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Os defensivos agrícolas se tornaram uma frente estratégica para a infiltração do crime organizado no agronegócio brasileiro, com riscos que preocupam o setor. Esse é um dos mercados ilícitos das organizações criminosas, que migraram das cidades para se fixar no interior e áreas rurais, com logísticas próprias e negócios rentáveis.
Ao longo da última década, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a disputar territórios nas zonas agrícolas, onde encontram infraestrutura consolidada para o transporte, menor presença do Estado e cadeias produtivas com grande circulação financeira, de acordo com diagnóstico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
“Essa combinação cria oportunidades para que áreas agrícolas funcionem como hubs logísticos para diferentes mercados ilícitos”, explica Leonardo Silva, pesquisador sênior do FBSP. O mercado de defensivos agrícolas ilegais é uma das mais novas minas de ouro da interiorização das facções.
Esses produtos se movimentam por elos logísticos próprios do crime organizado, que formam a chamada “Rota Caipira”, conectando fronteiras ao interior do país. Dados da Receita Federal e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pelo JOTA, somados a levantamentos do setor, dão pistas sobre o espaço ocupado por esse mercado ilegal.
O volume total de agrotóxicos apreendidos nas rodovias federais, incluindo produtos contrabandeados, falsificados, adulterados ou sem registro no país, chegou a 127 toneladas em 2025, mais do que o dobro das 62,9 toneladas apreendidas em 2024. Antes, em 2023, o volume se aproximava de 200 toneladas.
Ao mesmo tempo, as apreensões de agrotóxicos irregulares pela Receita cresceram 55% entre 2020 e 2025, atingindo R$ 16,4 milhões. Mas o pico foi em 2023, com quase R$ 60 milhões apreendidos.
As oscilações nas apreensões não indicam, necessariamente, quedas nesse mercado ilegal, mas subnotificação e limitações dos órgãos de controle. “Os números variam conforme o foco das operações e as prioridades estratégicas. Em alguns períodos, a fiscalização é direcionada para determinados tipos de ilícitos ou regiões específicas, o que pode influenciar o volume de apreensões”, explica o chefe do setor de enfrentamento aos crimes transfronteiriços da PRF, Thiago de Castro.
Além disso, a detecção pelas autoridades é complexa: os defensivos são ocultados como outras mercadorias, enviados em pequenas cargas ou fragmentados. O uso de estradas vicinais e vias secundárias também tem sido uma estratégia de sucesso para evitar fiscalização.
“Muitas vezes, a identificação exige conhecimento técnico específico. Sem essa qualificação, é difícil distinguir um produto falsificado ou irregular apenas pela análise visual”, afirma Castro.
Os números da Receita Federal sugerem ainda que mercado ilegal de defensivos agrícolas não se restringe a rotas rodoviárias, mas envolve cadeias internacionais de fornecimento e distribuição. A concentração geográfica das apreensões reforça esse ponto.
No ano passado, as maiores apreensões ocorreram em cidades como Eldorado (MS), quase na fronteira com o Paraguai; e em Boa Vista, capital próxima à divisa com a Venezuela e Guiana. Em 2026, o padrão se mantém, com Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul entre os estados com maior número de apreensões até agora.
Tradicionalmente, as regiões de fronteira com Paraguai e Bolívia, funcionam como principal porta de entrada do contrabando de drogas, armas e cigarros. Essas rotas foram então adotadas para o tráfico de defensivos agrícolas ilegais, que se conectam à malha de transporte do agronegócio legítimo.
“As organizações criminosas aproveitam a infraestrutura logística já existente para ampliar a distribuição de insumos agrícolas ilegais”, comenta Nilto Mendes, gerente de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil.
Assim, a Rota Caipira do crime usa um corredor logístico que atravessa desde as fronteiras do Mato Grosso do Sul e Paraná, até polos agrícolas de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Ela também se formou a partir de uma oportunidade de mercado: uma ampla e pulverizada infraestrutura rodoviária, justamente para o escoamento da produção agropecuária, somada a brechas de fiscalização.
Embora o uso desse corredor por organizações como o PCC seja conhecido, especialistas apontam que o enfrentamento é afetado pela extensão territorial, multiplicidade de vias secundárias e a adaptação constante das organizações criminosas.
