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O que os brasileiros esperam da democracia? A resposta é: quase tudo. Segundo uma pesquisa nacional representativa conduzida em fevereiro pelo INCT ReDem com 1.504 entrevistas presenciais em todo o país, mais de 42,5% dos brasileiros acima dos 16 anos defendem uma democracia “multidimensional”, isto é, um regime que una eleições limpas, direitos fundamentais e redução das desigualdades sociais. São pessoas que não aceitam uma democracia apenas eleitoral.
Quando essa mesma questão é colocada aos europeus, o cenário muda de figura. Dados do European Social Survey (ESS), uma pesquisa comparativa aplicada desde 2002 e que, em 2021-2022, ouviu dezenas de milhares de pessoas em 31 países, mostram que apenas 7% dos europeus têm expectativas semelhantes sobre o desempenho do regime democrático. A proporção é seis vezes menor.
As diferenças não param por aí. Somando todos os brasileiros que querem uma democracia que vá além do mero funcionamento institucional – se somarmos aqueles que priorizam a proteção social (21%) ou a participação direta na deliberação política (1,5%), além dos 42,5% multidimensionais – chegamos a 65%. Na Europa, os perfis equivalentes totalizam apenas 27%. Ou seja, enquanto a maioria dos brasileiros quer uma democracia que transforme de fato a sociedade, a maioria dos europeus se satisfaz se ela funcionar conforme padrões mínimos, com eleições regulares e trocas de governos.
Há razões históricas para isso. Em grande parte das democracias europeias, os direitos políticos e a proteção social já são realidades consolidadas desde meados do século 20. No Brasil, ao contrário, eles ainda são, para muitos, uma promessa não cumprida. Quem sente na pele a desigualdade material tende a esperar que a democracia alivie os seus efeitos, e não apenas garanta o ritual do voto a cada quatro anos.
Mas a comparação também revela um outro lado dessa história. A pesquisa do INCT ReDem identifica 32% de brasileiros “não democratas”. São pessoas que não consideram essencial que haja eleições limpas ou igualdade jurídica para que o regime seja democrático. Na Europa, esse grupo soma 22%. Aqui, esse grupo só vê a democracia como um regime legítimo quando os governos da sua preferência estão no poder.
Esse descompasso entre quem cobra muito da democracia e quem dispensa até o mínimo institucional ajuda a explicar a nossa crônica instabilidade política. Quando o regime não corresponde a expectativas tão altas, a frustração rapidamente se converte em descrédito.
O risco brasileiro está justamente nessa combinação: quem espera demais pode desistir cedo demais. E quem nunca valorizou o mínimo, pode aplaudir soluções autoritárias disfarçadas de eficiência.
Ainda assim, há uma força positiva nesses números. O desejo majoritário de uma democracia ampla, inclusiva e participativa mostra que a sociedade brasileira não perdeu de vista o que o regime deveria, utopicamente, ser. Mas esse ideal precisa encontrar instituições capazes de sustentá-lo.
Os liberais insistem numa democracia eleitoral esvaziada de conteúdo social, como se eleições limpas bastassem numa sociedade profundamente desigual. Os reacionários (aqueles 32% de “não democratas”) vão além: rejeitam tanto a democracia quanto qualquer política redistributiva, celebrando regimes autoritários quando conveniente.
O primeiro grupo reduz a democracia ao mínimo; o segundo quer aboli-la de vez. Nenhum dos dois compreende que numa sociedade como a brasileira, a democracia ou entrega justiça social ou perde legitimidade.
A democracia não pode prometer tudo. Mas, no Brasil, não sobreviverá se entregar muito pouco.