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A escolha de Ronaldo Caiado como pré-candidato a presidente do PSD demonstrou o pragmatismo de Gilberto Kassab, presidente do partido, no sentido de formar uma grande bancada legislativa em vez de criar uma alternativa eleitoral de centro ou de terceira via para a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o bolsonarismo.
O lançamento da pré-candidatura confirmou que Caiado será um pré-candidato de oposição ao atual governo, com críticas ácidas e duras ao presidente Lula. Em suas primeiras declarações logo após ter sido escolhido, o governador de Goiás deixou claro que é um candidato que tem lado, o lado antipetista do eleitorado: “Sou o mais antigo e longevo adversário do PT.” Em sentido oposto, prometeu anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro se for eleito, criticou fortemente Lula e procurou poupar Flávio Bolsonaro (PL) de ataques. Em respostas genéricas, afirmou que “falta comando” ao Brasil e que, se eleito, buscará “resultados”.
Caiado também recusou o rótulo de uma candidatura que apontasse um caminho alternativo ao país. “Não tem nada a ver com terceira via. Eu sou via de independência”. As primeiras declarações demonstram que a escolha de Kassab foi no sentido de buscar votos no campo antipetista do eleitorado para eleger uma grande bancada congressual.
Isso significa que Caiado disputará votos antipetistas com Flávio Bolsonaro, o que, em tese, pode beneficiar Lula no primeiro turno. No entanto, como o senador do PL está muito à frente nas pesquisas, há a possibilidade de Caiado se transformar em uma “linha auxiliar” do filho do ex-presidente, ou seja, em um franco atirador nos ataques a Lula, buscando apenas uma composição no segundo turno — o que ele negou em entrevista.
A confirmação de Caiado torna ainda mais crucial para Lula e Flávio a disputa pelo eleitor de centro neste primeiro turno. O voto em Caiado deve ser um voto mais à direita, como ele próprio deixou claro querer buscar. Isso abre a possibilidade de Flávio trabalhar sua imagem como “moderado”, a exemplo do que estão dizendo seus aliados.
A candidatura de Caiado sinaliza o que o entorno de Flávio esperava, com melhores condições de negociação para ele em um eventual segundo turno. Nos bastidores, já há conversas no sentido de que Caiado seja um “superministro” em 2027, caso Flávio seja eleito.
Ao fim e ao cabo, o cenário desenhado até agora indica que o eleitor “independente” ou de “centro” terá que optar pela esquerda ou pela direita já no primeiro turno. Ou seja, a estratégia das principais campanhas passa por garantir esse voto desde o início.
A confirmação da pré-candidatura de Caiado também acaba com as especulações de que pudesse haver um entendimento entre PT e PSD em torno do posto de vice de Lula. Apesar de alas petistas defenderem essa composição, fica mais certo que Geraldo Alckmin (PSB) deverá seguir no posto.
Segundo apurou o JOTA, Kassab foi aconselhado por alguns interlocutores a escolher o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que tinha uma plataforma contra Lula e o PT e também contra a família Bolsonaro. Essa escolha seria a forma de trabalhar o partido para os tempos futuros, mais especificamente, para 2030. No entanto, Kassab optou por anunciar Caiado, um nome antipetista, mesmo que seu partido esteja ocupando três importantes ministérios no atual governo.
Em conversas com correligionários, Kassab avaliou que uma candidatura antipetista ajudará candidatos do PSD nos estados porque, na visão do presidente do partido, há um “sentimento de renovação no país”, conforme relatos colhidos pelo JOTA. Preterido, Eduardo Leite se manifestou de maneira contrária:
“A decisão tomada pelo partido tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país. Eu acredito em um outro caminho, acredito num centro liberal, democrático de verdade, não como uma posição de conveniência”, declarou Leite. “Isso não termina aqui. A política dinâmica e jornadas como essa não se encerram com uma uma decisão partidária, essa jornada continua na sociedade, continua nas ideias, continua naquilo que a gente planta, se não for agora, vai ser logo ali adiante, mas o Brasil vai sim reencontrar o caminho do equilíbrio, vai reencontrar o bom senso, vai recolocar a política no seu devido lugar, o de servir as pessoas e não de dividi-las, e eu sigo comprometido com isso. Leal ao Brasil, hoje, amanhã e sempre”.
Sempre apontado como um político que enxerga longe, Kassab terá a partir de agora que mostrar a viabilidade de sua escolha. Para isso, precisa, antes de tudo, conseguir um vice que sinalize ao centro. Se, novamente, escolher um nome totalmente alinhado ao campo antipetista, estará deixando claro que ele também escolheu um lado nesta eleição. E, ao lado do pragmatismo dentro do cenário apontado pelas pesquisas, a escolha por Caiado, com a defesa enfática da anistia, também posiciona o PSD para o cenário hipotético e até aqui improvável de implosão da candidatura de Flávio.