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Dois em cada três domicílios chefiados por negros no Brasil sofre com a fome, que além de cor, tem gênero: quando uma mulher negra chefia a casa, a situação é ainda pior.
Pesquisa divulgada nesta segunda-feira (26) revela que lares chefiados por pessoas negras são duas vezes mais atingidos pela fome que aqueles chefiados por pessoas brancas – e a situação é ainda mais grave quando uma mulher negra comanda a casa.
Os dados foram obtidos pelo recorte de raça e gênero do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil (VIGISAN), pesquisa que teve os primeiros resultados publicados em junho de 2022 – os dados revelaram que o Brasil tem 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer, número agravado pela pandemia de Covid-19.
No geral, uma pesquisa revela que mais de 60% dos lares chefiados por pessoas autodeclaradas pardas e pretas – a raça negra – sofrem com algum tipo de insegurança alimentar no Brasil.
A insegurança alimentar grave – a fome – atinge mais os lares chefiados por pessoas pretas (20,6%), seguidas de pardos (17%) e brancos (10,6%).
Quando observamos os casos dos lares chefiados por mulheres pretas, a situação é ainda mais grave: em 70% deles há algum tipo de insegurança alimentar.
Para Kiko Afonso, da Ação da Cidadania, uma das organizações que apoiam a pesquisa, os dados evidenciam a permanência do racismo estrutural no país e são, também, manifestação da desigualdade de gênero.
Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (“Conselhão”), Afonso defende que o governo intensifique os programas de transferência de renda e que o IBGE investigue a fome no país. “Precisamos da produção constante de dados como estes para poder ter a dimensão real de algo que assola o país”, afirmou.
A pesquisa realizou entrevistas presenciais, entre novembro de 2021 e abril de 2022, com 12.745 domicílios de 577 municípios brasileiros. Foram contempladas áreas urbanas e rurais de todas as regiões do país.
O recorte de raça e gênero da pesquisa do II VIGISAN 2022 mostra que a maior escolaridade (quando apessoa no comando da família tem 8 ou mais anos de estudo) não protege as famílias chefiadas por mulheres negras da falta de alimentos. 33% sofrem com insegurança alimentar moderada ou grave, em comparação com 21,3% dos homens negros, 17,8% das mulheres brancas e 9,8% dos homens brancos.
Estar desempregado ou trabalhar no mercado informal também fez diferença no que diz respeito à fome: neste cenário, a fome atinge metade dos chefiados por pessoas negras, em comparação com um terço dos chefiados por pessoas brancas.
Na condição de desemprego, a insegurança alimentar grave, ou seja, a fome, foi mais frequente em domicílios chefiados por mulheres negras (39,5%) e por homens negros (34,3%).
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