Amazônia: uma ciência para se pensar

Que ciência é reconhecida como ciência? E, sobretudo, quem pode ser reconhecido como sujeito do conhecimento? Estas perguntas atravessam a Amazônia desde muito antes de ela se tornar centro das atenções globais por conta da crise climática e da existência de recursos minerais.

Elas revelam uma tensão profunda entre modos distintos de conhecer, viver e interpretar o mundo: tensão que ainda estrutura a forma como a floresta e seus povos são percebidos, governados e estudados – mais como “objetos” que sujeitos do conhecimento.

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É certo que há ciência na Amazônia. É certo, ainda, que o conhecimento produzido na floresta permanece, em grande medida, negligenciado, silenciado ou tratado como saber menor, descredibilizado de sua inquestionável importância.

Historicamente, a Amazônia foi posicionada como margem: margem do desenvolvimento, da democracia e de uma ciência que se pretende universal, mas que se constrói a partir de referências do Norte Global. Essa ciência hegemônica se sobreleva aos conhecimentos dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e comunidades tradicionais, relegando-os ao campo do folclore, da tradição distante, do curandeirismo ou da curiosidade exótica. 

Paradoxalmente, é justamente nesse território atravessado por rios, florestas, conflitos e saberes plurais que emergem alternativas potentes para repensar o futuro. A Ciência Aberta, quando situada na Amazônia, transforma-se de um método de produção e circulação do conhecimento para uma estratégia política, cultural e epistêmica de revitalização de cosmologias próprias e de afirmação de direitos. Ela desloca a pergunta do como produzir conhecimento para indagações mais radicais: para quem, com quem e a partir de onde e com quais parâmetros se produz ciência?

O que é Ciência Aberta?

A Ciência Aberta, concebida como estratégia global de redefinição dos contornos e limites da produção e difusão do conhecimento, afirma-se como instrumento indispensável à democratização do acesso irrestrito aos conteúdos científicos e ao compartilhamento transnacional das pesquisas.

Na Amazônia, entretanto, a Ciência Aberta assume um significado próprio porque se conecta ao saber tradicional dos povos indígenas, que tem método. Tem rigor. Tem transmissão intergeracional, acúmulo histórico, testes empíricos e refinamento constante. Tudo isso define o que chamamos de ciência. Só que, neste caso, ela não vem do microscópio — vem da terra, da floresta, da relação com o tempo e com os ciclos da natureza.

Falar em Ciência Aberta na floresta é falar de dados, integridade da informação, de uma economia do conhecimento da biodiversidade que não transforma saberes em mercadoria, mas os reconhece como patrimônios coletivos, enraizados em territórios, cosmovisões de mundo e de modos de vida. São saberes sobre plantas, rios, solos, ciclos naturais, saúde e alimentação que não podem ser dissociados das pessoas que os produzem. A Recomendação da Unesco sobre Ciência Aberta destaca que não é suficiente apenas assegurar o acesso ao conhecimento científico, sendo igualmente essencial promover sua produção de forma inclusiva, equitativa e sustentável.

O conhecimento construído nos territórios não nasce apenas da “ciência fechada” constrita em laboratórios e centros de pesquisa urbanos. Ela emerge nos furos dos rios da Amazônia, nas rotas migratórias da fauna, no semear de plantas, nos caminhos de água que conectam comunidades, histórias e práticas ancestrais. Reconhecer essas redes de saber significa desafiar a centralização do conhecimento nos grandes centros globais e reposicionar a Amazônia como produtora de ciência própria, enraizada em sua realidade ecológica, social e cultural.

Conhecimentos tradicionais e indígenas como salvaguardas das ações climáticas

Os conhecimentos tradicionais e indígenas, nesse contexto, não podem ser vistos como meras heranças culturais: são verdadeiras salvaguardas das ações climáticas. As pesquisas locais são mecanismos para o enfrentamento da  reconhecida e tão citada escassez de estudos focados nas especificidades do bioma amazônico, dado que a Floresta Amazônica abrange uma extensão considerável e não possui limites físicos claramente definidos.

