Compradores estrangeiros fomentam negócios em programa da ApexBrasil

Stella Knight desembarcou pela primeira vez no Brasil com uma agenda cheia de reuniões e o desejo de visitar o Cristo Redentor, na cidade do Rio de Janeiro. Ela é representante da Reliable Foods, distribuidora queniana que abastece redes de supermercados em toda a África Oriental e fornece alimentos para missões humanitárias em países como Somália e Sudão do Sul. O que a trouxe a São Paulo, porém, não foi o turismo. Foi a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Knight foi uma das dezenas de compradores estrangeiros que participaram, entre 7 e 9 de abril, do Exporta Mais Brasil, na feira Anuga Select Brazil 2026, no Anhembi. O evento reuniu outras dezenas de empresas brasileiras do setor de alimentos e bebidas com importadores de diferentes países para rodadas de negócios estruturadas. 

“A ApexBrasil me fez sentir em casa desde o momento em que pus os pés no Brasil”, disse Knight, que chegou ao evento já com especificações detalhadas de alguns dos produtos que buscava: mel, molhos, especiarias, ovos e frutas frescas. “Há uma missão começando no Haiti, e o Brasil está perto, então faz sentido o abastecimento de produtos brasileiros.”

Pode parecer simples, mas são oportunidades otimizadas para negócios: reuniões de matchmaking, cada uma com duração definida, realizadas frente a frente, aproximando empresas brasileiras e outras de diversos pontos do globo. A organização difere da lógica da maioria dos programas de promoção de exportações, que geralmente levam empresas brasileiras para o exterior. No Exporta Mais Brasil, os compradores internacionais vêm ao Brasil, o que dá a oportunidade de todos terem contato com eles.

O programa existe desde 2023 e, em pouco mais de dois anos, realizou 42 edições em todas as regiões do país, conectando 1.563 empresas brasileiras a 471 compradores de 76 países. A expectativa de negócios acumulada desde o lançamento ultrapassa R$ 940 milhões. Só em 2025, foram 14 edições. Para 2026, a ApexBrasil projeta 85 edições do programa por todo o Brasil. A edição desta semana, em parceria com a feira Anuga, é a primeira do ciclo dedicada ao setor de alimentos, bebidas e agronegócio, com 65 vagas para rodadas de negócios e 20 vagas para empresas que também montaram estandes individuais no evento. 

Do lado brasileiro da mesa

Se os compradores percorrem milhares de quilômetros para chegar a São Paulo, as empresas brasileiras que participam do programa têm histórias que viajam no tempo. Em 2009, uma delas, a 100% Amazônia, nasceu pelas mãos de duas lideranças femininas. Em Belém (PA), a empresa começou a fomentar a cadeia do açaí, um produto que ainda tem colheita quase artesanal, árvore por árvore na floresta. Hoje tem uma fábrica no Pará, certificações orgânicas nos Estados Unidos e na Europa, e exporta para mais de 50 países. 90% do faturamento, proveniente de produtos como polpa e pó da fruta, vem do mercado internacional.

“Sem a ApexBrasil e o Ministério da Agricultura, seria praticamente impossível estar onde estamos”, afirma Daniela Meirelles, responsável pelas vendas internacionais da empresa. “Uma participação em feira internacional, só de estande, custa no mínimo R$ 50 mil. Sem esse suporte das instituições, abrir tantos mercados seria muito difícil”. A 100% Amazônia participou de reuniões com compradores da Índia, da China e dos Estados Unidos. “As rodadas são muito inteligentes. O negócio não é fechado ali, na hora. Mas os clientes vêm como consequência”, diz. 

A Predilecta, indústria alimentícia fundada no interior paulista, na cidade de Matão, com sete plantas industriais e presença em mais de 60 países, estreou no programa do Exporta Mais nesta edição, apesar de já ser parceira da ApexBrasil em feiras há anos. Para Samantha Paganini, do departamento de exportação da empresa, a rodada trouxe oportunidades. “Tivemos contato com compradores dos Emirados Árabes, da Indonésia e de Moçambique, que para nós são mercados novos e que mostraram muito interesse”, comenta. 

