Central (BC), justamente num momento político sensível, em que a campanha ganha tração.
O impacto será maior a depender da extensão e da duração do conflito. No curto prazo, em princípio, não haveria efeito relevante. Entende-se por curto prazo, segundo fontes ouvidas pelo JOTA, um período de quatro a cinco semanas — horizonte ao qual o próprio Trump se referiu como prazo possível, embora já não descarte um cenário mais prolongado.
Se a situação degringolar, o mundo tem como encontrar rotas alternativas para cerca da metade do volume de petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz. Mas apenas metade. A alternativa se daria por oleodutos construídos pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) — infraestruturas, contudo, sensíveis a ataques em contexto de guerra. Pelo estreito, sob risco de fechamento e já afetado pelo congestionamento de 150 petroleiros, passam 18 milhões de barris por dia. Pelo oleoduto saudita, 7 milhões diários, com saída pelo Mar Vermelho. Pelos Emirados, 1,5 milhão.
Para o Brasil, a alta do petróleo também impacta diretamente os ganhos da Petrobras com exportações — principal item da pauta comercial do país. Dos cerca de 1,7 milhão de barris exportados diariamente, aproximadamente 1,4 milhão são da estatal. O país, porém, importa diesel e gasolina, o que afeta diretamente os preços internos. Além disso, importa petróleo leve para compor o mix nas refinarias, com reflexos sobre unidades como a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), produtora de lubrificantes.
Ainda é cedo para saber se a Petrobras repassará os aumentos ao consumidor. No governo de Jair Bolsonaro houve momentos de tensão internacional em que a estatal não repassou os reajustes. Esse será um dos principais pontos de incerteza. Caso opte por não repassar, o impacto tende a recair mais sobre investidores do que sobre a economia no curto prazo. Ainda assim, o diesel e a gasolina são variáveis sensíveis, por serem preços diretamente percebidos pelo consumidor.
Por outro lado, Lula ganha uma justificativa política em caso de turbulência, já que pode atribuir eventuais pressões à guerra. Mas essa narrativa tem limite: o eleitor percebe o preço na bomba com muito mais facilidade do que indicadores como inflação ou PIB.
Todos os países são afetados, direta ou indiretamente, assim como as cadeias globais de suprimento — inclusive os Estados Unidos. O Brasil se aproxima de uma eleição presidencial, mas Trump também enfrentará eleições de meio de mandato.
Segundo interlocutores ouvidos pelo JOTA, uma guerra prolongada teria duplo efeito negativo para a Casa Branca: o custo humano de uma guerra que poderia não ter sido iniciada e a necessidade de explicar a alta do petróleo. Embora os EUA produzam 13,5 milhões dos 20,5 milhões de barris que consomem diariamente, ainda importam cerca de 7 milhões de barris por dia.
Os ataques iranianos a instalações de energia no Oriente Médio já provocaram a maior alta nos preços do gás natural desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. A Qatar Energy, maior empresa de gás natural liquefeito do mundo, foi alvo de drones iranianos e interrompeu a produção, provocando alta de até 50% nos preços nos mercados europeu e asiático. A Arábia Saudita também suspendeu a produção em uma grande refinaria.
Fontes diplomáticas avaliam que o Irã buscará impor custos aos EUA, o que pode significar um conflito mais disseminado — inclusive com mortes de americanos — e sem prazo definido para terminar.