Sistemas agroflorestais, formas coletivas de manejo da terra, técnicas de preservação da biodiversidade e usos medicinais das plantas constituem respostas concretas à crise ambiental. Mais do que mitigar impactos climáticos, esses saberes ensinam a conviver com e a partir da floresta, reconhecendo a interdependência entre humanos e não humanos, cujo equilíbrio é condição necessária para o enfrentamento da destruição ambiental e climática que redefine os limites da vida coletiva – na floresta e fora dela.

Por isso, não há – nem deve haver – separação entre a luta pelo reconhecimento identitário, a demarcação de terras indígenas e as ações climáticas globais. Justiça climática exige não apenas reconhecimento simbólico dos saberes amazônicos, mas a sua incorporação em estruturas decisórias, fiscais, regulatórias e econômicas.

A defesa dos territórios é, ao mesmo tempo, defesa do clima, da biodiversidade e da vida. As disputas por terra e por reconhecimento cultural não estão deslocadas da luta pela igualdade socioeconômica. Os direitos fundamentais só se realizam na concomitância das dimensões simbólicas e materiais da existência.

Ciência, democracia e poder

Entretanto, persiste uma dificuldade estrutural de dialogar com diferentes grupos sociais sem reduzi-los a categorias abstratas ou enxergá-los como outros. Pensar em povos e comunidades tradicionais fora de estereótipos ainda é um desafio para o pensamento hegemônico. Nesse cenário, impõe-se outra pergunta: quem é o sujeito universal que define o que é ciência, o que é saber e o que pode ser validado como conhecimento? Quem decide quem detém a autoridade para definir essas questões, e com que legitimidade o faz?

O Norte Global continua a operar como instância legitimadora, validando o que conta – e o que não conta – como ciência, a partir de um regime de conhecimento marcado pela colonialidade do saber e pelo epistemicídio sistemático, seja de modo analógico, seja pelo desenvolvimento de estruturas e agentes digitais.

Ao fazê-lo, perpetua desigualdades epistêmicas profundas e naturaliza a ausência de grupos tradicionalmente excluídos da ciência como povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos nos espaços de produção do conhecimento, nas universidades, nos centros de decisão e nos debates sobre o futuro do planeta.Essas ausências não são neutras: são produzidas e mantidas por estruturas que concentram oportunidades e poder.

Não há democracia sem oportunidades. São as oportunidades – ou a falta delas – que determinam os rumos das nossas vidas do nascimento até a morte. Quando certos grupos são sistematicamente marginalizados e desconsiderados do reconhecimento científico, político e econômico, a desigualdade deixa de ser exceção e passa a ser regra e o pluralismo, que deveria ser a regra, passa a ser exceção. Por isso, pensar a Ciência Aberta na Amazônia é também pensar justiça social, inclusão e democracia.

A ciência que nasce do território e a margem como centro da vida

A ciência produzida na Amazônia, quando reconhecida em sua plenitude, não considera apenas a vulnerabilidade do clima, mas também a vulnerabilidade das pessoas que habitam a floresta. É um conhecimento que entrelaça crenças, práticas e saberes oriundos de cosmovisões indígenas, negras e ribeirinhas.

Um conhecimento que compreende que não há separação entre território, corpo, cultura e natureza; que não exclui para ser válido. Ciência também é o olho treinado para perceber a coloração da folha. É o silêncio que escuta os sinais do tempo. É o saber acumulado em histórias, em rituais, em práticas que salvam, previnem, nutrem e cuidam.

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A floresta nunca foi ausência de conhecimento; foi ausência de reconhecimento. Reconhecer, assim, a Amazônia como lugar de ciência é reconhecer seus povos como sujeitos do conhecimento e não “objetos” de estudo. É aceitar que existem múltiplas formas de racionalidade e que o futuro não será construído a partir de uma única visão de mundo.

Pensar uma Ciência Amazônica é, em última instância, um exercício de escuta, humildade e reconstrução democrática. É compreender que o futuro da ciência, e da própria humanidade, depende da capacidade de dialogar com aquilo que, por muito tempo, foi tratado como margem, mesmo quando sempre esteve no centro da vida.

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