Já Luis Rosa, CEO da Surreal Bisks, tem uma história entrelaçada com a ApexBrasil. Fundada em 2022 em São Paulo, a empresa, que produz snacks proteicos sem glúten e sem lactose, participou de iniciativas da Agência voltadas a design, e-commerce e capacitação. “Sem o suporte da ApexBrasil, nunca teríamos feito uma participação internacional porque é preciso preparação técnica e da abordagem certa. Não adianta só ‘soltar’ o cara numa feira”, destaca Luis.

A empresa, que nasceu de um ano de pesquisa prévia e altamente inovadora, investiu em uma fábrica especializada em São Paulo. Em 2024, a Surreal Bisks levou dois sabores à primeira feira plant-based da Europa com o apoio da ApexBrasil – e ganhou medalha de ouro no concurso realizado no evento. Hoje exporta para a Inglaterra, e está em negociação com um parceiro em Dubai. A partir dos contatos na rodada de negócios na feira Anuga, Luis tem expectativa de concretizar US$ 100 mil em negócios nos próximos nove meses. 

O programa não escolhe as empresas participantes apenas pelo volume de exportações. O regulamento do Anuga Select Brazil 2026 estabelece critérios de pontuação que incluem diversidade na liderança. Empresas chefiadas por mulheres, como a 100% Amazônia, ou por pessoas negras e pardas recebem pontuação extra no processo seletivo. Também há reserva de 10% das vagas para cooperativas, preferencialmente da agricultura familiar, em parceria com o Sebrae.

Viagem de compras

O perfil diverso dos compradores que participaram da edição reflete o escopo da atuação da ApexBrasil no setor alimentício: agropecuária, alimentos e bebidas responderam por 46% das exportações apoiadas pela agência no primeiro semestre de 2025, com US$ 23,2 bilhões. Em 2025, a indústria alimentícia brasileira representou 10,8% do PIB nacional, e exportou US$ 66,73 bilhões. 

Julio Cezar Plinta, da distribuidora italiana de produtos latino-americanos Plaza Latina, por exemplo, veio em busca de bebidas, como cervejas, destilados e sucos concentrados. “Minha agenda está cheia”, diz. Segundo ele, há expectativa de grande salto nas transações com o acordo Mercosul-União Europeia, cuja implementação, após assinatura do acordo, ainda está em curso. “Existem empresas brasileiras enquadradas nos níveis de qualidade exigidos pela UE, mas elas precisam adaptar embalagens, volumes e lista de ingredientes. Isso deve ser facilitado com o acordo”, diz Plinta. 

Já da Argentina, veio Uriel Hendler, da Naccato, empresa que começou fornecendo insumos para restaurantes de sushi próprios em Buenos Aires e se tornou distribuidora nacional de produtos orientais, chegando a cadeias e distribuidoras em todo o país. Em sua primeira vez no país, Hendler afirma que as condições diferenciadas pela parceria via Mercosul o atraíram. “O Brasil está mais avançado que a Argentina em termos de estrutura, ordem e profissionalismo”. Ele diz que o processo para participar da rodada foi “fluido”, com formulários e comunicação facilitados com a ApexBrasil.

Hendler sinalizou intenção de voltar ao Brasil no ano seguinte. “Não vou embora de mãos vazias”, disse. Para Stella Knight, que comemorou que seu visto brasileiro permite múltiplas entradas por um ano, a expectativa é “que esta seja a primeira de muitas viagens”.

Fonte

ÉTopSaber Notícias
ÉTopSaber Notícias

🤖🌟 Sou o seu bot de notícias! Sempre atualizado e pronto para trazer as últimas novidades do mundo direto para você. Fique por dentro dos principais acontecimentos com posts automáticos e relevantes! 📰✨

Artigos: 65999

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verified by MonsterInsights