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Para tentar abafar no noticiário sua relação indecorosa com o principal protagonista do escândalo do Banco Master, o pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro embarcou para os Estados Unidos sem agenda previamente definida e com o desejo de ser recebido pelo presidente Donald Trump, o que acabou acontecendo.
Na ocasião, Flávio afirmou que sua recepção na Casa Branca foi “um sinal de que sua candidatura é sólida e confiável”. E disse ainda que, se for eleito em outubro, colocará o Brasil na aliança Escudo das Américas, lançada há três meses pelo presidente americano.
Do ponto de vista político, a estratégia foi insensata e até patética. Mais grave ainda, ao agir como um político suburbano e áulico, esse pré-candidato mostrou não apenas seu monumental desconhecimento no campo da geoeconomia, mas os imensos riscos a que o Brasil será submetido caso ele ascenda ao Palácio do Planalto. O motivo é sua absoluta incapacidade, em um mundo cada vez menos multilateral, de lidar com os riscos financeiros, tecnológicos e comerciais decorrentes de um alinhamento político automático em matéria de política externa.
Como seu pai Jair, Flávio também é tão inculto quanto inconsequente. Sua visão de mundo também é simplória, baseada na premissa do fascismo e do nazismo no sentido de quem não é amigo, é inimigo e, como tal, deve ser desprezado. Dito de outro modo, em um mundo marcado pela tensão entre as duas maiores potências econômicas, econômicas e militares, o Brasil não está imune aos efeitos diretos das tensões políticas – e de seus custos econômicos – entre Estados Unidos e China.
A título de exemplo, esses custos podem impactar o preço do diesel, o custo dos fertilizantes e a inflação dos alimentos. Como cerca de 65% das cargas no Brasil são transportadas por caminhões, os custos de frete e dos seguros serão majorados em decorrência da elevação do preço do diesel. Por tabela, os custos da produção agrícola e da energia aumentarão os preços dos alimentos.
Mas não é só: se Flávio Bolsonaro for eleito e seu governo se alinhar automaticamente aos Estados Unidos, o que garante que a China – cujo superavit comercial mundial é altíssimo – não procurará outros parceiros comerciais, em detrimento do Brasil?
Como os analistas e articulistas do Financial Times têm lembrado, não é de hoje que a China descobriu que a manutenção de algumas cadeias de suprimento em escala global depende do avanço de sua economia e de produtos cada vez mais especializados por ela exportada.
Também não é de hoje que a China vem reorganizando suas cadeias de valor com os chamados países intermediários. Enquanto isso, com base na palavra de ordem America First, o governo Trump continua enfatizando o unilateralismo, retirando-se de acordos internacionais, desrespeitando o direito internacional, defendendo normas americanas que cruzam fronteiras sob a justificativa de defender os interesses políticos e econômicos de seu país na ordem global e enfatizando a hegemonia baseada no poderio militar e nuclear dos EUA.
Dada sua inclinação de servir às causas e interesses do imprevisível inquilino da Casa Branca – a ponto de afirmar que o Brasil, por ter cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, seria o caminho para reduzir a dependência americana de minerais raros importados da China –, Flávio Bolsonaro talvez não saiba que esse país e os EUA hoje são responsáveis por mais de 40% das exportações e das importações brasileiras.
Com a crescente presença de Pequim no sistema econômico e comercial mundial, esse número deixa claro que o futuro econômico do Brasil vai depender da capacidade e da habilidade do próximo governo de acender duas velas a um só tempo – uma para cada um desses países.
De alguma forma, isso faz lembrar os tempos da Guerra Fria. Mais precisamente, o Brasil da década de 1960, quando o país estava dividido entre o alinhamento automático com Washington (justificado em nome do combate ao comunismo) e o neutralismo (o que lhe possibilitava um relacionamento comercial com a antiga União Soviética). Aquela foi uma época em que, com exceção dos governos Castello Branco e Médici, o Brasil formulou a chamada “política externa independente”, cujo objetivo era preservar margens de autonomia estratégica para a ação do Itamaraty.
Graças a essa política, concebida pelo embaixador João Augusto de Araújo Castro e pelos diplomatas que o assessoraram nas embaixadas que chefiou e quando foi ministro de Relações Exteriores, o Brasil cultivou a imagem de parceiro confiável, defensor do multilateralismo, da segurança internacional e da não intervenção em assuntos internos de outros países. Almejando o equilíbrio nas relações políticas internacionais, ela permitiu ao Brasil manter as portas abertas com diferentes polos de poder.
É isso que, em decorrência do despreparo e da falta de conhecimento histórico levou Flávio Bolsonaro a viajar para Washington, mendigando uma audiência com o poderoso chefão da Casa Branca. O pré-candidato da extrema direita brasileira não tem a menor ideia de que o atual período de “dependência externa dividida” entre China e Estados Unidos exigirá enorme prudência e muita sabedoria do Itamaraty no decorrer do próximo governo.
O mínimo que um aspirante à Presidência da República tem de ter é a consciência dos riscos inerentes ao jogo de soma zero no campo da diplomacia. Tudo indica que jamais passou pela cabeça de Flávio Bolsonaro que um alinhamento automático com os Estados Unidos corre o risco de ser interpretado como ameaça pela China – e isso, quase certamente, pode acabar tendo um alto custo para a economia brasileira e, por tabela, para a sociedade.