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A popularização das ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa oferece a possibilidade de utilizá-las em diferentes tarefas do dia a dia, inclusive com relatos de usuários que geram planilhas de treinos de academia. Mas usar esses sistemas como assistentes em áreas relacionadas à saúde requer cuidados.
À primeira vista, parece um caminho facilitado: com muitas IAs podendo ser acessadas sem custo, algumas pessoas veem a oportunidade de personalizar seus treinos diários diretamente com chatbots.
O processo adotado pelos usuários inclui o envio de um prompt com informações como objetivo (emagrecimento ou ganho de massa muscular), características físicas (peso e altura), disponibilidade, local do treino e até mesmo limitações médicas. Mas educadores físicos ouvidos pelo Canaltech apresentam ressalvas a essa prática.
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“O grande risco é acreditar que todo treino gerado por IA está 100% personalizado e adaptado para o aluno. A crença de que esse programa é perfeito muitas vezes leva as pessoas a deixarem de ouvir os sinais que o corpo pode dar. O nosso corpo precisa se adaptar à carga de treino, e cada pessoa responde de forma diferente a uma determinada dose de exercício”, explica educador físico e gerente técnico e corporativo da rede de academias Cia Athletica, Cacá Ferreira.
Um dos principais problemas apontados pelos especialistas é o fato de a IA trabalhar com o que eles definem como “progressões lineares”. Essa evolução sugerida pela tecnologia não leva em conta detalhes como alterações na alimentação, no sono e nos níveis de estresse das pessoas.
“Quando a IA não considera essas variações humanas, o aluno tenta acompanhar um programa que não respeita sua condição real naquele dia. Isso gera compensações, execução inadequada e aumenta muito o risco de lesão, principalmente por excesso de carga e repetição de erros”, destaca o profissional de Educação Física e embaixador da Bluefit, Leandro Twin.
Ele afirma que nem mesmo um prompt detalhado enviado à plataforma de inteligência artificial garante a eficiência e a segurança necessárias para o treino. Os planos de exercícios, segundo ele, exigem avaliação presencial, testes de mobilidade, análise de execução e ajustes constantes.
“O que funciona hoje pode não funcionar na semana seguinte. A resposta do corpo muda. A segurança não está apenas no planejamento, mas na adaptação contínua — e isso ainda depende do olhar humano”, pontua o educador físico.

IAs como ChatGPT e Claude já contam, atualmente, com recursos voltados especialmente à saúde, como o ChatGPT Health e o Claude for Healthcare. As funcionalidades, apesar de apresentarem algumas diferenças, oferecem a possibilidade de acompanhamento contínuo, com o compartilhamento de arquivos por parte dos usuários, como exames e outras informações sobre a saúde.
Ainda assim, até mesmo as companhias responsáveis pelas ferramentas orientam que os usuários tenham cautela ao utilizá-las para temas relacionados à saúde. Em contato com o Canaltech, a OpenAI — responsável pelo ChatGPT — afirmou que a IA não substitui a orientação de profissionais qualificados na elaboração de planos de treino.
“Incentivamos o uso responsável de ferramentas de IA como um recurso complementar, que ajuda as pessoas a aprender, organizar informações e formular perguntas mais bem fundamentadas, e não como uma solução única para decisões relacionadas ao treinamento físico ou à saúde”, destacou a empresa.
A companhia liderada por Sam Altman também afirmou que o ChatGPT conta com mecanismos de segurança que têm como objetivo “mitigar recomendações que possam causar riscos”.
Google e Anthropic, responsáveis pelo Gemini e pelo Claude, respectivamente, retornaram as tentativas de contato da reportagem até o momento.

Outro ponto de atenção diz respeito ao compartilhamento de informações pessoais com ferramentas de inteligência artificial. O advogado Pedro Sanches, especialista em proteção de dados e direito digital, recomenda que os usuários estejam atentos às práticas de transparência das empresas.
“A cautela deve se concentrar principalmente na verificação das práticas de transparência da plataforma escolhida. É recomendável que o usuário avalie se há clareza nas políticas de privacidade e se existe explicação sobre o destino e a forma de tratamento de suas informações”, destaca.
Segundo o especialista, esse cuidado deve ser adotado independentemente da plataforma com a qual as informações estão sendo compartilhadas, desde chatbots de IA até aplicativos fitness que prometem automatizar a prescrição de treinos.
Apesar dos riscos, os recursos de inteligência artificial também são vistos como potenciais aliados pelos profissionais. Eles destacam que a tecnologia pode ser usada principalmente para organizar treinos a partir de informações do aluno fornecidas periodicamente.
“Se você tiver uma IA cuja base de dados, a partir das informações fornecidas sobre os alunos, consiga predizer que, ao seguir determinado caminho, essa pessoa pode desenvolver situações complicadoras para a saúde, é possível personalizar ou até hiperpersonalizar o treino. Isso permite selecionar exercícios e métodos que evitem esse direcionamento”, afirma Ferreira.
Ferreira acrescenta que, a partir disso, o profissional entra na etapa de transformar esse conteúdo em prática, com didática e acompanhamento adequados. Esse processo indica como é possível haver uma “parceria” entre o trabalho humano e a automação oferecida pelos apps de IA.
“Eu acredito que o profissional de educação física que não usar IA pode acabar sendo superado por aquele que usa. Eu mesmo utilizo IA e considero muito válido, mas sempre como ferramenta. Quem decide, ajusta e cuida da segurança do aluno continua sendo o profissional”, conclui Twin.
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