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O governo federal vai focar seu pacote de medidas contra o endividamento da população em três modalidades consideradas mais onerosas, conforme apurou o JOTA: cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado. A diretriz principal é reduzir taxas e conceder desconto em dívidas já existentes.
As ideias já foram apresentadas ao presidente Lula, mas interlocutores ressaltam que ainda não há decisão final sobre o formato das ações. A amplitude das medidas discutidas – que incluem possível aporte do Tesouro Nacional, uso do FGTS, ampliação de programas existentes e até alertas ao consumidor – dependerá de uma análise do montante de recursos disponíveis.
Para as pessoas físicas, as medidas vão focar na baixa renda; para as pessoas jurídicas, haverá uma flexibilização das regras dos programas que usam recursos de fundos públicos. Neste texto, listamos o que há de mais recente nas discussões.
A equipe econômica parte da premissa de que a forte expansão do acesso ao sistema financeiro nos últimos anos – impulsionada por mudanças regulatórias desde a década passada e acelerada durante a pandemia, com a concessão do Auxílio Emergencial e a bancarização em massa da população – levou milhões de brasileiros a ingressar no mercado de crédito formal. Esse movimento, embora positivo, foi acompanhado por uma oferta crescente de crédito caro, sobretudo por parte de instituições não bancárias.
Segundo integrantes do governo, parte relevante da população de baixa renda, especialmente com ganhos de três a cinco salários mínimos, passou a contratar crédito sem conhecimento adequado ou em condições desfavoráveis, o que resultou em alto comprometimento da renda. Em alguns casos, as taxas do crédito pessoal variam entre 6% e 10% ao mês, podendo ser ainda maiores no cartão de crédito e no cheque especial.
A avaliação é de que houve uma migração de formas informais de crédito – antes, em grande parte, no formato de empréstimos entre pessoas (concedidos por pequenos comerciantes ou até por agiotas) – para o sistema financeiro formal. Mas essa mudança aconteceu sem o devido controle ou educação financeira. Isso teria contribuído para o avanço do chamado superendividamento, mesmo em um contexto de melhora do emprego e da renda.
A principal diretriz das medidas em estudo é permitir que esses endividados de baixa renda substituam dívidas mais caras por outras com juros menores ou consigam quitá-las com desconto. A ideia é manter o tomador no sistema financeiro, mas em condições mais sustentáveis.
Os interlocutores ressaltam que as medidas ainda estão em discussão e, por isso, podem ser modificadas ou, em parte, não serem adotadas até a decisão final a ser tomada pelo presidente Lula.
Para solucionar o problema, o governo trabalha com as seguintes premissas operacionais:
O uso do FGTS no programa de negociação de dívidas está em estudo, mas traz um dilema ao governo – que tenta desenhar a modalidade de modo que o saldo não seja zerado pelo saque.
Assim, existem duas possibilidades: uma trava baseada em qual percentual do fundo pode ser utilizado para este fim, e um teto de valor da dívida. Há preocupação de que o uso sem travas do FGTS esgote recursos que poderiam ser utilizados para outras finalidades, como o crédito imobiliário, o que poderia prejudicar outros programas do governo, como o Minha Casa Minha Vida.
Além do uso do FGTS, o governo estuda outros ajustes no crédito consignado, que tem registrado taxas médias de 3% a 4% ao mês.
No escopo das medidas voltadas para pessoas jurídicas, o governo avalia estender o socorro financeiro para médias empresas com faturamento de até R$ 300 milhões, englobando-as nas ações que também atenderão microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas empresas.
A ideia analisa o Programa Emergencial de Acesso a Crédito (PEAC), como o JOTA antecipou, e o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte).
O diagnóstico do Ministério da Fazenda aponta que essas empresas até obtêm acesso a esses programas direcionados, em condições favoráveis. Mas o problema ocorre quando precisam de mais recursos do que os oferecidos. Nesses cenários, a demanda por crédito “vaza” dos programas oficiais e as empresas são obrigadas a buscar recursos no mercado tradicional, onde acabam contraindo dívidas com taxas significativamente mais caras.
Para solucionar esse gargalo, a principal medida em estudo é justamente a ampliação dos limites e tetos operacionais dos programas. A intenção da equipe econômica é permitir que montantes atualmente desenquadrados desses limites passem a integrar o escopo dos fundos garantidores, possibilitando a opção por uma dívida mais barata.
Para bancar essa expansão, o governo avalia a utilização de dois instrumentos: o Fundo Garantidor de Operações (FGO), que pode exigir um novo aporte de recursos do Tesouro Nacional, e o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), que a equipe econômica avalia como possivelmente já ter fontes internas suficientes para absorver a demanda sem precisar de dinheiro novo do Estado (embora as análises ainda não sejam conclusivas).
O objetivo do governo, portanto, é dar fôlego a empresas viáveis, que ficaram com a “corda no pescoço” devido aos juros altos, sem injetar dinheiro em negócios que já estão quebrados.
Integrantes do governo têm alertado instituições financeiras e associações de fintechs (como a Febraban e outras) de que a educação financeira será vital. O governo entende que modelos de negócios predatórios –que cobram taxas muito altas de todos para compensar a inadimplência de alguns– podem resultar na responsabilização legal dos próprios bancos caso fique caracterizado, à luz do Direito do Consumidor, que a instituição levou o cliente ao superendividamento intencionalmente.