EUA podem esticar corda e voltar à carga sobre o PIX e big techs

Os Estados Unidos devem voltar à carga sobre o Pix na barganha para obter vantagens na relação bilateral com o Brasil, segundo fontes dos dois países ouvidas pelo JOTA. O poderoso sistema de pagamentos eletrônicos brasileiro, que já foi usado por 80% da população e movimentou R$ 3,3 trilhões até outubro passado, é um dos alvos da investigação sob a seção 301 aberta pelo governo americano, que acusa o Brasil de usar práticas desleais de comércio em segmentos importantes da economia.

O tratamento concedido às big techs americanas é questionado no mesmo processo e deve ser fator de pressão adicional dos EUA. Desde a posse de Donald Trump, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vê justamente nesse item o principal risco de tentativas de ingerência no cenário eleitoral. Segundo um interlocutor do alto escalão do governo, as gigantes da tecnologia vão testar todos os limites nas redes para não deixar que o Brasil vire um “mau exemplo de (forte) regulação” para o resto do mundo.

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Pode não passar de ameaça de negociação. Mas, se resolverem mexer com o Pix, que é uma unanimidade nacional, os americanos também podem impactar a eleição. Este é tema que aglutina, que reforça o discurso da soberania que rendeu popularidade a Lula desde o tarifaço de Trump, em julho passado. Atacar o Pix só reforça a decisão do Palácio do Planalto de dobrar a aposta nesta bandeira, além de criar novo constrangimento à direita para evocar o apoio de Trump. “Aumenta a margem do discurso governista”, reconheceu uma fonte.

Segundo este interlocutor, a investigação em curso entra para o rol dos quatro maiores temas externos com potencial impacto na campanha, para o bem, ou para o mal, entre os quais situação e oposição tentarão se equilibrar. Os outros três seriam o combate ao crime organizado, o antissemitismo e os minerais críticos. Todos já estariam de alguma maneira na agenda de campanha da direita, que começa a ser formatada.

O entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda não acendeu alerta para o risco sobre o Pix. Interlocutores disseram não saber dessa possibilidade e demonstraram temor, se isso ocorrer. Um auxiliar do senador vê como cenário ideal para a campanha petista.

Flávio Bolsonaro conseguiu, pela primeira vez desde que foi anunciado candidato, ultrapassar Lula em pesquisas recentes, ainda que na margem de erro. O feito é levado com cautela por seus aliados, que consideram o tarifaço a pior derrota da direita nos últimos tempos. Eles evitam, a todo custo, que Lula retome a bandeira da soberania.

Quando o presidente anunciou a revogação do visto de Darren Beattie, assessor de Trump, que havia solicitado encontro com o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, auxiliares de Flávio entenderam como uma “casca de banana” para os bolsonaristas incensar reação dos EUA contra o Brasil. Rapidamente, integrantes da pré-campanha ligaram para Eduardo Bolsonaro e pediram cautela no discurso.

Segurança é telhado de vidro para Lula

A segurança pública é vista como o principal telhado de vidro do governo e da esquerda, e, por isso, prioridade da direita. Desde o ano passado, o filho “zero um” de Bolsonaro insiste que os EUA devem classificar o PCC e o CV no Brasil como grupos terroristas, o que está sendo avaliado por Washington. No fim de semana, no Texas, na maior conferência conservadora do mundo, a CPAC, Flávio voltou a bater nesta tecla e acusou Lula de fazer “lobby” para proteger o crime organizado.

Dentro do governo, que tenta convencer os EUA a trabalhar em cooperação a partir de um acordo de combate ao crime organizado, classificar esses grupos como terroristas abre as portas para ações militares americanas em solo brasileiro e a sanções sem precedentes ao sistema financeiro nacional. Este, aliás, já é um dos temas no topo da lista de preocupação das instituições financeiras. Afinal, o escopo das sanções previstas pelos EUA nestes casos é muito mais amplo do que a aplicação da Lei Magnitsky sobre um único indivíduo, como mostrou o JOTA na semana passada.

O próprio Flávio Bolsonaro parece entender o risco. Em declaração ao New York Times, na semana passada, antes do Texas, o senador mostrou-se um pouco mais moderado, ao afirmar não apoiar a interferência estrangeira para resolver os problemas do Brasil com os cartéis de drogas, mas ser “favorável à cooperação internacional” sobre o assunto.

Mas a avaliação geral na sua pré-campanha é que o tema tem apoio da população, como já testaram em pesquisas. A orientação é manter o discurso. Há ainda um entendimento de que, mesmo que isso avance no governo americano, seria depois da campanha. Ou seja: as consequências não seriam medidas no período eleitoral, o que autorizaria o discurso mais populista do candidato neste momento.

O antissemitismo é outra pauta da direita para qual o governo tem tentado se preparar, ao buscar maior aproximação com a comunidade judaica e medir com máxima cautela as palavras usadas para tratar dos conflitos no Oriente Médio. Neste fim de semana, Israel impediu líderes cristãos de celebrarem a missa do Domingo de Ramos em Jerusalém pela 1ª vez em séculos. Depois, voltou atrás. O gesto tem potencial de afetar a percepção de cristãos no Brasil por combinar religião, política e símbolos de grande apelo, na avaliação de alguns especialistas, embora ainda seja cedo para medir o seu impacto.

A direita também incorporou a pauta dos minerais críticos. Há algumas semanas, o governo de Goiás, comandado pelo presidenciável Ronaldo Caiado, firmou Memorando de Entendimento (MoU) com o governo americano que causou incômodo no Planalto, que viu no ato provocação com fins eleitoreiros, já que o documento não teria efeitos legais. No Texas, Flávio Bolsonaro tratou de minerais críticos para atrair a simpatia norte-americana. Disse à plateia de trumpistas que o Brasil é solução para os EUA diminuírem a dependência em relação à China quanto a esses recursos. A declaração foi vista pela base governista como mais munição para o discurso da soberania.

Em 2025, a bandeira empunhada pela direita em prol do tarifaço favoreceu o surgimento de uma coalizão “around the flag” que acabou beneficiando o governo, que admite ter ganho pontos mais pelo erro do adversário do que por acertos próprios.

O erro foi misturar as tarifas, justificadas por argumentos econômicos, como a deterioração da balança comercial, com a questão judicial de Bolsonaro. Ao colocar tudo no mesmo pacote, abriu espaço para uma reação interna e para a politização da defesa nacional. Foi nesse contexto que o discurso da soberania ganhou força e embalou campanhas com mensagens como “o Brasil é dos brasileiros e se escreve com S, de soberania”, “o Pix é nosso, my friend” e “o Pix é do Brasil e dos brasileiros”.

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Proximidade dos EUA pode cobrar seu preço

Daqui por diante, quando o país entra em modo campanha total, os dois lados sabem que erros custam caro e que o peso da proximidade dos EUA pode cobrar seu preço nesta eleição. Os números da última pesquisa Genial/Quaest mostram que 48% têm opinião desfavorável sobre os EUA e 38% favorável. Em outubro de 2023, a opinião desfavorável era perto da metade da atual, 25%, e havia uma maioria de 56% com opinião favorável aos Estados Unidos.

A pesquisa mostra ainda que eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro tenderia a beneficiar mais Lula, com 32% dizendo que isso aumentaria sua chance de voto no atual presidente, contra 28% no senador. Entre independentes, 33% escolheriam um candidato alternativo.

Fonte

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