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O termo criado-mudo, usado para identificar o móvel de cabeceira, tem gerado discussões intensas sobre seu uso e suas possíveis raízes racistas na língua portuguesa.
A polêmica ganhou força recentemente, depois que a cantora Marvilla, participante do BBB 23, corrigiu o colega Gabriel por usar a expressão em uma conversa, afirmando que o termo “não se usa mais, porque é racista”. O episódio reacendeu o debate nas redes sociais.
A história que circula nas redes sociais sugere que “criado-mudo” seria uma referência a um escravizado que ficava em pé, em silêncio, ao lado da cama do “dono” durante a noite. No entanto, a origem do termo divide opiniões entre especialistas.
Contra a Origem Categórica:
Thiago André, criador do podcast História Preta, afirma que, pela área da História, não há como afirmar categoricamente que “criado-mudo” tenha uma motivação racial comprovada.
Gabriel Nascimento, linguista e autor do livro “Racismo Linguístico”, argumenta que essa história “não reflete uma realidade” histórica conhecida. Para ele, é mais relevante entender como a língua metaforiza o racismo estrutural.
Nascimento exemplifica o fenômeno com outras expressões, como “mercado negro” e “lado negro da coisa”, que ligam a palavra “negro” a conotações negativas e não valorizáveis.
A Favor do Contexto Racista:
O linguista Gabriel Nascimento enfatiza que, independentemente da fonte etimológica, o termo “tem ligação com o racismo estrutural da sociedade brasileira”.
O mestre em história Guilherme Oliveira concorda que reproduzir essa palavra hoje é uma expressão racista por fazer parte do processo histórico que desumanizou pessoas negras no país.
Uma corrente de pesquisa, focada na etimologia, sugere que “criado-mudo” seria uma tradução literal do termo inglês “dumbwaiter” (algo como “garçom mudo”), que se referia a um móvel com prateleiras ou, posteriormente, a um pequeno elevador de carga usado para subir e descer talheres e pratos.
A analogia com o inglês: O mestre em linguística Gabriel Nascimento também aponta para a analogia com o termo em inglês e explica que o ato de “metaforizar coisas com pessoas não vem do Brasil”.
O uso da palavra “criado”: Em livros do século XIX (como os de Machado de Assis), a palavra “criado” era frequentemente usada pela elite para se referir a trabalhadores domésticos da nobreza (e não necessariamente escravos), que realizavam tarefas como pegar objetos e abrir portas.
Historicamente, o móvel de cabeceira usado em 1890, por exemplo, era chamado de “donzela”, e o termo “criado-mudo” não era encontrado em dicionários da época, segundo pesquisa de Thiago André.
Independentemente de haver ou não “comprovação histórica do uso racial do termo” [criado-mudo], a discussão é avaliada por especialistas como positiva e construtiva.
Thiago André reforça que a ideia não é desmentir os horrores da escravidão, mas sim contribuir para que o debate ganhe corpo e que as pessoas busquem se informar mais.
Guilherme Oliveira conclui que a sociedade atual ainda carrega uma grande herança escravocrata. Romper com o uso de expressões e palavras ligadas a esse passado é fundamental para construir uma sociedade antirracista e desigual.
O objetivo final é levar o letramento racial para as pessoas e conscientizar sobre o racismo estrutural que se manifesta em nossa linguagem.