Essa rede opera com divisão de funções, envolvendo transportadoras, caminhões e intermediários locais para pulverizar a distribuição e confundir a fiscalização, segundo as investigações. Para impedir que os produtos sejam rastreados, elas falsificam rótulos e reutilizam embalagens. Por fim, o mercado do insumo agrícola se consolidou como um dos elos de lavagem de dinheiro das facções.
Contudo, a estratégia logística e operacional não foi um único fator a permitir que esse mercado florescesse. O próprio desenvolvimento do agronegócio brasileiro gera uma demanda sempre crescente por insumos agrícolas, o que, na falta de fiscalização mais robusta sobre os materiais aplicados pelos produtores, fomentou a atratividade do mercado ilegal de defensivos.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) é responsável por operações de fiscalização e controle sobre o uso de defensívos agrícolas, mas a avalição do setor é que os preços baixos, aliados a lacunas na fiscalização e na rastreabilidade, facilitam a adesão ao mercado ilegal.
A pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos comenta que o avanço faz parte de uma estratégia mais ampla do crime organizado. “As organizações criminosas têm buscado novos mercados com alta circulação financeira e menor capacidade de fiscalização. O agronegócio reúne essas características”, afirma.
E a demanda não deve diminuir. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), a área tratada com defensivos deve alcançar 2,6 bilhões de hectares em 2025, com crescimento de 6,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, estimativas do setor indicam que produtos ilegais podem representar até um quinto do volume total de defensivos usados no Brasil
A presença desses produtos, além de representar concorrência desleal, cria riscos operacionais e comerciais para produtores e empresas, além de levantar preocupações ambientais e sanitárias. Produtos sem registro podem contaminar solos e mananciais, além de gerar resíduos acima dos limites permitidos, por exemplo.
Agora, uma nova preocupação é que a penetração do crime possa ser facilitada pela pressão de preços exercida em fertilizantes e insumos agrícolas, devido a conflitos geopolíticos. O início da Guerra no Irã, em fevereiro, fez disparar o preço da ureia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Com isso, o produtor precisará cortar custos e pode ter um incentivo a mais para migrar para o mercado ilegal de agrotóxicos.
Diante desse cenário e de seu papel estratégico, o mercado ilegal de defensivos agrícolas passou a ganhar mais prioridade no combate ao crime organizado. Ele ganhou atenção em iniciativas como o Programa Vigia, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e operações integradas no âmbito do Plano Nacional de Fronteiras.
A atuação conjunta entre forças de segurança, aduana e fiscalização agropecuária também tem aumentado as apreensões e permitido mapear rotas utilizadas pelo crime organizado. Ainda assim, especialistas avaliam que a dinâmica do crime organizado tem evoluído de forma mais rápida do que a capacidade de resposta do Estado.
Nilto Mendes, da CropLife Brasil, aponta que, embora as apreensões tenham aumentado, elas ainda não são suficientes para conter a expansão das redes criminosas, já que elas operam com logística estruturada e distribuição pulverizada.
Na perspectiva da pesquisadora do Ipea Maria Paula Gomes dos Santos, o avanço do crime organizado para atividades econômicas legais, como cadeias produtivas agrícolas, e por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro torna o combate ainda mais complexo. Isso exigiria esforços melhor coordenados.
Nessa linha, um ponto crítico é a necessidade de integração entre diferentes órgãos, desde as forças de segurança até a vigilância agrícola. A ausência de compartilhamento sistemático de dados e de estratégias conjuntas entre fiscalização, inteligência e investigação limita a capacidade de atuação. Ainda, em regiões de fronteira, a cooperação internacional também é essencial para reduzir a entrada de produtos ilegais.
Além disso, esse combate passa por aprimorar a integração entre forças de segurança, fiscalização agropecuária e inteligência financeira, com foco na identificação de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao agronegócio. A recomendação aparece em análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), reunidas no Boletim de Análise Político-Institucional, que apontam a necessidade de ampliar operações conjuntas e fortalecer o monitoramento de rotas logísticas utilizadas pelo crime organizado, por exemplo.
Com a conexão tão forte entre crime e demanda do agronegócio, o enfrentamento ao problema dependerá de estratégias integradas entre segurança pública, fiscalização e políticas agrícolas.